‘Sharp Objects’: o tédio pode ser magnífico?

Ilustração: Igor Frederico / @igor_boka

Ilustração: Igor Frederico / @igor_boka

“Nada acontece”. Essa foi a frase que eu mais ouvi ao tentar conversar com as pessoas sobre Sharp Objects, minissérie da HBO estrelando Amy Adams. É verdade, nos oito episódios baseados no livro de Gillian Flynn (Garota Exemplar) e levados para tevê pela roteirista Marti Noxon (Buffy) e o diretor Jean-Marc Vallée (Big Little Lies), quase nada acontece no sentido de avançar em direção à resolução do crime que serve de ponto de partida para a história. A sinopse fornecida pela emissora é simples: a repórter Camille (Adams) volta a sua cidade natal, Wind Gap, para investigar assassinatos não resolvidos. Não seria a próxima True Detective esperando para acontecer?

Não.

Ao terminar o quinto episódio, me ative a hipótese de que os assassinatos brutais das duas garotas poderiam simplesmente não ser solucionados (eu não sabia nada sobre o livro). Sharp Objects era algo novo. Ao contrário da fotografia dessaturada que virou protocolar das séries de crime nos últimos anos (na ponta da língua: True Detective, Ozark, The Sinner, The Night Of, Mindhunter, Fargo), Wind Gap não é branca nem azul nem cinza, muito pelo contrário, as pessoas aparecem frequentemente encharcadas de suor, queimadas por um sol agressivo que insiste que ali não é lugar para tal horror.

Camille ainda menos, não é fria nem vazia nem está tendo uma crise de identidade. Em vez de mais uma para o hall das anti-heroínas, Camille tem lutado para sobreviver, contra todos seus impulsos, desde a adolescência, mesmo se isso significa se automutilar para ver o sangue literalmente correndo nas veias. Ela chega em busca de respostas sobre os crimes, mas as perguntas sobre os motivos que a transformaram em uma alcoólatra funcional neo-gótica com alta tolerância para abusos emocionais tendem a sequestrar suas reflexões.

Nada acontece, mas tantas questões interessantes se colocam na construção desses dois elementos, Camille e Wind Gap, que talvez nem fosse preciso uma série de crimes para torná-los sujeitos de uma história. Graças a uma montagem frenética e fragmentada, Camille revive seus traumas de infância praticamente a cada esquina e cada reencontro, sem conseguir dissociar a áurea ilusória de perfeição da cidadezinha e a morte da irmã mais nova tantos anos atrás, ou mesmo a estima que os cidadãos demonstram por Adora (Patricia Clarkson) e o acolhimento intimidador da mãe. As contradições não apontam para nada suspeito simplesmente porque quando se acostuma a viver na ambiguidade, as intuições são facilmente confundidas com delírios.

Nada acontece, mas Sharp Objects trouxe à vida uma das adolescentes mais magnéticas da tevê. “Detestável” talvez seja uma palavra mais apropriada para descrever Amma, (Eliza Scanlen), a meia irmã adolescente que Camille não conhecia. Ela nunca perde a chance de sacanear Camille, escondendo suas roupas e a forçando mostrar o corpo marcado ou grudando pirulitos em seu cabelo. Para Camille, isso não passa de rebeldia juvenil (ou efeito colateral de ser criada debaixo do teto de Adora), o que a leva a ignorar o comportamento perverso de Amma na tentativa de criar laços (ou de sobrepor as memórias da irmã falecida). Não sendo o bastante, Amma consegue se divertir interpretando a heroína do feriado de Calhoun Day, uma mulher que sofreu um estupro coletivo ao se recusar a entregar o marido confederado para os soldados da União. Apesar de tudo isso, não há como negar que Amma também é  uma força da natureza, um agente de resistência em uma Wind Gap que vê sentido em celebrar anualmente uma história de estupro coletivo. Amma é só mais uma das antíteses que fazem com que o ritmo lento que a investigação toma não seja o suficiente para definir o ritmo da série.

Nada acontece, mas Vallée consegue fazer com que as simples cenas de Camille dirigindo pela cidade se tornem narrativas completas, passando de momentos de suspense à raiva ao susto no tempo de uma canção. Se não, o silêncio é habitado pelos ruídos dos pensamentos de Camille, que podem ser mais assustadores do que o assassino que corre solto.

Uma série chata não é aquela na qual nada acontece, é aquela na qual as coisas que de fato acontecem não oferecem nada de inesperado a quem assiste. Em toda sua imobilidade, Sharp Objects foi capaz de pegar instantes quase insignificantes e elevá-los ao nível de revoluções que se passam inteiramente dentro da cabeça de alguém. Não é difícil tornar uma história de investigação criminal espetacular. A procura por respostas sobre um crime brutal sempre apela para nossos instintos mais rasos de curiosidade. É muito mais difícil tornar o nada espetacular.

Olhar para Sharp Objects e se recusar a ver mais do que uma investigação que não anda é como olhar para uma casa de bonecas e não querer saber do que são feitas suas paredes. Mas o papel de parede é lindo, né?

E você, o que achou do final da série? Comente aí embaixo!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Doug_Couto

    Ótimo texto. Quando me permiti olhar para a série pelo que ela é – algo sobre traumas, lembranças, relacionamentos toxicos, família – e não uma série policial (isso aconteceu no epi 5) foi quando passei a gostar mais da série, dalí pra frente só foi crescendo. É absurdo como é bom o tratamento minucioso que dão aos dramas dos personagens e sempre achei aquela montagem espetacular em trazer nos momentos certos as lembranças e vez ou outra confundindo a gente.