‘Shangri-La’ e a condição humana

O ser humano sempre tende a seguir as ideias da maioria. Seja pro bem ou pro mal.
Imagem: Take 148/SESI-SP

Por que diabos começar um texto sobre um quadrinho falando sobre filosofia? Fiquem comigo. “Correntes sociais” é um conceito introduzido ao universo sociológico pelo clássico estudioso Émile Durkheim. A ideia diz respeito ao fato de que, quando reunido em grupo, o ser humano tende a seguir o caminho da maioria, o calor do momento, as ações que estão vigorando. Esse tipo de formulação acabou sendo diminuída para algo mais familiar, que conhecemos hoje por “histeria coletiva”. Por que diminuído? Porque o que Durkheim expressava não ocorria apenas em momentos negativos, de histeria, mas sim a qualquer momento, como, por exemplo, em um show, ou em uma dinâmica de grupo, e por aí vai. Agora voltemos ao quadrinho. Shangri-La, de Mathieu Bablet, é uma das obras mais ambiciosas e esclarecedoras dos tempos contemporâneos, e  acaba analisando a fundo a questão das correntes sociais.

A graphic novel se passa em três tempos diferentes, em locais diversos do universo, e tem em sua trama principal o desenrolar de uma espécie de abrigo espacial para os humanos que puderam sobreviver à devastação que eles mesmos causaram na Terra. Acompanhamos uma geração de sobreviventes muito além do tempo em que a Terra passou a ser inabitável, vivendo nesse abrigo controlado por uma empresa onipresente, a Tianzhu. Nesse ambiente extremamente dominado pela Tianzhu, o que acontece é um sistema de auto-suficiência baseado única e exclusivamente no bem estar da corporação e nunca do indivíduo. A empresa oferece os trabalhos cujos salários são usados apenas para pagar o aluguel dos alojamentos providos pela própria empresa, pela comida também derivada da mesma, pelas roupas e celulares produzidos por ela, etc.

Esse modo de vida acaba causando certo desconforto em uma parte da população que começa uma revolta tímida com o intuito de ativar nos sobreviventes a importância que eles deveriam ter como indivíduos. Em meio a essa pequeno movimento, acontecimentos intrincados culminam em um ápice de tirar o fôlego, com um epílogo poético que eleva o início para algo ainda mais belo.

É, complicado resumir uma obra desse peso, mas não me sentiria bem se não o fizesse a altura. Tudo que citei só resume o que de fato forma a trama de Shangri-La. Como no início do texto, a questão das correntes sociais se faz presente o tempo todo. Por que humanos aceitariam viver no espaço por séculos sem nunca questionar o estado do seu planeta natal? Por que humanos viveriam do consumismo desenfreado para ter que trabalhar mais e mais para uma máquina que apenas lucra com sua mão de obra e suas compras? Por que será que humanos tratariam de forma nojenta minorias sintéticas que foram feitas à imagem dos animais de estimação que costumavam possuir?

Quando você observa essa série de indagações, percebe o quão forte a obra pode ser. São tantos níveis de questionamentos e teses apresentadas que fica difícil discutir tudo de uma vez só. Começo pela questão social pois ela é a mais escancarada pelo autor. A princípio, nós acompanhamos Scott, um cara qualquer, que tem apenas como diferencial estar trabalhando em uma missão no mínimo duvidosa para a Tianzhu. Fora isso, Scott é uma pessoa que não quer saber de se meter em política, muito menos revoluções, e apenas agradece por ter um emprego, comida e abrigo.

Pelos olhos de Scott, somos apresentados ao universo de Tianzhu, ao consumismo desenfreado da população, à falta de conexão humana, a literalmente a condição humana em que os humanos se encontram após a catástrofe no planeta Terra. Justamente por isso, Bablet acerta em muito na narrativa. Não somos jogados imediatamente pela perspectiva dos revolucionários, mas sim pelos olhos de alguém que está inserido no status quo. Isso eleva a obra, pois, ao melhor estilo 1984 temos um personagem começando a acordar para a vida e a questionar o establishment de uma forma natural, que não fica no didatismo, mas não é lá a escolha mais sutil. Porém, é uma escolha acertada, exatamente por trazer qualquer leitor para dentro do universo, e não só pessoas com o senso crítico já estabelecido e a capacidade de enxergar alegorias.

Scott, ao viver da maneira que vive, representa uma das peças da corrente social de Tianzhu. Ele é só mais um dos grãos de poeira que se movem para onde o vento da corporação os leva. Ele é um cidadão ideal: comportado, obediente, não questiona, não reclama, perfeito, como todos deveriam ser. A corrente social vigente na empresa é exatamente a desse cidadão, uma ordem vazia de filosofia e cultura, onde um copia o outro apenas para ficar discutindo sobre o último lançamento de celular da semana. Mas também somos apresentados aos colegas de Scott, uma banda de cidadãos revoltados com o sistema, que querem mudança e respostas. Esse é o tipo perigoso que foge do objetivo da corrente social estabelecida. Porém, o que a história acaba levantando é que talvez, esse tipo de pessoa, nascida nesse tipo de sistema, talvez também esteja fazendo parte do plano maior.

Um plano maior que claramente só prejudica os humanos, um plano maior que não dá a mínima para a vida humana. Uma cúpula corporativa é quem comanda Tianzhu.  Eles nunca são vistos em público e só uma quantidade seleta de pessoas tem a honra de vê-los em vídeos, eles são distantes, estão distantes e só pensam nos próprios interesses. Eles fazem planos e deixam para que suas cobaias os executem. Ao final, temos uma reviravolta pontual que esclarece um pouco mais sobre as intenções do autor em relação a essa cúpula, o que convenhamos, é de revoltar qualquer um.

Continuando o que é o cerne do livro, podemos dizer que Shangri-la é uma odisseia no espaço contemporânea, um exemplo de como a ficção científica tem que ser, especialmente pelo modo com que é contada, não se atendo apenas em alegorias e representações do hoje, mas criando personagens interessantes, com conflitos importantes e que nos fazem importar com o destino de cada um.  

Em termos de construção de história gráfica, Bablet é incrível – há quem diga que o miolo da HQ é maçante, mas eu discordo veementemente. Ao ler um objeto tão interessante com uma trama que vai se apresentando diante de seus olhos conforme você avança, de uma forma frenética, não consigo achar maçante, pelo contrário, foi uma das leituras mais gostosas e fluidas deste ano. Ou seja, em termos do “contar histórias”, Bablet também acerta, seja pelo texto afiadíssimo, importante e social ou pela arte embasbacante de naves, corredores e planetas. O espaço nunca foi visto assim nos quadrinhos, pode ter certeza.

Ao refletir sobre a anestesia humana crescente nos tempos de hoje, Shangri-la faz um trabalho filosófico e social que cobre tanto a questão da existência como questões sobre preconceito e gênero. Os Animaloides são esses seres sintéticos criados pelos próprios humanos para compartilharem do “abrigo” com eles, mas o que acontece? É claro que por serem a minoria no ambiente, estão sujeitos a espancamentos constantes, preconceitos, guetos, e à ideia de que estão ali apenas para roubar os empregos de quem tem direito antes deles. O personagem de John se torna nossos olhos através dessa janela, ele é o Animaloide com mais destaque e é ele que mais sofre na pele o que a humanidade é capaz de fazer com o “diferente”. Sua trama ainda envolve um outro twist que prefiro não estragar, mas que escancara da forma mais cruel possível como a humanidade não presta.

A obra de Bablet trafega por muitos caminhos, mas um que provavelmente poderia resumi-la é a visão niilista que o autor acaba empregando. Apesar de revoltas e lutas, o que é explicado é que esses movimentos contrários também fazem parte do plano maior, a luta por algo melhor está dentro do que o sistema deseja, ou seja, pra que lutar? As pessoas lutam ao final, se matam, a barbárie acontece, mas algo muda? A crueldade humana se transforma? O que acontece é a exata questão da estagnação do homem como ser e talvez até por isso e por puro ego, os cientistas da trama criam do zero uma nova espécie de ser humano, um ser que irá habitar a tão fadada cidade também criada do zero, Shangri-la. E digo que há mais de uma razão para a criação dessa nova espécie porque claramente Bablet não enobrece seus cientistas, eles se acham nobres, mas fica claro que há muito mais de obscuro por trás de seus atos.  O que inclui o MacGuffin da trama, toda a aventura envolvendo a matéria escura e o porquê de ela existir. Ela move a trama, ela envolve todas as peças do tabuleiro, mas tudo que cerca ela acaba sendo mais importante do que essa investigação toda, o que comprova mais uma vez a genialidade de Bablet nesse quadrinho.

É impressionante como a arte pode servir como arma importante para tempos sombrios e isso, é claro, envolve os quadrinhos, mídia sempre esquecida e que mesmo com crescimento recente ainda enfrenta obstáculos e preconceitos por parte do público geral. Shangri-la é um belo exemplar para se quebrar esse tipo de ideia errônea. Um livro com um peso gigantesco que comenta os temas mais importantes do dia de hoje, como a perda da humanidade por meio de seus celulares e tablets, o crescimento desenfreado e vazio do consumismo, a gama anestesiada de pessoas perante a discursos vazios de ordem, os preconceitos que a cada dia mais se tornam crimes de ódio, e, em meio a isso tudo, ainda sim, em Shangri-la, Mathiew Bablet consegue acrescentar momentos íntimos belíssimos que nos fazem repensar qual o nosso papel no universo e o porquê de estarmos aqui.

O quadrinho conta com 222 páginas em um offset de boa gramatura, boa tradução e revisão, acabamento em capa cartonada, e peca por não trazer uma biografia do autor apresentando-o para as terras tupiniquins. Eu mesmo desconhecia a obra dele e não tive nenhum texto de apresentação ou biografia. Apesar da obra falar por si mesma em grande escala, não a faz imune a um deslize simples desse. No mais, a SESI-SP traz mais um gigante europeu com um quadrinho essencial para todos.

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