‘Em Ritmo de Fuga’ e o triunfo das histórias de amor Por trás das fugas e tiroteios se esconde um musical com cara de velha guarda

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A primeira impressão ao assistir a abertura de Em Ritmo de Fuga foi o incômodo causado por uma montagem picotada, com seus múltiplos cortes, fortemente influenciada pela cultura do videoclipe. A rapidez, a fluidez, a violência, que violenta também as córneas mas passa despercebida a um olhar menos atento desligado. Pensei de súbito: “que filme influenciado por videoclipes!” Até esbocei “um geração MTV”, mentalmente. Mas o mais novo longa de Edgar Wright é bem menos óbvio do que uma afirmação simplória como essa.

A abertura apresenta Baby, motorista implacável, numa sequência agitada, interpretado por Ansel Elgort. O rapaz convence muito, com uma performance carismática e também multifacetada, fugindo da planificação comum aos motoristas torturados pelo passado. Ele trabalha para Doc (Kevin Spacey, que continua no modo automático Frank Underwood) gângster, agenciador de grandes roubos.

Os muitos fragmentos imagéticos que compõe Baby são construídos logo aqui. Após uma fuga de tirar o fôlego, o jovenzinho, com seus fones, vai dançando comprar café para toda a gangue. O rapaz que dirige para bandidos é também o jovem sonhador que dança pelas ruas, vibra com a nova paixão e guarda as fitas gravadas com a voz da falecida mãe, uma cantora. Um acidente de carro deixou o jovem motorista órfão e com problemas de a audição.

A composição de Baby alterna a doçura, o mistério e o senso de humor peculiar. Nessa fábula de alta velocidade, tudo o que o protagonista almeja é o seu final feliz. Mesmo que para casar com a mocinha ele tenha que matar um ladrão aqui ou ali. É claro que para os cidadãos de bem Baby estende toda sua cortesia e gentileza. É o típico caso do cara-legal fazendo coisas-não-tão-legais.

Baby trabalha para pagar sua dívida com Doc e vive com o pai adotivo, um surdo-mudo. Obstinado a largar seu emprego, ele se percebe numa armadilha: nunca poderá ser livre de fato, afinal, participou da maioria dos roubos orquestrados por Doc e poderia ser uma testemunha ocular das diversas situações. É a chegada de Debra (Lily James) que mostra ao garoto um mundo de possibilidades, de uma vida pacata.

Por trás da violência e perseguições, Em Ritmo de Fuga se mostra um musical muito bem coreografado, com danças espontâneas, andar despojado e tamborilados impacientes de um adolescente. Assim como o gênero, as músicas suprem a necessidade das falas de seu protagonista. Baby não precisa falar: a trilha musical escolhida a dedo pelo diretor se encarrega de traduzir e explicitar tudo o que ele sente e, por causa dos traumas do passado, (para manter também o próprio mistério do personagem) e evita dizer.

A versão musicada de Drive ou o La La Land dos filmes de perseguição (superior ao primeiro e páreo ao segundo) é também um estudo de personagem que se apropria de tipos presentes no gênero ação (os homens criminosos de bom coração, torturados pelo passado) e os atualiza por meio de um ator jovem e uma escrita agitada, bem humorada, capaz de se conectar com a geração de espectadores. Eletrizante, bem humorado e dançante, Em Ritmo de Fuga é um filme que vale assistir, de preferência na tela grande.

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Quem escreveu

Daniel Matos
Jornalista, escrevo meus próprios roteiro e imagino filmes premiados em Cannes nas viagens de ônibus. Gosto de sala vazia, choro em (quase) toda sessão e minha lista de favoritos vai de Kill Bill vol. 1 à Central do Brasil.