‘A Casa que Jack Construiu’ revolta, mas pelos motivos certos

Sempre que um filme de Lars Von Trier termina, você tendo amado ou odiado, algo é certo: tem muito que se digerir.
Ilustração: Igor Frederico / @igor_boka
Ilustração: Igor Frederico / @igor_boka

Sempre que um filme de Lars Von Trier termina, você tendo amado ou odiado, algo é certo: tem muito que se digerir. Com A Casa que Jack Construiu não é diferente. O filme ficou famoso – como quase todos os filmes do diretor – após sua estréia no festival de Cannes, onde foi reportado que quase metade dos críticos que assistiam a premiere se retiraram da sala de projeção em meio a revoltas, o que se seguiu de uma saraivada de críticas negativas e, claramente, simplistas da obra. E esse é justamente o problema do filme, o que também se torna sua maior qualidade. Muito tem que ser digerido e muito é apresentado e nem sempre da forma mais sutil ou agradável possível, porém, sem se levantar e sair no meio do filme, provavelmente a experiência ao menos se completa e interpretações mais honestas e relevantes podem surgir.

E esse é um dos problemas que Von Trier sempre enfrentou em sua carreira, seu pedantismo exacerbado, sua arrogância demasiada, e sua ambição desenfreada sempre causaram aversão aos menos dispostos a adentrar seus universos sombrios, violentos e misóginos. Sendo um diretor que construiu a maior parte de sua carreira produzindo histórias sobre mulheres que sempre são vítimas do mundo (e de homens), e transportando muitas vezes esse sofrimento fictício para a realidade, infringindo dores reais e psicológicas em suas atrizes, o cineasta sempre foi uma figura controversa e causadora de espanto. Eu mesmo sempre tive problemas com a pessoa Lars Von Trier, mas quando assisto seus filmes, na maioria dos casos, não consigo não amá-los.

E isso é uma das camadas que está presente nesse novo lançamento. Há uma clara reflexão da pessoa Lars Von Trier para consigo mesmo e sua carreira e obra transposta no protagonista. A película traz a história de Jack (Matt Dillon), um serial killer, branco, heterosexual, que relata alguns incidentes específicos para, ao que parece, o poeta clássico Virgílio (Bruno Ganz). Em meio a esses incidentes, conhecemos a psique de Jack, suas razões, suas loucuras, suas aspirações e também o modo como ele enxerga a sociedade, e mais especificamente, as mulheres.

É justamente nessa última parte, a do estudo feminino, onde entra a auto referência de Von Trier. Jack é extremamente misógino. Ele não liga para como as mulheres devem ser tratadas, ele as considera apenas presas inofensivas que merecem morrer em nome de uma arte maior que ele aspira. E o diretor claramente faz um estudo, dos bons, sobre o quanto ele próprio desconsiderou, em toda sua arrogância em nome de uma “arte maior”, os sentimentos e a vivência feminina. Para Von Trier as mulheres nasceram para sofrer e nós nascemos para assisti-las sofrerem. E o que ele faz nesta película especificamente é justamente isso. Por meio de Jack ele mostra o quão sádico foi e o quão sedentos por esse sadismo nós fomos.

Porém, é triste ver que a maioria das reações e leituras do filme ficam apenas nesse nível. Há muito mais a se explorar e é aqui onde eu começo a minha defesa desta obra extremamente polêmica. Von Trier faz uma auto promoção que por vezes soa uma auto masturbação para nós assistirmos e acharmos lindo? Sim, faz. Mas ele faz muito mais. Ele, o cineasta mais niilista de todos, concebe um retrato cínico da humanidade nos dias de hoje. E quando falo de cinismo não me refiro apenas ao significado imediato da palavra, mas sim à escola filosófica dos cínicos. Escola fundada por Diógenes de Sinope, famoso por viver nu e morar em um barril, fazer amor em praça pública e não dar valor para nenhuma convenção humana básica. Era a forma que o filósofo tinha de escancarar para os seus semelhantes que a nobreza, a educação, as roupa todos esses artifícios comuns à sociedade, não passavam de convenções fajutas que serviam apenas para mascarar a nossa verdadeira natureza animalesca. Exagerar para escancarar. E que tempos mais pertinentes para essa lógica senão os dias de hoje? Hoje, ironia, metáforas, humor, filosofia, ciência, não servem mais. Vivemos em uma sociedade doente que acredita mais em mensagens aleatórias e mentirosas das redes sociais do que em conteúdo real, cultura ou educação. E sendo assim, por que não mostrar para essa sociedade apodrecida e normatizadora da violência o quanto ela é suja e doente?

Jack representa essa doença humana. Jack choca e faz falsos puritanos se levantarem e saírem de suas salas de projeção porque ele as confronta com o verdadeiro ser que as constitui. Jack ama violência, ama matar mulheres, crianças e minorias, mas quem atualmente não segue os mesmos ideais? Seja no Brasil ou no mundo, a humanidade voltou a odiar o diferente como não odiava há tempos, as pessoas voltaram a achar que o lugar da mulher ou é em casa ou apanhando para obedecer e ficar em casa, homens brancos heterosexuais que ainda controlam o mundo começaram a se sentir diminuídos e atacados e por isso contra-atacaram com tudo. O contra-ataque vem escancarado, não vem escondido: o escondido, como diz Jack, é mais arriscado do que o escancarado. É mais fácil você carregar um corpo nos corredores de um prédio em plena luz do dia do que esperar todos irem dormir para então fazer o trabalho. É mais fácil você vangloriar um torturador do que falar que tortura é algo errado, as pessoas se anestesiam ao violento inferno humano, normalizam para seu próprio interesse e criam ícones gigantescos que transmitem essas retóricas que eventualmente culminam nas mortes de minorias, de mulheres e sim, crianças.

Muitos enxergam a falta de sutileza de Von Trier aqui como um mero exagero e falta de restrição do diretor. Mas seu ponto é justamente esse. Ele não está falando para a parte saudável da população mundial, ele tá escancarando tudo para a parte doente da sociedade. E a escolha perfeita foi feita, o cinismo é o caminho. Como o filme todo é um relato de seu protagonista para uma outra figura, não há como saber o que é fato ou criação para fins dramáticos, mas o que se sabe é certo e é apontado pelo interlocutor em determinado momento: os incidentes que Jack escolhe narrar são dominados por mulheres ou insuportáveis, ou gananciosas ou simplesmente burras, ou todas as anteriores. Jack vê as mulheres como seres inferiores. Ele vê a falsidade das instituições como uma máscara social que ele quer destruir.

Jack é um engenheiro que queria ser arquiteto. Jack é como o personagem Destruição, criado por Neil Gaiman em sua aclamada série Sandman, que deseja mais do que tudo construir, criar e fazer arte, mas todas as suas tentativas o levam a desgraça e destruição. A própria casa que dá nome ao título serve para evidenciar essa lógica de criação vs. destruição. E essa lógica perpetua no filme até o seu grande final. Mas é dessa lógica artística que deriva alguns dos momentos mais inspirados da obra e também mais chocantes. Em determinado momento, Jack, acompanhado de uma família, usa um boné vermelho e entrega para os seus acompanhantes chapéus de mesma cor e vão para a floresta caçar e fazer um picnic. Jack faz questão de mostrar o quão linda e perfeita é uma arma e ensina as crianças como atirar. Até deixa uma criança puxar o gatilho de seu rifle em determinado momento!

Porém, os eventos que se seguem são provavelmente o divisor de águas causador das maiores revoltas que a obra recebeu e receberá. O que é uma pena, pois até este ponto do filme, o que o diretor faz é essencial para engrandecer sua película. Ele nos apresenta um serial killer, nos faz criar simpatia por ele ocasionando momentos divertidíssimos. Momentos que existem às custas do sofrimento de mulheres. Por meio da prática narrativa, Von Trier nos faz vivenciar o clichê comum da sétima arte e de nossa sociedade de vangloriar psicopatas. Ele expõe nossos desejos de querer entender pessoas vis, nossa vontade de consumir dramas de pessoas malignas às custas do sofrimentos das vítimas, nossa paixão por filmes que massacram mulheres e as transformam em caricaturas e onde os assassinos são os personagens a ganharem uma série de filmes. E daí, quando temos o ponto de virada, onde não são apenas mulheres as vítimas do filme, as pessoas de repente começam a se espantar. As pessoas se levantam e se retiram da sala (na minha sessão uma quantidade boa não conseguiu terminar o filme). Porém, como descrito, Jack usa bonés vermelhos na cena, e que são uma referência clara aos bonés Make America Great Again de Donald Trump,  famoso por seu culto às armas, à violência com minorias e à xenofobia. Político que preza pela moral, pelos bons costumes e pela família, mas que está carregado de casos extraconjugais, dois divórcios e, mais recentemente, envolvido em um escândalo sobre o pagamento de atrizes pornô para que não fossem expostos mais casos extraconjugais. Ou seja, o homem que preza pela família – e foi eleito por isso – vive cheio de casos e traições e aprova a liberação de armas que todos os dias causam as mortes de crianças (até mesmo em escolas!) nos Estados Unidos. Mas se Von Trier escancara essa falsidade ideológica do que é Família e de quem preza pela violência, aí é algo nojento demais e não há condições de permanecer no cinema.

O cinismo de Von Trier marca pontos com esse tipo de atitude. Ele evidencia que torcer pelos psicopatas nos enoja, mas só quando somos realmente confrontados com a verdade desses seres. Nós amamos assistir jornais violentos e clamar pela morte de bandidos, inclusive pela morte de crianças menores de idade. Porém, se somos confrontados com algo semelhante, nós viramos a cara e corremos pro mais longe possível da realidade e fingimos que não temos parte nesse jogo sujo. Nossa sociedade contemporânea ama fascistas, odeia minorias e preza pela família. Nossa sociedade odeia cultura e diversidade. Nossa sociedade adora vídeos de decapitação e espancamento coletivo. Os seres humanos se denegriram e fingem todo dia que está tudo bem. Pois Von Trier não quer ficar calado e fingir que está tudo normal, pois não está, e ele quer que confrontemos essas desgraças diárias que tentamos normalizar. Não pode haver normalização da violência. Você não pode pedir prisão de menores de idade e vomitar quando vê um menor de idade morrer na sua frente. Encare a realidade ou corra, mas uma hora a estrada acabará e o beco sem saída acabará surgindo.

Em determinado momento, Jack amedronta uma de suas vítimas e a pede para gritar por ajuda. Quando a mulher grita, pede ajuda, faz barulho, ninguém move um dedo para ajudá-la. Ninguém sequer chama a polícia. E Jack, em todo seu cinismo, aproveita para nos lembrar que “ninguém nos ajudará”. Esse é o estado que nos encontramos. Uma sociedade podre, que preza por valores conservadores, mas que não ajudam o vizinho. Uma sociedade que ensina as suas mulheres a gritar “incêndio” ao invés de “socorro”, pois ao segundo ninguém se arrisca a ajudar. Jack é branco e heterosexual. Eu já citei isso uma vez, pois é importantíssimo para a trama. Como já discutido, ele é sim uma representação de Von Trier. Mas ele não é só isso, ele é uma representação da maioria da sociedade. O homem branco, heterosexual que se sente atacado mesmo quando é ele que ataca constantemente. Nesta mesma cena, Jack está literalmente preste a matar sua vítima e decide declamar um monólogo sobre o quão injusto é que a sociedade vê os homens sempre como agressores e as mulheres como vítimas. Melhor retrato não há. Homens brancos e héteros estão constantemente batendo em mulheres e homossexuais, mexendo com mulheres na rua, estuprando, assassinando, dominando o planeta (analisem os presidentes) e ainda sim, por alguma razão, todos os dias em alguma rede social você encontra algum desses “grandes” exemplos de masculinidade reclamando sobre o quão injusto o mundo é e como as mulheres estão roubando seus lugares e como existe racismo reverso.

A retratação de Von Trier da desgraça humana é absolutamente pontual. Ao final do filme, Jack está tão acostumado a fazer atrocidades e nunca ser pego que este acaba matando sem se livrar de corpos, rouba um carro de polícia com a sirene ligada, vai até seu esconderijo e deixa o carro com a sirene ligada tocando. Ele representa esse mesmo arquétipo social, de um determinado ser, de determinado gênero que por mais destruição que causa nos outros, nunca é pego, e por isso se vê no direito de continuar contribuindo com a sua carniça existencial. Outro momento chave é quando Jack coloca em uma viatura um seio recém arrancado de uma vítima enquanto o policial da viatura está ocupado avisando jovens negros de que aquilo ali é uma vizinhança familiar. São momentos assim que engrandecem o filme, e por mais polêmica que seja a forma escolhida para narrar isso, ainda sim acaba sendo a mais vitoriosa e precisa possível.

A Casa que Jack Construiu é um triunfo cinematográfico e sociológico. É uma produção necessária para os dias de hoje e uma porrada na cara dos hipócritas que se dizem puritanos. É uma confrontação ao vivo com os demônios que nos cercam. Em certo momento, temos uma reflexão sobre a construção de ícones. Nietzsche os chamaria de “ídolos”. Figuras que nós engrandecemos porque queremos tanto priorizar nossa ganância em detrimento do outro que preferimos a destruição de tudo que é belo. Nesses ídolos nós depositamos tudo e acabamos por destruir uns aos outros no caminho. Em uma cena, uma vítima deixa um estranho entrar em sua casa, apenas porque ele pode fazê-la ganhar mais dinheiro. E esse é o estado que vivemos hoje em dia. Abrimos todas as nossas portas para o demônio, contanto que ele nos traga mais dinheiro.

Há ainda um dissenso  para os confins da humanidade. Jack, que encontra seu interlocutor, Virgílio, é guiado por este para seu destino final. Há muitos parêntesis filosóficos a serem feitos sobre esse final, mas vou me ater apenas a dois pontos: essa derrocada serve para nos mostrar que se optamos por vangloriar essas criaturas nefastas, não adianta nos enganar, somos cúmplices e iremos para o inferno junto a elas. O segundo ponto fica mais a encargo da estética: a beleza das imagens finais me remeteu a grandes inspirações de Von Trier, como Andrei Tarkovski e Carl Theodor Dreyer. O peso do inferno apresentado e da decadência de Jack é fantástico e traz a obra a um fim essencial para sua completude estrutural, narrativa e temática.

Um filme polêmico, por causa da revolta injustificada e hipócrita de alguns, que será visto apenas como uma viagem misógina e auto reflexiva de seu criador e que deixará o impacto desejado para trás. Porém, seja pelo grafismo necessário ou pela falta de glamourização da violência, Von Trier atinge o seu mais alto nível, trazendo por diversos momentos um humor extremamente desconfortável, imagens insuportáveis de se ater à vista, discursos nem sempre óbvios, mas necessários, e um soco carregado de verdades para aqueles que até hoje, após vangloriar o violento ainda se acham no caminho da verdade.

Pois saibam que Jack é muito mais parecido com a gente do que a gente imagina.

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