‘Surfista Prateado – Parábola’, a barbárie e o adeus a Stan Lee

Stan Lee escreveu um tratado sobre a derrocada humana, repleto de reflexões sobre nossos tempos.

Não existe desonra no fracasso. Existe só uma grande vergonha… A covardia de não ter tentado.

– Stan Lee

Surfista Prateado – Parábola, a obra lançada originalmente em 1988 e 1989 chega a assustar de tão atual  e como dialoga com a situação recente do planeta. O gigante Stan Lee decidiu se unir a outro gênio, Moebius, e não o fez gratuitamente. O que conceberam é de um peso tamanho que deveria ser obrigatório em todas as escolas do mundo.

O quadrinho trata da humanidade que é “presenteada” com a chegada de um ser extremamente poderoso que se intitula Galactus e decide se tornar o líder do planeta a partir dessa repentina invasão. Guiados pelo medo do desconhecido, os seres humanos decidem aceitar a liderança repentina e se sujeitam aos desejos da entidade. Porém, esses desejos começam a levar a humanidade à beira do precipício, ocasionando um aumento absurdo do caos e da violência e, por consequência, da desumanização dos terráqueos. É aí que o herói vê a necessidade de partir para a luta em nome dessa humanidade que entra em uma derradeira queda ao abismo que cavou para si.

O texto de Stan Lee não poupa nada, é direto, pontual e impactante. A arte de Moebius é simples e belíssima. A união de ambos acarreta um dos quadrinhos mais poderosos já escritos, tudo isso em apenas 57 páginas. A maneira com que os autores discutem o impulso humano de sempre buscar uma liderança em meio ao medo é forte. O texto de Lee deixa claro que para as pessoas, não importa o quão terrível essa liderança seja, contanto que venha acompanhada da promessa de ordem. Aí está um dos maiores acertos da obra.

Página de Surfista Prateado - Parábola

o nos apresentar as ações dos humanos enquanto o Surfista Prateado tem seus monólogos internos sobre as mesmas, somos jogados diretamente em um livro mais ensaístico do que quadrinístico. Parece que Lee desabafa sobre angústias pessoais sem medo e com isso acaba por esclarecer o quão terrível somos. Desejamos ter sempre uma mão superior nos guiando, mesmo que seja pelo caminho do mal. Nós sempre partimos para a irracionalidade e violência ao primeiro sinal de mudança. Somos sempre guiados pelo que a massa dita. O sociólogo Émile Durkheim chamava isso de correntes sociais, a força invisível que move as massas quando se encontram unidas. A união nem sempre pressupõe uma ação negativa, pelo contrário, pode causar revoluções contra injustiças sociais e desigualdades econômicas. Mas como o próprio Durkheim tirava a noção individualista dos seres humanos, estes tendem a fazer o mesmo por conta própria, confirmando sua tese.

Quando atingimos um ponto onde o ético começa a ser interrogado é porque esquecemos da razão e nos deparamos com a burrice. Outro estudioso da humanidade, Michel Foucault explicava que somos uma sociedade da normalização. Temos a tendência de aceitar mais o que é abraçado coletivamente do que as nossas próprias leis. Então se pegarmos o momento que vivemos no Brasil, onde a tortura, um ato risível e grotesco que não deve ser causado em nenhuma alma viva, começa a ser normalizada e aceita como uma solução plausível feita para punir nossos antagonistas, é sinal de que a normalização superou o certo, que o ético morreu e que estamos entregues à barbárie. Página de Surfista Prateado - Parábola Existem tantas comparações perfeitas a serem feitas que prefiro não estragar todas e deixar a cargo do leitor ir se deliciando com elas. Mas uma, a mais clara, tem que ser discutida: Galactus. Ora, sendo um quadrinho sobre o devorador de mundos e seu ex arauto, não se pode ignorar seu papel na história. Ele representa a liderança que causa o medo e depois diz ser a única solução para proteger as pessoas do medo que causou. É uma representação do ódio, da intolerância, da revolta para com os fracos, ele se coloca como um Deus e todos aceitam esse status auto imposto. Claro que ele remete a figuras ditatoriais como Kim Jung Un, mas ainda mais triste, ele remete a líderes ocidentais “democráticos” como Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Em meio a corrente social causada pela chegada do ser gigantesco, as pessoas perdem as estribeiras e não sabem o que fazer. Ao primeiro sinal de imposição do que a figura deseja,  ordem, todos se acalmam e decidem seguir a palavra mágica do novo líder. E esse líder deseja a destruição da humanidade. Surfista Prateado é o único que consegue ver por trás da máscara de “Deus” utilizada por Galactus, e ao tentar chamar atenção da humanidade para isso é escorraçado. Só que em meio a diálogos memoráveis (que não citarei aqui, porque se pudesse só postaria o roteiro na íntegra e não falaria mais nada), o Surfista expressa seu amor por um planeta e seres que não merecem esse planeta, mas que possuem algo que ainda pode movê-los para o bem. Ainda há esperança e não podemos desistir de todos imediatamente por seguirem um falso profeta. Devemos lutar, pois fenecida a corrente social, a razão retorna para a maioria e a reconstrução em meio a destruição tem início.

Surfista Prateado – Parábola emociona pelo seu teor. Pela tristeza que faz nos enxergar tão perfeitamente em suas páginas, mas também pela esperança que causa ao ver que também podemos ser o lado bom. O Surfista é a resistência, é quem não desiste das minorias, é quem luta pelo que é certo mesmo em tempos onde o errado vira norma. É o que devemos ser daqui pra frente no Brasil e no mundo. É a chama que nunca deve ser apagada, é o calor que chama as massas para o caminho certo, é o ideal que devemos seguir, e é a luta contra o fascismo iminente e contra a morte da pureza. Devemos ler este projeto gráfico e nos inspirar para uma nova aurora que promete muito mal, mas que se não houver quem lute pelo bem, nada restará.

PS: Stan Lee, morreu na semana que esse texto foi escrito. Uma figura controversa, mas que basicamente criou mais de três gerações, a minha inclusa. Uma pessoa, que podia ser tudo, incluindo um gênio. Um homem que conseguiu transcender o status de ser humano e ficará eternizado para sempre em suas criações e nos corações daqueles que amam e se inspiram nelas. Não posso deixar de homenagear o arauto dos quadrinhos, aquele que sempre acreditou no potencial da mídia e sempre quebrou barreiras na indústria ajudando a nos colocar onde estamos hoje. Sim, é uma causa triste, mas qual a melhor forma de honrar uma figura que amamos do que manter viva a sua arte?

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