‘O Estranho que Nós Amamos’: a feminilidade de Sofia Coppola nunca foi tão múltipla, tão elegante e tão cruel

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O traço definidor do cinema de Sofia Coppola é que seus filmes não vivem na realidade. Eles vivem em um misto de conto de fadas e sonhos, em que parecem reais, mas são apresentados de forma irreal. Em O Estranho que Nós Amamos o irreal toma a forma de horror psicológico, dando Coppola a chance de brincar com imagens sangrentas sem, no entanto, abrir mão do faz-de-conta gracioso.

O Estranho se passa no interior sulista, três anos após a guerra civil americana, mas não é um drama sobre a guerra civil, assim como Maria Antonieta não era um drama sobre a revolução francesa. A diretora enfrentou críticas após a exibição do filme em Cannes (que lhe rendeu o prêmio de direção) pela ausência de escravos na história, que são mencionados apenas em uma fala, historicamente imprecisa, no início: “Eles foram embora”. Mas Coppola não parece preocupada com as especificidades da guerra civil. A guerra é apenas um aparato, é o que a oferece as circunstâncias necessárias para que as sete mulheres de O Estranho vivam sozinhas em uma mansão no meio de uma floresta. Sem poder ir muito mais que alguns metros do portão, seus movimentos são limitados, tanto pelas bombas que estouram perto dali e parecem se incorporar a trilha sonora quanto pelos corpetes e vestidos de gola alta que elas usam apenas para não perder o hábito. Elas aprendem francês – “Nous sommes des filles” (nós somos as garotas) –, elas cozinham e elas costuram.

Assim Coppola cria o ambiente fechado, totalmente controlado, que ela manipula como quer e precisa. A casa, que servia de escola antes da guerra e agora tenta manter o título mesmo que tenha apenas cinco alunas, é certamente um lugar onde a guerra nunca entrou. Até a chegada do cabo nortenho John McBurney (Colin Farrell). Ele é resgatado por Amy (Oona Laurence), uma das alunas, que o encontra com a perna ferida no meio da floresta enquanto colhe cogumelos para o jantar.

Sofia Coppola sempre se interessou pelo desejo feminino, e em particular pelo desejo de jovens mulheres brancas, e em O Estranho a diretora faz uma de suas escolhas mais corajosas ao decidir compor a casa com personagens de diferentes idades, começando por Marie (Addison Riecke), uma criança, até chegar em Miss Martha, vivida por Nicole Kidman, em uma de suas performances mais intrigantes dos últimos anos. É essa variedade que permite que Coppola explore o desejo feminino de uma forma nova, se concentrando nas particularidades de cada etapa da vida, e como isso se manifesta no tipo de relação que as mulheres desenvolvem com o soldado. A presença de John muda completamente a dinâmica da casa, e não só porque ele é um estranho, mas principalmente porque ele é um estranho homem. Ele se torna o objeto de diferentes tipos de desejos dessas mulheres, que até então estavam ali presas naquela mesma casa, na mesma rotina, com as mesmas pessoas, sem nenhuma presença masculina duradoura, há mais de três anos.

John perturba a ordem imposta na escola um tanto simplesmente por existir ali naquele momento, outro tanto porque ele se relaciona com cada uma das mulheres da forma mais conveniente para ele. Com as mais novas, Marie e Amy, ele se comporta de um jeito fraternal ou paternal. Elas querem deixá-lo orgulhoso, querem fazê-lo rir, e ele é espirituoso o suficiente para atendê-las. Já Jane* (Angourie Rice) está entrando na adolescência, e como filha de um general conservador, a princípio é a que oferece a maior resistência aos encantos de John, e portanto a menina por quem ele tem que se esforçar para conquistar o afeto. Ela toca violino há três anos para as mesmas garotas, e John se torna uma nova cadeira no público, e logo um fã, e é assim que ele consegue vantagem.

*Tem outra garota, Emily (Emma Howard), que em termos de idade se encaixa entre Amy e Jane, mas sinceramente eu não lembro nada sobre ela.

A personagem de Elle Fanning, Alicia, é talvez quem incorpora em O Estranho o lugar tão caro a Sofia Coppola, a jovem em plena descoberta de seus desejos sexuais e de como eles podem se tornar ferramentas de poder. Fanning é hábil em contrastar momentos de monotonia e o prazer pela chegada de John, que se converte no alvo de um jogo, no qual o objetivo é fazer algo diferente naquela casa que se mantém as custas das repetições.

E é por enxergá-lo assim, como mera distração, que Alicia surge como contraponto de Edwina (Kristen Dunst), que vê em John o escape perfeito. Ele representa o lado de fora, é a chance de ir embora, de se reencontrar com o pai, de construir uma família, de recomeçar após a guerra. E ao mergulhar de cabeça em sua paixão, iludida pelos charmes de John, Edwina passa a querer mais, e demais, dele, e claro, ele nunca esteve pronto para realmente cumprir suas promessas. Colaborando pela terceira vez, Coppola e Dunst provam ser uma das duplas mais interessantes do cinema americano contemporâneo. A câmera reserva os planos mais contemplativos a Edwina, e Dunst a constrói com tanta docilidade que o momento de revelia da personagem vem como uma verdadeira surpresa, provocando o choque necessário para que o espectador entenda a transição que as mulheres estão prestes a demonstrar.

Então há Nicole Kidman, diretora da escola. Miss Martha é uma das personagens mais incríveis da filmografia de Coppola, não só porque é alguém que a diretora nunca tentou entender antes, mas também porque o cinema raramente o faz, isso é, explorar o desejo sexual de mulheres mais velhas (ainda que essas mulheres sejam Nicole Kidman). Em uma das primeiras interações de Miss Martha com John, ela dá banho nele enquanto ele está desacordado. Ali fica óbvio, pelo jeito que ela olha para ele, e que a câmera olha para ele, e como percorre seu corpo, que ele despertou a libido de Miss Martha a ponto do banho de cuidados médicos se transformar em uma clara violação do corpo do sujeito. É uma cena sexy, que muitos apontam como prova do “olhar feminino” de Coppola. O que realmente é, é um olhar de desejo, o tipo de cena que por inúmeras vezes vimos descrever o corpo da mulher, mas raramente aparece com os papeis invertidos, com a mulher na posição de voyeur. O olhar de Kidman é um olhar sexual, e a câmera de Coppola o acompanha em suas transgressões; é um olhar carregado e poderoso, tão poderoso que não seria estranho se o espectador precisasse limpar o suor da testa da mesma maneira que Miss Martha.

Colin Farrell, recém tomado de amor pelo cinema independente, consegue dar a John uma ambiguidade admirável. No filme homônimo de 1971, também baseado no romance de Thomas Cullinan, John é muito mais bem definido. O diretor Don Siegel e Clint Eastwood, que interpreta o soldado, constroem a obra sob sua perspectiva dos fatos, de forma que seus desejos, suas aspirações e suas intenções são colocadas mais claramente. Sofia Coppola faz em O Estranho que Nós Amamos algo que eu não me lembro qual foi a última vez que aconteceu: terminar o filme sem saber que tipo de homem era esse personagem. E não por ele ser mal escrito. John é tão charmoso e enigmático, e Farrell conversa sobre a coisa mais simples – o jardim, por exemplo – com tons de mistério e profundidade, que não é nada simples decidir se esse é um cara legal em uma situação ruim ou um cara perigoso desde o começo. Ele é um homem no meio de sete mulheres. Pode parecer o paraíso, mas a presença ostensiva da feminilidade que deseja algo dele também o oprime. Ele nunca é tratado como um hóspede normal, mas como prisioneiro, e ao sentir o peso da situação, que o domínio está do lado de trás da porta do quarto, John começa a manipular cada uma das mulheres para seu próprio bem-estar, e também de acordo com seus próprios desejos – por que não? Elas o fazem. Ele se envolve com elas de forma que é possível acreditar na sua vontade de permanecer na casa, mas claro, como um convidado, não como prisioneiro de guerra, porque para ele, essa também se torna uma forma de escapar da guerra.

Praticamente toda a ação do filme está contida entre duas cenas de jantar que são apresentadas magnificamente em suas intenções. As mulheres se vestem de forma diferente e comem de forma diferente, e isso é o suficiente para apontar as transformações causadas por John nos poucos dias que ele passou na casa. Em particular, Coppola opõe perfeitamente o humor descontraído da primeira refeição, quando todas brigam pela autoria da torta de maçã, a fim de cativar John com dotes culinários, e o silêncio rigoroso da segunda, quando ainda assim, a travessa de cogumelos passa de mão em mão, garantindo que seu conteúdo é fruto do trabalho coletivo.

O que fica claro, ainda que John seja um babaca, é que ele não chega a cometer nenhum crime durante sua estadia, de forma que as consequências de seus atos são sempre dotadas de incerteza. Se as mulheres fazem o que fazem por necessidade, por medo, por vingança ou por simples maldade é uma pergunta que permanece em aberto, e o fato de que em certo momento Miss Martha rejeita a violência como forma de contê-lo, dizendo “Não podemos recorrer à brutalidade”, mas em seguida acata a sugestão “elegante” de Marie, a mais nova, parece indicar que a intuição das mulheres acerca do significado de civilidade é frágil. Coppola é extremamente competente ao interligar essa brutalidade civilizada com as tarefas domésticas costumeiras realizadas pelas mulheres, fazendo uma crítica – possivelmente não intencional – ao modo como a violência pode facilmente se esconder nos hábitos. Agora, sem mão de obra escrava, elas se vestem, cozinham e costuram por si mesmas, e lentamente essas práticas se fundem em atos de violência (e aí a questão racial da qual Coppola tentou se esquivar entra em jogo de forma irônica: essas mulheres brancas ricas vivem na mesma casa que Beyoncé gravou o icônico Lemonade). Elas usam bem suas lições, a roupa rasgada se torna a perna rasgada, e por fim, a mortalha. E ao ver aquela última tomada, em que as mulheres se distribuem na varanda da casa, devidamente vestidas, com a postura ereta, exibindo a mais nobre etiqueta sulista, é quase possível ouvi-las repetindo mentalmente: “Nous sommes des filles, nous sommes des filles, nous sommes des filles”.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.