‘Beowulf’: como adaptações de clássicos conseguem renovar mitologias

HQ retoma o clássico inglês com ação e criatividade.
Imagem: Take 148/Pipoca e Nanquim

A adaptação para quadrinhos da obra Beowulf chega às livrarias, e com issoeu não sabia o que esperar. Não sou entendedor do texto clássico, e não acompanhei nenhuma de suas prévias adaptações, mas fiquei bastante curioso por este conteúdo. Por vir de uma editora que confio (o lançamento é do selo Pipoca & Nanquim) e pelo que foi apresentado como preview, a arte parecia ser algo grandioso. Mas e o texto, será que me convenceria? Com essa mescla de curiosidade com ressalvas – não sou o maior fã de espada e feitiçaria – decidi dar uma chance para a publicação.

A história narra os feitos de Beowulf, um herói inusitado, que chega de lugar nenhum para salvar uma vila que sofre há anos com os ataque de um monstro implacável. Após um embate com o monstro, Beowulf e a vila acabam se deparando com um desafio ainda maior e terão que ir em direção a mais um destino incerto, tudo para buscar a paz. E em um terceiro momento, o herói terá que encarar um último adversário que pode ser ainda mais desafiador e fatal que os dois anteriores, e tudo para emplacar um possível fim grandioso para sua jornada.

Página de Beowulf. Imagem: Pipoca e Nanquim

Com essa premissa simples, a obra não aspira ser complexa, o que é uma decisão acertada dos autores. A adaptação do texto original feita por Santiago García acerta ao entender que, por ser uma história sobre glória e heroísmo, não há uma necessidade de imprimir diálogos enfadonhos ou simbologia ambiciosa para causar reflexões profundas. O foco são guerreiros, no caso um guerreiro em específico, que respiram e pensam apenas em glória por meio de batalha. São homens da antiguidade, nada cultos ou cheio de camadas que querem ser vistos como seres atemporais. Ao entender essa dinâmica, García elabora um texto objetivo, visceral e com cenas pontuais.

Imersão de sentidos

Página de Beowulf

Se a objetividade de García consegue comprimir a esfera visceral da obra, o que nos traduz isso é a arte sublime de David Rubín. Com uma narrativa visual de embasbacar qualquer um, Rubín consegue engrandecer a obra de maneira inventiva, bela e sangrenta. Com recursos diversos, como tempos distintos unidos em uma mesma página para construir ritmo e ditar o tom da obra, ou páginas duplas expostas em ângulos inusitados e repletas de detalhes, a construção visual do artista prende a atenção e causa uma imersão sensorial necessária para que o impacto visceral desejado seja alcançado. Um trabalho incrível que unido da objetividade narrativa de García criam uma obra singular e grandiosa.

O épico descreve bem a obra quando você a tem em mãos, com um ritmo incrível, o tempo de leitura passa despercebido, e com a qualidade gráfica visual, o tom dessa grandiosidade é atingido de maneiras sempre ágeis e impactantes, tornando a leitura uma experiência prazerosa e empolgante. Como os autores da adaptação compreenderam o material, a sensação que fica é a de compreensão do texto original e diversão da obra atual.

Há ainda, mesmo que da forma mais sutil, ideias que elevam um pouco mais a obra. Não são complexas, mas são interessantes, como a questão sexual levantada quando o primeiro ataque do monstro ocorre. Ou como o heroísmo e a glória são elementos da juventude e a passagem do tempo é mais cruel que qualquer ataque de uma Besta. Isso, é claro, sempre cercado de muita ação e violência.

Página de Beowulf

Já adianto que se não for a minha narrativa favorita de 2018, chegou perto. Não chega a ser minha obra favorita do ano, mas em questão de narrativa visual, é quase impossível algum lançamento superar este. O curioso é que David Rubin não é o artista mais talentoso do mundo, mas como contador de histórias com seu traço e criatividade (claro que auxiliados pela mente fantástica de Santiago García), alça um vôo que eu não esperava. Há páginas na HQ que me arrepiaram, a momentos longos que passei apenas analisando uma página, por vezes um quadro (!).

Beowulf é uma das figuras mais emblemáticas do folclore bretão. E neste quadrinho conseguimos (os leigos do texto original como eu) descobrir o porquê de tanto alvoroço em cima de uma mitologia. Vale lembrar que J.R.R. Tolkien era aficcionado pelo poema original e fez uma das mais respeitadas traduções dela até hoje. O que foi influência clara em sua criação máxima, o universo de O Senhor dos Anéis.

Edição de luxo

Para finalizar, devo apenas parabenizar a editora por mais uma obra surpreendente e de um nível estético invejável. Em primeiro momento tive apreensão quanto ao letreiramento, que desta vez foi feito pela própria editora, levando em consideração que costumam trabalhar com o letrista Arion Wu, um dos maiores do Brasil. Mas o trabalho respeita bem a estética original do quadrinho e mantém um padrão que agrada à leitura e não perde em nada na qualidade. Vale citar que o acabamento ficou excelente, com uma das capas mais belas dos últimos tempos e com adição de verniz que eleva ainda mais o produto para o colecionador mais exigente. O produto vem em capa dura, papel de boa gramatura que destaca a arte e cerca de 204 páginas coloridas.

Beowulf é uma experiência empolgante, de tirar o fôlego e hipnotizar qualquer leitor. Com uma adaptação dinâmica e divertida, sem perder a essência da obra ou os temas importantes, Santiago García e David Rubin chamam atenção para seu trabalho, fazendo com que qualquer fã da nona arte saia por aí atrás de suas criações, que até este lançamento tinham basicamente nada de peso lançado nas nossas terras. Uma obra-prima visceral que precisa ser lida por todos que adoram sangue, monstros e uma boa aventura.

Capa de Beowulf. Imagem: Pipoca e Nanquim

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