‘Orphan Black’ dá adeus ao Clube do Clone tornando um sonho realidade

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Orphan Black foi uma série complexa, e talvez por isso não tenha atraído tanto burburinho durante seus cinco anos de existência quanto outros programas no mesmo nível de qualidade. Uma séria de ficção científica sobre clonagem humana só pode ir até um limite. Isso não significa que deva ser esquecida.

O programa teve seus problemas. Fez perguntas que não teve tempo para responder, concentrou muitos esforços na construção de criaturas bizarras (como homens com rabos), deu cabo de outros personagens cedo demais, e se perdeu no desenvolvimento de uma outra linhagem de clones. Mas apesar de parecer confusa às vezes, sua mitologia continha grandes questões e grandes questionamentos, importantes e muito válidos nos tempos em que vivemos (e ficaram mais ainda após as últimas eleições americanas). A série se dedicou ao que significa ser livre e estar no controle do próprio corpo, especialmente quando se é mulher. E assim Orphan Black se tornou grande, do tamanho do talento de sua estrela, Tatiana Maslany, que deu vida à cinco protagonistas e tantas outras coadjuvantes, e tão frequentemente me fez esquecer que as cenas entre as clones eram difíceis truques de computação gráfica.

Ainda que a série atraísse fãs por diferentes motivos – uns pela bagagem de ficção científica, outros pelas intrigas internacionais movidas à ação, eu, particularmente, pelo talento de Maslany –, não é segredo que Orphan Black sempre se destacou ao focar na irmandade, nas relações, por vezes ressentidas e complicadas, entre mulheres completamente diferentes, que cresceram de formas diferentes, que tinham visões diferentes, mas que descobriram dividir o DNA, e então precisaram se juntar para lutar contra os homens que queriam controlá-las. Era como se elas estivessem condenadas pela genética a estarem juntas, a mesma coisa que as provocava a demonstrar sua individualidade, comprovando que o DNA só podia as tornar iguais fisicamente.

O episódio final da série, To Right the Wrongs of Many, foi uma ode ao que fez com que essa aliança entre Sarah, Cosima, Alison e Helena funcionasse, a descoberta de que elas podiam se tornar uma família, e uma equipe, um conjunto que respeitava as singularidades de cada uma, de uma forma que seus criadores não haviam antecipado. Mesmo sem nunca deixar de lado suas grandes ideias, o final se concentrou em um conceito bem mais simples, de que os laços entre as sestras não seriam quebrados após o fim da missão, e de que agora elas estavam livres para encontrar novos objetivos, se abrir para seus desejos pessoais e ter tempo para processar medos e inseguranças.

A quinta temporada foi empolgante, com momentos que refletiam o início da série e outros que encerravam ciclos de personagens queridos, mas enquanto os reencontros (é uma pena que Krystal não teve mais tempo de tela) eram sempre um deleite, as tramas científicas, aquelas encarregadas de fechar as questões relacionadas a Neolução que permaneciam em aberto, foram conduzidas mais lentamente do que a trama geral pedia. Em outras temporadas, o ritmo teria dado certo, mas na última, cada cena dedicada à diálogos expositivos pareciam tirar tempo do que realmente queríamos ver.

Mesmo a Ilha do Dr. Moreau, uma ideia tão elegantemente trazida da realidade para o universo da série, funcionava bem melhor quando era só um livro habitando o imaginário de Kira e Cosima do que como uma ilha real, com seguidores bizarramente devotos e jantares à moda antiga. A ilusão criada por P.T. Westmorland demorou demais a se despedaçar, apesar de seu intérprete, Stephen McHattie, ter transformado com sucesso o que era só uma lenda em um cientista louco e psicótico. Na ilha, o relacionamento de Cosima e Delphine, um reencontro esperado por dois anos pelos fãs, pareceu jogado de lado em detrimento de narrativas desnecessariamente complexas e viagens à Suíça que não faziam muito sentido.

Assim, as mortes dos adversários que restavam aos 15 minutos do episódio final foram um alívio. Quando Sarah finalmente dá adeus a Westmorland com um ressonante “Ah, cala a boca!”, e Helena fura o pescoço da Dra. Coady (presumidamente seu último assassinato, o que nos dá a chance de escutar pela última vez sua icônica trilha sonora), os vilões saem de cena de forma um tanto patética, deixando os conflitos e as emoções para as cenas entre as sestras.

A ideia de intercalar o nascimento dos gêmeos de Helena com o nascimento de Kira é potente, ainda que esteja construída como uma forma barata de induzir o sentimentalismo. Ao fazer a conexão entre Miss S. e Sarah, e agora Art, Sarah e Helena, a cena ilustra toda a jornada de Sarah, e seus claros avanços como mãe. A sequência é exatamente o que os fãs querem e esperam de um season finale de uma série como Orphan Black, que precisou lidar com muitos vilões e enredos complexos, que podia ser melancólica e sombria, e que por fim tratava questões muitas vezes cruéis. Também foi uma maneira bonita de trazer de volta Maria Doyle Kennedy para uma última aparição, uma atriz que sempre elevou as atuações da série, principalmente quando contracenava com Tatiana Maslany.

O problema central, a busca pela identidade, explorado em toda a série, volta no último episódio ao trazer Sarah, a primeira personagem que conhecemos, sofrendo pela morte de Siobhan, e lutando para aprender a cuidar de Kira sem ter Miss S. por perto. Sarah sempre foi uma heroína diferente, mesmo agora, que a tevê está cheia de anti-heroínas. Ela nunca mereceu o troféu de mãe do ano (havia abandonado Kira por um ano), mal teve um par romântico durante a maior parte da série (aliás, o que aconteceu com Carl?), era mestre em tomar decisões erradas, costumava hesitar, vacilar, e não assumir suas falhas. A briga contra a Neolução deu a Sarah uma forma de demonstrar amor por Kira. Como um bom soldado, ela finalmente podia a proteger a filha, sem ter que se preocupar com as tarefas costumeiras exigidas pela maternidade. Com o fim de tudo, seu medo da normalidade toma conta e a questão “o que fazer agora?” a invade, tornando uma volta à rotina extremamente custosa.

A cena do chá de bebê (um sonho que Helena teve na terceira temporada) , em que Sarah admite que algo está errado é um dos momentos mais poderosos de toda a série. É quando a confiança nas sestras ressoa de forma emocional, elas não estão ali só para as batalhas contra os outros, mas também para as batalhas contra si mesma. É também quando Sarah descobre que tem direito de se sentir insegura e de ter dúvidas, especialmente quanto à maternidade, um papel imposto pela sociedade como função primária da mulher. Ali, as irmãs compartilham a reivindicação pelo direito de falhar como mãe, de não saber tudo, de deixar o bebê comer areia ou mesmo de não querer ser mãe de forma alguma, como Cosima defende. A conversa se torna ainda mais especial porque, como entre as LEDA’s a gravidez é considerada um milagre genético, a negação quanto à maternidade colocada como condição biológica natural reforça o poder de escolha e a ideia de unicidade do indivíduo.

A decisão de Helena de mudar os nomes dos gêmeos Orange e Purple para os nomes definitivos Donnie (Kristian Bruun) e Art (Kevin Hanchard) foi uma singela homenagem aos homens que mostraram apoio, e que ilustraram a existência de boas relações entre homens e mulheres, algo que a maioria delas não conhecia. Apesar de não ter entrado no mix, Felix (Jordan Gavaris) claramente estava entre esses modelos masculinos, e terminou a série sendo um amigo, irmão, tio presente e carinhoso.A série honra os fãs ao fugir de surpresas e dar a cada personagem o final merecido, sem reviravoltas de última hora. Felix se torna um artista contemplado pelo circuito de arte de Nova York, Art adota Charlotte (meio aleatório?) e as sestras permanecem unidas, cada uma realizando seus sonhos, de diferentes jeitos. Cosima e Delphine viajam o mundo vacinando outras LEDA’s, Alison e Donnie continuam fazendo strip-tease e nos mostrando o que é um casamento saudável, Helena descobre as maravilhas de ser uma mãe de primeira viagem, após uma infância difícil e de ter sido criada para ser uma máquina de guerra, e Sarah finalmente encontra paz no sossego de uma tarde de praia com o irmão e a filha. Até Rachel dá seu jeito de se redimir entregando a lista de todas as LEDA’s para as sestras. Ela ultrapassou muitos limites para fazer parte do Clube do Clone, mas fica satisfeita porque as irmãs vão saber o que ela fez para ajuda-las.

Orphan Black sempre se dividiu entre ficção científica e drama familiar, e seu series finale mostrou que depois de tantos anos sendo a família mais anormal do planeta, pode ser difícil passar a ser uma família normal. Ou mais, que o “normal” não existe, e que o significado de família pode ser múltiplo e extenso, mesmo em se tratando de pessoas que tem literalmente o mesmo sangue. Orphan Black foi uma série que lutou pela vida de suas mulheres, expôs a pluralidade da experiência feminina e investigou as formas de opressão que atingem seus corpos e mentes. Foi uma série intrigante e misteriosa, que com certeza ainda esconde alguns segredos, que serão revelados à luz de novas interpretações e da descoberta da série por uma nova legião de fãs. Um deles talvez seja o real significado do seu nome: Orphan Black? É estranho, não é?

E você, ficou feliz com o final da série? Comente aí embaixo!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Elis Barbosa

    todo mundo perguntando onde estava carl hahahaha senti falta do personagem dele nessa temporada, mas também a sarah nunca cobrou que ele ficasse perto dela e da filha, então acho que não quiseram mexer nisso 🙁