‘Maniac’ e a busca pelo verdadeiro eu

O que Maniac tem em comum com A primeira Noite de um Homem e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças?
Ilustração: Igor Frederico / @igor_boka

Duas das histórias de amor de mais importância para a minha vida são derivadas de filmes: A primeira noite de um homem e Brilho eterno de uma mente sem lembranças. O que esses filmes têm em comum? Talvez nada, mas provavelmente tudo. E por que são importantes para a minha vida? Porque quem os viu sabe que não são as histórias mais convencionais de amor de que se têm notícia, porém são duas das histórias mais humanas e reais sobre o tema. São filmes que contém personagens perdidos, quebrados, e que não acreditam em uma reestruturação do Ser. Ambos contém um final agridoce, aquela sensação de que tudo deu certo, mas com uma pitada de tristeza pelo que já passou ou que pode ficar. Estou sendo mega abstrato até agora porque esses sentimentos que essas duas obras me causam têm algo em comum com Maniac. O paralelo que tracei entre os dois longas se encaixar com a nova adição da Netflix às nossas vidas, um produto que, seja pela ambição ou pela esquisitice, consegue ter uma pegada nada convencional e, claro, um final que deixa um gosto esquisito de alegria, mas de vazio e medo pelo que virá.

Essa analogia pode parecer desnecessária agora, mas espero te convencer ao final desse texto que ela tem todo o sentido. A começar pela razão pela qual vim falar sobre essa série: o episódio final. O que o episódio final faz e que, em sua cena final, consegue se igualar aos filmes que citei, me causou um sentimento que senti poucas vezes. O episódio final de Maniac é basicamente uma retratação de tudo que aconteceu ao longo de seus nove episódios anteriores. Retratação no sentido de reparação, é um pontapé de boa vontade e ânimo nos personagens e no expectador que sentiu e se identificou com eles. É uma antítese do que fora construído, é um reparo na psique destruída dos protagonistas, é uma viagem que a gente tende a esperar, mas sem depositar toda a nossa fé.

Essa viagem sem fé em que os criadores Cary Joji Fukunaga (True Detective, Beasts of No Nation) e Patrick Somerville (The Leftovers) nos colocam ao longo de seus nove episódios melancólicos acaba construindo um senso de descrença quanto à possibilidade de algo bom e feliz acontecer aos protagonistas, interpretados magistralmente pela dupla Jonah Hill e Emma Stone (curiosamente, ambos do divertidíssimo e honesto Superbad). Hill imprime uma dor constante em Owen Milgrim, mas sempre sob a superfície, uma dor que tem origem em sua esquizofrenia e em sua família disfuncional. A belíssima Emma Stone traz uma vivacidade falsa que não tem saída contida na complexa e carismática Annie Landsberg. Ambos constroem pessoas tridimensionais que passam por experiências tão malucas que chega a ser louvável como os atores conseguem navegar de uma versão de seus personagens para a outra. É por isso que eles conseguem nos carregar para o rumo sem possibilidades e falta de esperança que a história parece querer nos guiar.

Somos apresentados a uma dupla totalmente disfuncional de personagens que não conseguem se estabelecer no mundo real e por isso fogem deste, uma por meio das drogas e o outro por meio do isolamento. Os dois acham uma possível fuga da vida que estão levando em um teste farmacêutico perigoso, cada um por suas razões. Owen não consegue distinguir o que é real do que não é e tem um problema com o irmão que cometeu um crime e deseja que ele testemunhe a favor dele para invalidar as acusações da vítima. Annie sofre com um luto que não consegue superar e um pai ausente que nunca se recuperou do furacão que era sua mãe. Ambos cansados e sem saber mais para onde correr decidem se inscrever para o teste.

Parte do que faz a série algo diferenciado é a preocupação com detalhes que claramente os criadores imprimem. Fique atento, já que, de um objeto de cena à ações ocasionadas nos primeiros episódios, tudo terá um impacto e importância sem igual ao longo dos demais episódios e no peso emocional que teremos ao chegar no finale. Seja a cena de abertura, onde Annie se livra de um cubo mágico e pega uma cópia perdida de Don Quixote, ou seja pelo advogado presente na reunião de Owen, tudo terá impacto e importância no futuro. Mas por quê?

O teste arriscado do qual os protagonistas fazem parte é algo tremendamente inusitado e que introduz uma segunda camada a um universo já interessante. Aqui vivemos em um futuro ligeiramente diferente do nosso, onde você encontra “higienizadores” mecânicos nas calçadas que têm como diretiva principal manter aquele cocozinho do seu cachorro fora das ruas. Temos também comerciais literalmente vivos ao nosso lado. Temos também uma indústria farmacêutica onde o presidente pode ou não ser um monitor vintage dos anos 80 que fala como a supermáquina, por meio de ondas sonoras em seu visor. E é dessa indústria farmacêutica que surgirão os momentos mais criativos da série, como um médico viciado nas drogas que tenta aprimorar que mantém uma possível relação amorosa com o principal computador da empresa. Computador este que entra em depressão após um grande acontecimento. Máquina essa, criada por um cientista literalmente maluco retratado por Justin Theroux (Cidade dos Sonhos, The Leftovers), que tem uma imagem extremamente negativa de sua mãe, a rainha da auto ajuda interpretada com atenção e carisma pela sempre ótima Sally Field.

O computador depressivo tem o papel de explorar as mentes dos voluntários  ,e ao longo do processo farmacêutico induzido por três pílulas nomeadas A, B e C, curá-los de qualquer mal ou dor que estes participantes sentem. O objetivo do Dr. James K. Mantleray (Theroux) ao criar o tratamento era exatamente esse: por meio de medicamentos (ciência) curar dores psicológicas que carregamos conosco. Quando o processo tem início, somos apresentados às mentes de Owen e Annie, o que nos introduz em uma jornada mais que inusitada, na qual seus desejos e subconscientes somados a maluquice depressiva do computador formam aventuras realmente malucas, especialmente pelo fato das mentes de Owen e Annie estarem se conectando nesse universo metafísico mental. Temos momentos que lembram o cinema do mais baixo orçamento e de roteiro ruim, mas que faz todo o sentido do mundo, já que remetem ao que os personagens imaginam e não ao que um roteirista treinado pensa. Exemplo da influência clara do trabalho de Patrick Sommerville em The Leftovers, na qual o protagonista sonhava ser um super agente secreto que tinha que usar seu pênis como digital para entrar em instalações de segurança máxima. Maniac segue a mesma lógica, Owen se imagina como um gângster em um momento, e Annie se vê como Elfa em outro.

O interessante dessa junção de realidades é a soma de subconscientes e desejos. Owen, por mais desequilibrado que seja, não consegue abandonar Annie e sempre tenta ajudá-la, mesmo que isso, em momentos, o leve a ruína. Annie sempre tenta se ater a seu passado e no começo ignora a disposição de Owen. Isso cria uma dinâmica sempre ativa, que por meio de retratações exageradas das cabeças dos personagens nos deixa perdidos e nos faz questionar se esse tratamento realmente funcionará.

E aqui retorno a Brilho eterno de uma mente sem lembranças filme no qual um tratamento futurista promete a cura para a dor da pessoa amada, no qual o personagem de Joel, interpretado, por Jim Carrey, se vê dentro de seu processo mental e perdendo memórias que lhe eram importantes, memórias de alguém que o magoou, mas que este descobre serem necessárias para quem ele é. Em Maniac não temos essa ideia de nostalgia, justamente por que o tratamento quer eliminar dores prejudiciais para os pacientes. Owen não quer superar uma ex-amada (embora isso faça parte), mas quer se livrar de toda angústia que sente, seja por sua família ou pela insegurança que sente em relação ao mundo. Annie quer sim, superar alguém amado, mas por uma boa razão: ela só pensa nessa pessoa, e se martiriza sempre, se tornando dependente química. Ou seja, o tratamento promove soluções provavelmente saudáveis, só que sem uma garantia infalível como é em Brilho Eterno. Outra coisa em comum, é o caráter criativo com que ambos os tratamentos são apresentados para o audiovisual. As duas obras contém aparatos visuais inventivos e trilhas sonoras belíssimas. Algo que não pode passar despercebido é justamente a trilha de Dan Romer (Beasts of No Nation, Beasts of Southern Wild), que é de uma delicadeza extrema e funcional quando deve ser, e em momentos inspiradíssimos consegue ser inesquecível, como é o caso do final.

A experiência metafísica orquestrada acaba tendo problemas e nos deparamos com os personagens órfãos emocionais após tudo que viveram. Experiências catárticas, funcionando de forma vitalícia ou não, causam um impacto nos indivíduos participantes. Esse impacto transborda para o mundo real, quando Owen e Annie se deparam com a vida novamente. Só que agora, ao invés de serem predicados do universo, se tornam sujeitos, percebem que não são Entes, definição de Heidegger sobre o Ser que se limita. Annie e Owen viviam de maneira entificada, seus Seres deixavam os outros os definirem e por isso não tomavam as rédeas da situação. A partir da experiência, falha ou não, eles decidem acordar para a vida e ver a infinitudes de opções que a vida os trazia, decidem passar de Ente para Ser. Ser é aquele infinito em si mesmo e no mundo, aquele que não se limita. E mesmo que Owen passe por um processo mais fisicamente limitador do que Annie, ambos decidem confrontar os problemas que evitavam e conseguem ascender e começar a moldar os rumos de suas vidas.

O que nos leva ao meu outro exemplo: A Primeira Noite de um Homem, um filme que termina com uma das cenas mais clássicas do cinema, com o protagonista Ben Braddock (Dustin Hoffman) impedindo que o casamento da garota que pensa amar aconteça e resolvendo fugir com ela da igreja. Eles entram em um ônibus felizes e sorridentes, até que a música e euforia acabam e o filme não. O diretor Mike Nichols fez questão de deixar a câmera ligada e sem cortes por mais tempo do que nós esperamos, nós como espectadores queremos que o filme ou o objeto de entretenimento acabe quando os personagens estão sorridentes, nós não esperamos ser confrontados com nossos vazios existenciais e medos do desconhecido. É justamente isso que acontece na cena final deste clássico, ambos fogem e sorriem, até que as emoções do agora acabam e eles se vêem confrontados com o futuro possível, o futuro existencialista de Sartre, que também é infinito como o de Heidegger, e que pelo nosso excesso de liberdade e possibilidades infinitas acaba sendo uma fonte inesgotável de medo. O que fazer agora? Como seguir com a vida a partir daqui? A gente volta? A gente faz o que? O que vamos conseguir fazer? Vários delimitadores surgem, várias questões e também várias incertezas.

Isso  acontece de maneira quase que idêntica em Maniac. A série acaba nesta mesma nota, em clara referência “A primeira noite de um homem”: dois personagens felizes, empolgados, à beira do desconhecido, deixando de ser entificados e passando à completude infinita do Ser, adentrando no desconhecido onde eles mesmos têm controle sobre suas vidas, não mais seus familiares ou dores. Agora Owen e Annie são sujeitos do universo, agora os dois podem caminhar rumo ao sublime. Porém, a música intitulada Annie and Owen, vibrante e colorida começa a se esvair, e nesse caminho quase morto da fuga para a posse de suas vidas, o desconhecido bate, e apesar da sensação de alegria que toda a cena anterior nos causa, nos deparamos com o medo do que virá, de como esses dois lidarão com tudo, de como é viver tendo domínio de si. Medo que todos temos, um medo latente, que só devemos resolver e descobrir se continua se pararmos de nos entificar e nos tornarmos sujeitos donos de nossos caminhos e vidas.

E você, o que achou de Maniac? Comente aí embaixo!

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