‘O Estranho que Nós Amamos’ põe a mulher no centro das narrativas da guerra A guerra que é, sobretudo, masculina.

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A guerra é, sobretudo, masculina. As narrativas hegemônicas sobre a guerra não incluem mulheres e são marcadas por heróis masculinos, que incorporam tudo aquilo que é desse universo: a violência, a brutalidade, a conquista. A guerra é a exaltação da masculinidade tóxica. É da guerra que surge John McBurney (Colin Farrell).

A casa é o lar da feminilidade. A casa, ocupação intelectual inferior é destinada à mulher por meio de uma divisão sexual do trabalho. Nas costuras, aulas de francês, bordados, culinárias; na delicadeza, suavidade e doçura nasce a mulher, pura, branca e casta. Mas a mulher é da fertilidade, do nascimento, das plantas e ervas. Dos jardins, alguns mal cuidados, dos cogumelos que trazem vida e morte: decisão simples que reside na mão de quem colhe. A mulher é o lírio do campo, a dama da noite e a erva daninha.

É da casa e da natureza que surgem Martha, Edwina, Alicia, Jane, Amy, Emily e Marie. Seis mulheres, o número da imperfeição e da besta, diferente do sete místico e redondo de Deus, que descansa ao ver que sua criação é boa.

O encontro entre os dois universos complementares e opostos se dá na floresta. John McBurney é um soldado ferido na perna, desacordado em meio às árvores; Amy (Oona Laurence), em uma das suas buscas rotineiras por cogumelos, encontra o homem e, após o susto inicial, decide levá-lo a casa de Martha (Nicole Kidman), diretora de uma escola para garotas, onde as personagens estão abrigadas durante o conflito.

Com a perna ferida, John é tratado por Martha, que faz questão de ressaltar que a presença do soldado ali não é bem vinda. A chegada de McBurney estabelece o conflito principal porque obriga as seis mulheres a lidarem consigo mesmas, seus desejos, afetos e paixões. Castradas, em seus vestidos brancos, e punidas constantemente pelas preces religiosas, o estranho (que é um estranho ao pequeno microcosmo feminino) obriga-as a lidar com o masculino. A paixão inocente de Edwina (Kristen Dunst), que “deseja ser levada para longe dali”; o controle de Martha, conciliando os desejos de sua carne e a rigidez de sua postura de diretora; a amizade de Amy ou a lascívia de Alicia (Elle Fanning). O jogo de gato e rato pretendido por John mostra-se ineficaz quando ele se percebe como um rato contra as seis gatas habilmente treinadas.

A preferência de Coppola por iluminações naturais é ressaltada pelo clima sombrio e instável da guerra civil norte-americana. O Estranho que Nós Amamos é escuro do começo ao fim, mesmo nas cenas externas banhadas pela luz do sol. A escuridão também é um reflexo da experiência religiosa sufocadora das personagens: durante as preces, saem escondidas para beijar um estranho ou rezam com fervor antes de cometer um assassinato.

O olhar feminino de Coppola confere ao filme uma sutileza que foge de qualquer superficialidade: a sedução e a tensão sexual entre o homem e as mulheres não é óbvia. A começar por Martha. Ao lavar o corpo de McBurney, primeiros planos mostram seu peitoral, suas mãos, seus dedos. Martha precisa se concentrar e lavar seu rosto depois dessa visão. A imagem mais pornográfica e explícita no filme é a ferida na perna de John, exposta no começo do filme e aprofundada ao final. A cena de sexo entre John e Edwina é mais simbólica do que sexual em si: a entrega dessa mulher, como um pedido de rendição, é a submissão da inocência perante um mundo austero e rude. As pérolas espalhadas pelo chão são a marca inegável do fim da inocência.

O Estranho é um filme construído por meio de reiterações. A busca por cogumelos leva McBurney ser encontrado pelas mulheres e é por meio dos cogumelos que o homem padecerá. O plano que mostra a mansão branca, cercada por grades, é repetido várias vezes ao longa e é o que finaliza a narrativa. As seis mulheres, vestidas para a ocasião, esperam a chegada dos soldados para buscar o corpo do estranho, o gênero estranho ao mundo habitado e governado por mulheres. A sutileza de Coppola ao filmar a manta mortuária em plano aproximados, que poderia ser confundida com uma manta de bebê, em sua pureza branca, e depois o foco em Edwina, sonhando com o que poderia ter sido, acordada de súbito pela voz de Martha. Entre as mulheres, logo depois as grades, ela está presa, destinada à guerra. Mais uma reiteração: o desejo de liberdade é aqui castrado.

A prisão é também um lembrete eterno acerca do fim da inocência, afinal, não importa quantas versões sejam narradas sobre a chegada do homem misterioso, o que aconteceu foi um assassinato. A maestria de Coppola é conformada por meio de uma planos que, para outros diretores, soariam comuns, mas aqui ganham contornos dúbios e múltiplos sentidos.

A construção histórica é oposta ao movimento realizado em Maria Antonieta. Se lá cabia empregar trilha musical contemporânea e All Star para construir a jovem rainha, aqui há a própria rigidez do período histórico, a escuridão e a tentativa de criar uma paisagem mais orgânica e menos plástica. “O inimigo como indivíduo não é o que imaginamos” declara Martha em um dos momentos cruciais da trama. Assim também é O Estranho que Nós Amamos. Oposto ao trailer que vende um suspense sexual violento e rápido, Coppola nos presenteia com um filme mais lento, complexo e cheio de camadas.

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Quem escreveu

Daniel Matos
Jornalista, escrevo meus próprios roteiro e imagino filmes premiados em Cannes nas viagens de ônibus. Gosto de sala vazia, choro em (quase) toda sessão e minha lista de favoritos vai de Kill Bill vol. 1 à Central do Brasil.