Os 10 melhores quadrinhos de 2018

Política, religião, racismo, intolerância, guerra, aventura, terror, amor: essas são as melhores HQ's de 2018.

Para um ano de crise editorial, 2018 foi repleto de lançamentos. Tivemos editoras novas se firmando de vez, tivemos editoras mais antigas se reestruturando para os novos tempos, tivemos editoras gigantes dando cada vez mais mancadas, tivemos vlogueiros cada vez mais populares e ajudando a espalhar a leitura da mídia. Os quadrinhos conseguiram se manter e tiveram um espaço ainda maior no país. Esse crescimento se viu com museus consagrados sediando exposições temáticas sobre gibis, quadrinhos sendo comentados cada vez mais nos canais de tevê tradicionais e até Bienais do Livro, como a de Brasília, que pela primeira vez tiveram um espaço dedicado exclusivamente para a nona arte, recebendo debates e sessões de autógrafos com artistas e editores do meio.

Tudo isso deixa claro como a mídia vem sendo cada vez mais respeitada, atingindo cada vez mais públicos não acostumados a esse tipo de leitura. A variedade de gêneros e publicações enriqueceu o mercado e proporcionou essa chamada aos mais desavisados. Antes do fim do ano teve até quadrinho dos Beatles sendo publicado.

Isso reflete a versatilidade da mídia e o quanto ela foi injustiçada ao longo dos tempos – e continua a ser por preconceitos bobos, de que era algo feito apenas para crianças. Hoje em dia há uma reflexão contrária sobre quem é o público de HQ’s, sendo que cada vez mais as pessoas mais velhas tomam conta do mercado e as crianças nem procuram mais os gibis como procuravam antes.

Com isso tudo, podemos falar dos lançamentos e destaques do ano. Considerei apenas quadrinhos lançados pela primeira vez no Brasil em 2018. Republicações, relançamentos e séries contínuas não entraram na lista. Por falar em séries contínuas, destaco a publicação de Hellboy – No inferno nº2 de Mike Mignola, lançado pela Mythos,  que encerrou de maneira brilhante a jornada do demônio mais querido do meu e de muitos outros corações.

Outro destaque que não entrou na lista foi Sem Volta (li há muito tempo o original), de Charles Burns, que se eu tivesse considerado, teria ficado em primeiro lugar, tamanho o meu amor pelo universo melancólico, surrealista e honesto sobre um cara detestável que se vê tendo que encarar seu passado literalmente de frente. Ponto alto para a Quadrinhos na Companhia por ter trago em versão integral reunindo os três volumes originais.

Três publicações que também amei e não entraram para a lista final foram: 1) A belíssima Cadafalso, de Alcimar Frazão publicada pela editora Mino. O brasileiro que já havia feito uma pequena obra-prima com O Diabo & Eu conseguiu extrapolar o clima existencialista que vivemos nesses tempos tão sombrios, com tanta desgraça e ódio, Cadafalso consegue retratar de forma poética e nada óbvia e política o momento atual do Brasil. Sem mencionar a arte sublime de Frazão, que constrói um preto e branco como poucos. 2) A segunda publicação querida foi Uma Irmã, de Bastien Vivés, uma espécie de diário sobre um verão de descobertas juvenis como a sexualidade e a dor do coração partido. Com um dos meus finais favoritos de 2018, me lamento até agora por essa publicação da editora Nemo não ter estado presente na lista. Tanto roteiro quanto a arte de Vivés são hipnotizantes, leves e divertidíssimos.  3) O terceiro pesar foi Duas Vidas, de Fabien Toumé, publicada aqui também pela Nemo. O quadrinho é honesto e conta com uma narrativa fluida que prende o leitor e ao final, quem tem um pouco de coração e vontade de viver está fadado a deixar algumas lágrimas escorrerem. Raríssimas vezes eu chorei com quadrinhos, esta foi uma delas.

Um outro destaque do ano é a editora Pipoca & Nanquim, que se firmou no mercado e trouxe ainda mais petardos em 2018. Algumas de suas pequenas e até grandes obras-primas que não entraram no corte final da minha lista foram: Um Pedaço de Madeira e Aço, mais uma pérola do mestre Chabouté, que a própria editora revelou no Brasil; O Anel do Nibelungo, obra de P. Craig Russel que adapta a ópera de Richard Wagner que entrou para sempre no meu coração; e  Conto de Areia, adaptação de um roteiro perdido do grande Jim Henson, criador dos Muppets. O gibi ficou a encargo de Ramon K. Pérez que fez um trabalho fantástico de narrativa gráfica e que ainda proporcionou um dos melhores e diferentes acabamentos de quadrinhos publicados no país.

Outra editora  que também se firmou no mercado dos quadrinhos foi a Darkside, cujos diversos e ecléticos lançamentos não figuraram em sua totalidade no meu top, mas que merecem ser ovacionados de alguma forma. No caso, O Corvo, de James O’Barr, e Black Dog, de Dave McKean, são dois belíssimos espécimes em termos editoriais e de conteúdo. O primeiro narra a dolorosa história criada por O’Barr para que este lidasse com a perda de sua amada. O segundo é uma viagem surrealista pelo universo do Artista Paul Nash pela visão sublime de McKean.

E para encerrar essa introdução de coisas lindas que ficaram de fora e que eu gostaria que mais pessoas lessem, ficam aqui três mangás que me fisgaram em 2018. Pluto, que seguiu o lançamento de 2017 e não só manteve o nível como a cada edição me deixa ainda mais tenso e curioso pela resolução do mistério; Jojo’s Bizarre Adventures, uma espécie de novela das nove com vampirismo e porrada contendo alguns dos desenhos mais estranhos que já vi; e por último, Akira, que é com certeza uma das melhores leituras de 2018, e só não figurou na lista por ser série contínua. Mas tendo em vista que sou um leitor de primeira viagem da série, só o que posso afirmar é que é um dos quadrinhos mais belos e impactantes que já li.

Claro que acabei falando muito e não consegui incluir todas as editoras, mas acredite, tenho ao menos um lançamento de cada uma delas no coração. A Devir trouxe uma linha de mangás maravilhosa, que teve lá seus problemas, mas conseguiu se firmar a cada lançamento. A editora mantém as ótimas e possivelmente perfeitas séries SAGA e Paper Girls. Teve também a Veneta, sempre pontual, lançando gigantes como Bernie Krigstein, que nunca tinha sido antes publicado por aqui. A Sesi-SP manteve o excelente trabalho com as séries Blacksad e Verões Felizes. A editora Figura desbravou dois outros gênios da nona arte, sendo um deles Carlos Nine, argentino com uma arte belíssima, subversiva e inusitada e o outro Alberto Breccia, com uma arte sublime em Mort Cinder.

No mais é isso, tivemos um ano incrível para qualquer fã de quadrinhos e também para aqueles que nunca leram nenhum gibi na vida. Um ano para ficar para na memória e que, apesar das crises, provou que o amor pela cultura, arte e histórias sempre irá sobreviver ao ódio e obscurantismo.

Jeremias Pele, de Rafael Calça e Jefferson Costa (Panini Comics/Graphic MSP)

Obra que deveria se tornar obrigatória em todas as escolas, com roteiro simples porém pungente que causa diversas reflexões sobre o racismo estrutural presente na sociedade. Jeremias Pele é um soco no estômago e emociona nas suas pouco menos de 100 páginas. A arte de Jefferson Costa é um destaque a parte, um dos desenhistas mais talentosos atualmente.

Shangri-la, de Mathieu Bablet (Sesi- SP)

A obra de Bablet é uma alegoria sombria sobre o que é a humanidade de hoje, fundada em consumismos desenfreados e automatizados, com ódio ao diferente e necessidade eterna de serventes e pessoas menores, com ideias sempre maiores de si mesma e com uma destruição iminente e mesquinha. (Leia a review aqui)

Terra dos Filhos, de Gipi (Veneta)

Um quadrinho que remete muito ao livro A Estrada, de Cormac McCarthy,  Terra dos Filhos é mais uma distopia da lista que, de uma maneira visceral, retrata a derrocada humana e até onde o isolamento e o ódio pelo outro podem levar. Duas crianças são o foco e acompanhamos tudo por meio de suas perspectivas, o que torna o ar ainda mais claustrofóbico e difícil de acompanhar. O final é aterrador e não tem como não querer abraçar aqueles dois “moleques” e falar que tudo vai ficar bem e o mundo não é assim tão desgraçado.

Paraíso Perdido, de Pablo Auladell (Darkside Books)

A adaptação do clássico poema de John Milton pelas mãos do espanhol Pablo Auladell é simplesmente um primor. Contendo algumas das páginas mais lindas que já vi, o destaque com certeza é a arte, que eleva ainda mais a história empolgante e bíblica narrada por Milton, além de deixar mais acessível esse épico complexo que eleva questionamentos sobre a perfeição divina e a ordem, questionamentos que todos deveriam estar fazendo.

A Arte de Charlie Chan Hock Chye, de Sonny Liew (Pipoca & Nanquim)

O épico de Sonny Liew, que cria um personagem fictício para narrar a história conturbada de Singapura, é um espetáculo. Liew cobre muita estrada histórica de uma maneira que nunca fica enfadonha, pelo contrário, é sempre instigante e curiosa. O aprendizado final perdura e as reflexões quanto a opressões, estados totalitários, líderes que entregam todos seu país em troca de interesses pessoais de riqueza e violência acabam se destacando e elevando essa obra para uma das mais importantes da lista. A sacada de fazer tudo isso narrado conjuntamente à história das histórias dos quadrinhos é algo de se bater palmas.

Beowulf, de Santiago García e David Rubín (Pipoca & Nanquim)

Mais um quadrinho da Pipoca & Nanquim, que desta vez traz uma adaptação de um clássico inglês e que por meio de sua narrativa visceral consegue atingir níveis de empolgação que não acontece normalmente. (Leia a review aqui)

Mort Cinder, de Héctor Oesterheld e Alberto Breccia (Figura)

O livro mais belo de 2018. Nenhuma arte supera a de Breccia. O roteiro de Oesterheld é divertido, sombrio e tem seu humanismo característico, mas Breccia é a estrela que ofusca qualquer coisa. O artista usava navalhas, canudinhos e sabe-se mais o que pra compor as páginas do quadrinho que era um periódico semanal(!). Todo quadro deve ser analisado, toda página, toda composição, tudo é perfeito e com uma riqueza de textura e detalhes raras. Impossível amar arte e quadrinhos e não se embasbacar com o trabalho de Breccia aqui. Uma obrigação a todos. Uma satisfação eterna a mim.

O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet (Pipoca & Nanquim)

Último lançamento de 2018 da editora Pipoca & Nanquim, O Relatório de Brodeck é uma escolha acertadíssima que levanta reflexões sobre a podridão humana e retrata o abismo em que o ódio e o medo podem nos levar. Muitos socos no estômago acontecem, especialmente aquele relacionado à mulher do protagonista. Ao fim da leitura eu me sentia sujo e odiava ser dessa raça que se chama de humana. Pesado, com uma arte que carrega com louvor essa atmosfera opressora, os desenhos de Larcenet quase conseguem alcançar o patamar de Breccia. Uma obra atual, que espero pare de ser tão atual assim, mas sei que nunca ocorrerá, pois a besta humana é eterna. (Leia a review aqui)

Cinco Mil Quilômetros por Segundo, de Manuele Fior (Devir)

Uma espécie de Trilogia do Amanhecer em quadrinhos. A obra de Fior é sublime. A arte é transformadora, o conteúdo é emocionante, o gosto final na boca é amargo. A qualidade gráfica e narrativa do quadrinho arrepiam, outra arte que quase empata com a maestria de Breccia. Uma história que se passa em várias épocas diferentes e conta a vida de duas pessoas supostamente apaixonadas. Conta sobre o medo de se comprometer com outrem, sobre os medos de crescer, sobre ciúmes nada justificados e ciúmes extremamente justificados. Tudo termina em uma chuva, uma chuva que parece lavar todos os problemas, mas que na verdade só cria mais lama e mantém a sujeira no sapato que nunca mais sairá. Uma obra ímpar, de uma delicadeza sem igual. Um dos melhores romances não convencionais que já vi. Uma porrada no coração e na alma.

Ayako, de Ozamu Tezuka (Veneta)

A história da Japão pós-guerra sendo narrada através da derrocada de uma família feudal que não consegue se encaixar nas mudanças do novo mundo que chega. Uma família asquerosa, uma baixeza humana quase inigualável. Se em O Relatório de Brodeck observamos o lixo humano através de uma aldeia e a esperança escassa através de crianças e estrangeiros, em Ayako, o que temos é tudo de ruim, vil, absurdo, sendo canalizado através das atitudes de uma família em relação a um membro desta. Uma criança inocente que sofre todo o castigo imaginável, é molestada, é encarcerada, é espancada, é privada de roupas e educação, é apenas um objeto onde toda a omissão de alguns membros da família refletem na destruição que outros causam. Há ainda todo o cenário político, no qual o Japão acaba sendo uma espécie de Ayako, sendo abusado, prisioneiro e objeto da vontade dos Ocidentais. O imperialismo nojento dos americanos, o ódio às causas sociais e partidos comunistas, e as mortes causadas por motivos de ordem política refletem todo o mal que avô, tio, pai, mãe e irmãos causam em Ayako. Ayako, o receptáculo nada justo da destruição dos seres racionais. Uma menina que merece ser estuprada apenas por estar dentro de uma instituição. A família revela a sua falta de valor, a política revela sua falta de rumo, e tudo dá espaço apenas para a imbecilidade e violência. A violência supera tudo, mas no final, não importa sua crença, seus feitos, seus pecados, sua omissão, todos nós estamos no mesmo buraco e todos nós iremos para debaixo da terra, podres, frágeis e insignificantes.

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