‘Valerian e a Cidade dos Mil Planetas’ é um espetáculo tão louco que quase te faz sentir algo

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A sequência de abertura de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas tem ares de obra prima. Pode não ser, mas como é musicada por uma obra prima, Space Oddity, de David Bowie, evoca todo tipo de sentimentos ligados às obras primas. É uma pena que o resto do filme não consiga atingir a complexidade emocional alcançada naqueles primeiros minutos, enquanto a tela literalmente se abre ao comando de Major Tom.

Adaptar a HQ Valérian, agente espácio-temporal era um projeto pessoal antigo do diretor Luc Besson, que não só inspirou diretamente O Quinto Elemento, mas espalhou sua influência por inúmeros clássicos da ficção científica, de Star Wars a Independence Day. A série conta as aventuras intergalácticas dos agentes Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne), e Besson escolheu trazer para a telona uma história na qual os dois lutam para corrigir os erros de um humano (um deslocado Clive Owen), um general ganancioso responsável pela quase aniquilação de uma espécie inteira de outro planeta há 30 anos, mas não sem antes serem envolvidos em planos criminosos do governo. A ação se passa quase toda em Alpha, a Cidade dos Mil Planetas, uma metrópole construída por aliens e humanos destinada ao compartilhamento de conhecimento, onde reina o respeito à diversidade e à sabedoria, apesar de que, como em todo lugar, seus becos escondem mafiosos e negócios ilegais.

Valerian é uma experiência interessante como cinema: ao mesmo tempo que eu fiquei totalmente fascinada pelo que tinha acabado de ver, era simples reconhecer que não havia muito mais que diversão extremamente bem executada ali. Besson tenta ser profundo, inclui grandes ideias sobre a maldade humana, a vontade dos homens de controlar outras espécies e as formas cruéis de se fazer isso, mas o filme nunca atinge esse tom de grandeza de fato, principalmente porque o roteiro não permite que os personagens ajam fora de uma aventura cômica.

Um dos problemas fatais é toda a ideia de que Valerian está apaixonado por Laureline e quer que ela se case com ele. Ela não está completamente convencida ainda – mas certamente estará ao final. Não entendemos bem o porquê: Valerian é babaca praticamente em todas suas interações – a nave deles, Alex, se salva de sua arrogância – o que faz com que em certos momentos o universo que o envolve seja muito mais interessante de se olhar do que o protagonista. Se tem um personagem cujo o nome deveria estar no título do filme (a HQ foi rebatizada de Valerian & Laureline em 2007) com certeza é Laureline. Cara Delevingne encarna a agente com tanta confiança – ela é inteligente, ela é afiada nas piadas, ela fala grosso com seus superiores quando eles põe em cheque suas habilidades, ela é uma ótima lutadora –, que nunca fica claro exatamente porque essa garota fantástica se apaixonaria por Valerian.

Não há nenhuma cena no filme dedicada a nos mostrar que eles fariam um bom casal, o que eles têm em comum, porque eles se gostam, o que eles fariam juntos além de ficar em uma praia tomando sol e coquetéis, flertando e aguardando pela próxima missão. É uma necessidade do roteiro que eles terminem juntos, para que Besson possa introduzir seu grande discurso sobre como o amor vai salvar o mundo, mas não dá para acreditar que Valerian é mais do que meramente charmoso em seus melhores momentos. O máximo que o filme faz para tentar provar que eles se importam um com o outro é alternar os momentos de cada um como donzela em perigo, e assim Valerian salva Laureline, Laureline salva Valerian, Valerian salva Laureline, Laureline salva Valerian e por aí vai. Mas isso é o que esperamos de uma boa dupla de agentes. Esse é um ponto estranhamente irregular, já que Besson foi tão hábil ao navegar as dinâmicas entre homem e mulher e suas particularidades em seus filmes anteriores, entre homens e deusas, entre homens e garotinhas, entre homens e assassinas, e entre homens e pen drives do sexo feminino. De novo Besson constrói uma personagem feminina forte, mas dessa vez não temos a sensação que o homem é digno de seu amor ao final. Talvez dois adolescentes (eles parecem adolescentes, mas talvez não deveriam ser?) normais seja demais para o diretor.

Quando Valerian e Laureline finalmente têm a chance de corrigir os erros do general, o roteiro transforma a decisão em uma questão de confiança entre os dois, de forma que Valerian aceitar a proposta de Laureline seja tomado como uma demonstração de amor. Mas quando as palavras “Eu sou um soldado, eu sigo regras” saem da boca de Dane DeHaan, a única reação possível é rir, porque não faz o menor sentido. O filme inteiro é sobre um cara não seguindo as regras, fazendo o que ele acha melhor porque ele tem ótimos instintos – o que acaba não sendo um instinto natural, mas a alma da princesa Lihö, da espécie aniquilada, que age como guia espiritual –, e assim a cena que ele supostamente mostraria seu amor por Laureline acaba não tendo impacto nenhum, porque não dá para engolir a desculpa de Valerian para não concordar com Laureline de cara.

No vale do amor, é Rihanna que surge como presença luminosa, em particular porque Besson usa sua persona fora de tela como artista pop para brincar dentro da tela (ele também faz isso com Delevingne, em uma cena que desenrola como se fosse uma passarela, e em que o objetivo final é uma piada com o chapéu que ela está vestindo. A piada é preparada em cenas anteriores e quando finalmente entendemos o que está acontecendo, é o tipo de humor inteligente que encaixa perfeitamente em um filme de Luc Besson: esquisito, grotesco, engenhoso e super engraçado).

O show de Rihanna interrompe toda a ação do filme e nos faz ficar de olhos pregados, prestando atenção por longos minutos em sua capacidade artística. A sequência é divertida e cativante, e muito bem amarrada com seu discurso final, sobre busca de identidade e claro, a força do amor. A cena em si é uma reciclagem da cena da morte da Diva em O Quinto Elemento, o que é compreensível e funciona como uma homenagem a si próprio, já que a proposta é que Valerian seria uma versão mais atual e mais tecnicamente aguçada de O Quinto Elemento. Besson nunca para de tentar, e é aqui que Valerian se torna grande.

Tem certos filmes que mesmo se eu assistir em uma tela de celular ainda vou ser tomada por algum tipo de emoção nova, toda vez. Mas, às vezes, é bom ir ao cinema – à sala escura – e ver coisas que não poderia se ver de outra forma, mesmo que seja só isso, uma experiência visual. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é um espetáculo de imagens nunca vistas. Estamos já há alguns anos vivendo a ditadura da fotografia fria e dessaturada: Valerian carrega todas as cores que foram tiradas desses filmes. Ele parece vivo, ele pulsa com cores vibrantes, possivelmente inexistentes na nossa natureza, ou ao menos no Planeta Terra.

A primeira missão de Valerian e Laureline ocorre em um deserto multidimensional, no qual é preciso enfiar a mão em um dispositivo para ter acesso a outras dimensões. Quando Valerian usa a caixa mágica pela primeira vez, Besson filma como um mundo novo que se abre diante dos nossos olhos. O Mercado surge no meio do deserto de uma hora para a outra, exceto que ele sempre esteve ali, e seus barulhos, seus comerciantes, seus clientes e suas cores também, somos só nós e os turistas em excursão que estamos maravilhados ao vê-lo pela primeira vez.

O diretor nos faz querer ficar sempre um pouco mais nesses lugares, e ao mesmo tempo, descobrir novas dimensões. A sensação é de que cada um desses cenários é enorme, e estamos vendo uma pequena parte deles, e como consequência, a beleza desse universo começa a oprimir seus protagonistas. Valerian poderia ser uma experiência em realidade virtual e ficaríamos totalmente perdidos andando por esses ambientes, inspecionando seus detalhes. Em um dos momentos mais bonitos do filme, Valerian usa o poder de viajar extremamente rápido entre dimensões e planetas enquanto persegue um grupo de invasores, e cada um desses lugares é tão rico em detalhes, com suas próprias cores, espécies, formas de comunicação, sua própria força gravitacional, solo, céu, um deles é inteiramente submerso… é uma abundância de imagens irresistíveis. Quando Valerian foi anunciado, não demoraram a surgir comparações com Avatar. Apesar de não ter sido filmado em 3D, a regressão é tão bem-feita e tão integrada no universo multidimensional do filme que faz com que cada mundo desses contenha um Avatar esperando para ser explorado.

O roteiro de Valerian não está minimamente a altura dos sentimentos que sua realização técnica provoca. Besson está no total domínio de seu ofício como diretor e como criador de universos mágicos, mas esse blockbuster caríssimo – o mais caro da história da França – não consegue passar de um blockbuster com aspirações à clássico.

Nas HQ’s, Laureline é uma mulher do século XI, e a história fantástica de como eles se conheceram e vieram a ser uma dupla de agentes no presente daria material suficiente para um filme inteiro. Em Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, essa informação não vale nem uma linha de diálogo. Quem sabe esse não fosse o roteiro de uma obra prima.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.