‘O Relatório de Brodeck’ é o que acontece quando normalizamos a intolerância

Último lançamento de 2018 da editora Pipoca & Nanquim deixa um gosto amargo na boca
Arte: Manu Larcenet, / Pipoca e Nanquim

O ano de 2018 foi especial para a editora Pipoca & Nanquim. A editora duplicou o número de títulos lançados em seu ano de estréia e ainda conseguiu ser uma ótima aliada das pessoas que, como eu, temem pelo futuro de seu país e resistem. Sim, é difícil para uma editora tomar um lado político mas, se quem publica livros não se posicionar diante do obscurantismo crescente que assola o mundo, especialmente o nosso país, então nem deveria publicar livros. E claro, os editores não precisam andar com camisetas vermelhas ou foices e martelos para demonstrarem como são oposição diante desse fascismo que vivemos. A melhor forma de demonstrar a importância da leitura e da arte é por meio das próprias publicações. E diante de obras como A Arte de Charlie Chan Hock Chye e agora este maravilhoso O Relatório de Brodeck, a editora conseguiu demonstrar o seu arsenal contra a idade das trevas.

Como último grande lançamento do ano, O Relatório de Brodeck foi uma boa surpresa. Vindo de um autor nada conhecido em nossas terras e baseado em um livro também à espera de publicação por aqui, Brodeck deixou os fãs da nona arte agitados e foi um sucesso de vendas. O que me deixa feliz, pois uma obra pungente chegou às mãos de muitos leitores necessitados desse tipo de conteúdo.

Em 2018, nós brasileiros vivenciamos uma eleição completamente imunda, desonesta e carregada pelo desmascaramento da crueldade dos que estão à nossa volta. Pudemos presenciar linchamentos de minorias ocorrerem em nome de um dos candidatos. Observamos suásticas desenhadas em vários muros e escolas pelo Brasil. E a intolerância começou a se tornar a norma. O ser humano, como afirma Foucault, tende a aceitar mais a norma do que seguir suas próprias leis. E foi o que aconteceu.

Falar de um livro como Brodeck sem associá-lo ao que nós estamos vivendo é impossível . Ao que eu estou vivendo. Como professor de Filosofia e Sociologia, presenciar ao longo deste ano discursos atacando educadores e mestres e defendendo youtubers como fontes seguras de conteúdo foi algo no mínimo surreal. Tudo isso está acontecendo agora e não existe a possibilidade de ser ignorado. A normalização do cruel se deu, e o momento de culpa chegará, mas ainda teremos que sofrer e presenciar muitas atrocidades.

Iremos passar por muitas provações, assim como o protagonista da obra de Manu Larcenet, o francês até então inédito no Brasil, possuidor de uma carreira extensa e prolífica. Esse protagonista dá título à obra junto de seu elemento mais importante: seu relatório.

Após presenciar uma reunião suspeita no meio da noite no bar local, Brodeck se depara com um dilema imposto a ele: buscar relatar de forma acurada e ao mesmo tempo neutra, o assassinato que acabara de acontecer. Esse relato se vê necessário, a partir do momento que a vila onde o fato acontece deve sempre prestar contas para a cidade maior da qual é anexada. E sendo assim, pressionado por basicamente toda a cidade que participara da reunião pós-mortem, Brodeck se vê sem opções e então dá início a investigação que o fará retornar para o inferno que é o passado e que a vila insiste tanto em esconder.

Partindo desta premissa, o foco do autor se torna claro: nos narrar um acontecimento que desencadeia mais problemas do que soluções. Seu protagonista, reticente, não se sente nunca confortável com a tarefa da qual foi incumbido. Mas não é apenas pela pressão que sofreu, há muito mais envolvido nesse desconforto. Brodeck tem um passado conturbado, desde pequeno a guerra é seu maior problema. Quando ainda criança, toda a sua vila foi destruída e colocada abaixo por chamas que o deixaram órfão e perdido, até que foi encontrado por uma velha que  o alimenta e o acolhe. Ambos partem em busca de um novo lar, onde encontram a vila que será cenário da trama principal. Mas ao longo de sua investigação, somos apresentados a flashbacks de momentos de um Brodeck já adulto sofrendo por causa da guerra. E ao fim do quadrinho, o que descobrimos consegue ser ainda mais triste e angustiante do que o que nos é mostrado aos poucos ao longo do início da obra.

A narrativa de Larcenet é precisa. Com uma arte que, segundo o próprio autor, remete aos clássicos como Caravaggio e Van Gogh. Essa alusão acaba  sendo mais em termos espirituais do impressionismo desses artistas do que do traço em si. Seu traço faz referência a mestres como Breccia e Solano López, especialmente pelo formato escolhido, o widescreen. Ainda assim, a arte consegue ter uma qualidade única que gera uma atmosfera assombrosa. É difícil destacar algo em uma obra onde todos os aspectos casam perfeitamente e a elevam a uma coerência pontual. Mas a arte chama muito a atenção, especialmente por quão sabiamente Larcenet utiliza o preto e branco: é um jogo de luz e sombras pouco visto por aí. Mas o texto original de Philippe Claudel adaptado pelo artista também tem seus jogos de mistério e niilismo precisos. Como Larcenet se utiliza da narração e como opta por silêncios arrepiantes é algo magistral, uma aula do que deve ser dito e do que deve ser mostrado.

Se não bastasse tudo isso, ainda somos introduzidos a uma avalanche de camadas a serem pensadas e até sentidas. Ao revelar aos poucos as atrocidades da guerra e como o ser humano se torna um nada diante da resistência à morte, a trama causa um impacto inicial que, ao final da obra, se eleva de uma forma inesperada. A construção é tão bem feita que, ao termos essa primeira parte dedicada a mostrar quão cruéis são os monstros que torturam, somos levados a odiar um inimigo específico, e disso acabamos sendo guiados a uma

experiência inconsciente de desprezo por seres monstruosos que são claramente o mal. Mas, na segunda parte, os monstros desenhados acabam se desmanchando em uma sombra de derrota e o que temos são monstros mais parecidos conosco, pessoas comuns, que se revelam as mais cruéis por meio de suas atitudes ou a falta delas. A omissão é um tema forte da trama, seja por meio de Brodeck e as humilhações que aceitou passar na esperança de permanecer vivo ou a falta de ação de seus conterrâneos diante de atitudes grotescas, em especial a impotência e cumplicidade que estes têm diante do acontecimento traumático que a mulher de Brodeck sofre.

E é por meio dessas ações, dessas atrocidades causadas pelos próprios membros da vila, que somos forçados a olhar para nós mesmos e refletir sobre como seríamos diante de tamanha desgraça. A guerra é uma momento anômico em qualquer sociedade, e portanto, como o ser humano se porta diante dela é algo que sempre será inesperado, tanto pelo lado que pratica as crueldades quanto pelo lado que as sofre. Mas quando não vivente desse tipo de situação, e ainda assim, a crueldade humana atinge níveis tão altos quanto, temos a verdadeira face dos seres racionais. A vila vive em paz após a guerra e basta um estranho chegar para que toda a sujeira de cada um ali seja cutucada. O estranho que ninguém nem se importa em saber o verdadeiro nome (no quadrinho seu nome fica sendo “Anderer”, que na língua da vila significa “estranho” ou “estrangeiro”) apenas pinta as paisagens, alegra as crianças e sempre serve como uma ótima companhia para conversar sobre qualquer assunto. Porém, ele é visto como o outro, alguém não pertencente, alguém que pode perturbar a paz vigente, e por isso merece a morte.

O estopim desse desejo popular quanto ao estrangeiro ocorre quando uma exposição de retratos que ele fez dos habitantes da vila acontece. Confrontados por suas faces reais, o povo da vila não consegue aceitar como o estranho os vê, muito pela realidade que ele revela neles mesmos, o que é comum, quando nos deparamos com quem realmente somos que tendemos a abandonar as faculdades da razão e partir para ignorâncias cegas. E Anderer, ao representar o diferente, o estranho, o que não se encaixa, acaba causando uma das melhores reflexões da HQ, justamente essa noção de que o ódio ao incomum deriva do que essa “anormalidade” causa na própria pessoa que odeia, ela odeia porque o diferente revela o quão vazia e baixa ela é, e por isso deve destruir tudo isso que a confronta, ao invés de tentar melhorar e entender o que não se iguala a ela.

Um retrato sobre atitudes humanas, sobre covardia, sobre humilhação e sobre o vazio que fica após algo tão devastador como é a guerra, O Relatório de Brodeck acerta em cheio a alma e consegue ser um retrato aproximado dos tempos que vivemos, o que é pra deixar qualquer um preocupado. Ao menos, qualquer um que ainda tenha humanidade.

A edição da Pipoca & Nanquim é integral, contém os dois volumes originais da obra de Larcenet, traz um acabamento de luxo com papel pólen que causa um efeito belíssimo na arte e proporciona uma leveza ao quadrinho que contém mais de 300 páginas. Acompanha uma luva externa que proporciona o posicionamento do produto de maneira vertical na prateleira, o que facilita a organização se levarmos em conta que gibis em widescreen são um saco para serem guardados. Além de ser uma obra necessária, é um produto impecável. Um dos melhores lançados em 2018 com certeza.

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