‘The Handmaid’s Tale’ encerra sua primeira temporada apostando nas pequenas conquistas Em algum momento vai ter guerra, certo?

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The Handmaid’s Tale começa de forma brutal e termina igual, apesar de um de seus melhores momentos se constituir justamente na recusa à brutalidade. É uma série tão densa que a história se abre para outras vidas além da de Offred, aprisionada na casa dos poderosos Waterford com a única finalidade de gerar um bebê para o casal. A primeira temporada da produção do Hulu dá espaço para conhecermos algumas das pessoas que se opõe a ela, para vermos o que está ocorrendo fora da República de Gilead, e até para um romance fugaz. Mas é inegável que a série encontra a maior força quando se concentra na história da personagem principal, e ainda mais quando escolhe por refletir seus pensamentos revoltosos e impulsivos através da narração em off de Elisabeth Moss.

Sem dúvida a temporada flui de maneira mais natural nos extremos. Os três primeiros episódios, dirigidos pela talentosa Reed Morano*, dão conta de apresentar e construir um universo complexo, sombrio, onde até mesmo coisas simples como ir às compras não funcionam da maneira normal, sendo atreladas à simbologias, rituais e protocolos em uma sociedade distópica e reprimida. É um mundo claustrofóbico, onde tudo se move sob o mais absoluto controle, e o problema da infertilidade cria um valor paradoxal das poucas mulheres férteis que ainda existem. Elas são a fonte de poder que deve ser preservada e louvada, mas por isso também são escravas sexuais. Suas existências foram reduzidas a um estado mínimo, onde até mesmo seus nomes foram tirados e substituídos por etiquetas de pertencimento.

*Foi uma boa surpresa que oito dos dez episódios de The Handmaid’s Tale foram dirigidos por mulheres. Além de Morano (Billions, Looking, Vinyl, Lemonade), Floria Sigismondi (Demolidor, Deuses Americanos), Kate Dennis (Preacher, Glow) e Kari Skogland (The Walking Dead, The Americans, House of Cards) comandaram o show.

Nesse mundo, a voz se torna uma forma de luta. A narração de June – em sua cabeça ela jamais se deixa ser Offred – não só nos dá acesso aos pensamentos rebeldes da aia e ao funcionamento desse sistema, mas também maximizam a perda da liberdade de expressão, que chegou ao ponto onde o único jeito de se expressar é mentalmente, em silêncio. Durante a temporada ela acha novas formas, ainda que breves, de se comunicar. Primeiro June regozija depois de jogar palavras cruzadas pela primeira vez com o comandante, em uma cena que mostra a capacidade incrível de Elisabeth Moss de controlar uma variedade de emoções em poucos segundos. Depois June começa a ter conversas ilícitas com suas parceiras de compras, até que cria coragem para cravar uma mensagem na parede do armário, em resposta ao angustiado recado deixado pela última aia dos Waterford. Como primeiro ato insurgente, ela chega a pedir ajuda para uma delegada mexicana, até que, nos últimos capítulos, June solta a voz para quase todos que se colocam diante dela, e são essas pequenas vitórias que nos dão um sentimento de alívio e esperança.

São nos episódios centrais que The Handmaid’s Tale perde um pouco o ritmo. Quando o foco é tirado de June, a história tem a intenção tornar certos comportamentos mais complexos, o que àquela altura já tinham sido bem delimitados e não necessitavam de mais de explicações ou justificativas. Tanto os flashbacks dos Waterfords quanto o passado de Nick servem mais como forma de ilustrar os personagens do que como meio de acrescentar informações novas. A tentativa de cobrir todos os lados da história, desde as aias até os comandantes, passando pelos funcionários que fazem o sistema funcionar, é interessante, mas se perde em um acúmulo de curiosidades. Além disso, o romance entre June e Nick cria uma novelização de um drama pesado que certamente não funciona dentro dos padrões narrativos do melodrama, ainda que a primeira vez que o casal transa voluntariamente – porque antes June é forçada a ter relações com Nick para engravidar – seja um instante de liberação poderoso, e nos prepara para o momento em que ela vai se tornar uma inquisidora vocal do sistema. Talvez a maior ausência desses episódios seja Emily, interpretada por Alexis Bledel* com a potência de um papel que ela nasceu para viver. Protagonista do terceiro episódio da série, Late, a história de Emily é uma das mais fascinantes, mas é deixada de lado rapidamente em detrimento das outras narrativas. O sumiço de Emily é tão sentido que quando ela volta, no quinto episódio, Faithful, sua cena final é uma das mais poderosas de toda a série, tanto pela atuação extasiante de Bledel quanto pela coragem inspiradora da personagem de roubar um carro dos Olhos e aproveitar seus minutos finais de liberdade.

*Bledel, que apareceu somente como convidada nessa temporada, foi promovida ao elenco regular da série para a segunda. Praise be!

É interessante perceber como a opressão funciona na Gilead, e por consequência, em geral. A violência é a forma primária de exercício do controle, porque ela funciona à nível do controle dos corpos, e no fim das contas, ela é falha. A violência como punição não impede ninguém de fazer coisas consideradas ilegais, e à longo prazo, nem tampouco desincentiva. Desde a violência física e psicológica imposta às aias – certamente um dos momentos mais comoventes e também mais cruéis do finale é quando June é levada para ver a filha pela janela do carro –, mas também as punições prometidas ao alto escalão, não são o suficiente para manter todas as mulheres em estado de passividade, e nem faz com que os comandantes se comportem como os paladinos da moralidade. Mesmo uma sociedade conservadora e ultra religiosa (ou talvez principalmente ela), está sujeita aos mecanismos de corrupção que prometem driblar as regras. No fim, a Gilead é mais frágil que a democracia que a precedeu. Quando, nas cenas finais, um comandante é condenado a ter o braço amputado por ter se envolvido sexualmente com a aia Janine fora dos momentos da habitual cerimônia, o que ocorre durante o julgamento é uma exibição teatral sobre princípios que os comandantes não acreditam e nem vivem sob, é uma encenação hipócrita que pretende lecionar sobre crime e castigo, e não sobre justiça.

O episódio final, Night, está recheado de momentos chocantes, como o da amputação e uma abertura especialmente violenta, mas em contraste estão ocasiões nas quais qualquer grau de liberdade é prolongado e comemorado. É particularmente emocionante quando Moira descobre que conseguiu chegar ao Canadá ao olhar uma placa de carro (é melhor não questionar a verossimilhança: ela estava um tanto longe da fronteira e foi possível evitar todos aqueles pontos de checagem?), mas o momento culmina em uma cena ainda mais tocante por causa de incredulidade no rosto de Samira Wiley enquanto o funcionário do abrigo lhe dá um envelope com um celular, dinheiro para pegar táxi e acesso à remédios. Moira está tendo seus direitos mais básicos devolvidos, a liberdade de comunicação e movimento e o controle sobre seu corpo, mas em The Handmaid’s Tale, o básico sempre parece uma conquista enorme.

Finalmente, há a recompensa da pista deixada no piloto da série, quando as aias se juntam para uma cerimônia animalesca: o apedrejamento de um homem que a líder Tia Lydia diz ter estuprado uma delas (se podemos confiar em tudo que a Tia Lydia diz não está claro). O motivo é retomado no finale, quando as mulheres são convidadas outra vez ao apedrejamento como pena capital, mas dessa vez a vítima é uma delas: Janine, que no episódio anterior, Bridge, tenta se matar junto com seu bebê recém-nascido. Faz sentido que em uma sociedade incapaz de gerar vida, colocar a vida de uma criança em risco seja um dos crimes mais hediondos que há. June não aparece como heroína, dado que no primeiro momento ela permanece calada. Só depois que sua dupla, uma ex-prostituta que alguns episódios antes defende o sistema por acreditar que agora vive em condições melhores, se opõe ao gesto e é levada embora pelos Olhos é que June se recusa a participar do assassinato. Segura de suas ações, ela joga a pedra no chão e diz “Desculpa, Tia Lydia”. Ainda é uma frase que carrega todo o peso da subordinação, mas na boca de Elisabeth Moss as desculpas tomam um ar irônico, que é repetido pelas outras aias até que elas sejam mandadas para casa (e Janine é levada de volta, com destino claramente incerto).

A cena do primeiro episódio mostra como, na ausência de controle sobre as próprias ações, as pessoas se agarram a qualquer forma de poder que as é oferecido. Apedrejar o estuprador até a morte é exercer domínio sobre o outro, assim como os outros exercem sobre elas. É uma forma de transferência da opressão que sugere, ainda que brevemente, a recobrada da autoridade. Ao recusarem repetir o gesto, as mulheres se mostram conscientes de que o ato é uma falsa ilusão de controle. É a primeira vez que elas se organizam – ainda que não necessariamente como o exército que June imagina – para questionar uma ordem que elas acreditam ser injusta, sem medo da punição. É a deixa para a cena seguinte na qual elas marcham enfileiradas ao som de Nina de Simone. Apesar de se dispersarem rapidamente, cada uma voltando as suas casas, é o suficiente para entendermos que uma união foi formada, e que June será um ponto central na insurreição.

E June sabe que será punida pela decisão de enfrentar o sistema, de forma que quando os Olhos vêm levá-la, ela não os recebe com tanta surpresa, exceto pelo fato de Nick a pedir para confiar neles. É um final que espelha bem o final do romance de Margaret Atwood, do qual a série foi adaptada. Grávida, chantageada por Serena, e receosa pela vida da filha Hannah, June não sabe o que acontecerá com ela quando ela entra na van, e nem nós temos alguma ideia. Não sabemos que tipo de arranjo levou à decisão de levá-la embora, talvez foi a forma que o Comandante Waterford encontrou de ajudá-la com a proteção de Hannah? Pode ter sido a última vez que ela viu os Waterford? Mas mesmo em face à possibilidade de adentrar uma situação ainda pior, o momento parece outra grande pequena vitória. Essas triunfos não são ainda capazes de abalar a estrutura da Gilead, mas representam a tomada de consciência das mulheres, que finalmente percebem, em conjunto, que o estado de servidão a que estão sendo submetidas, junto com os métodos de funcionamento, as leis e as punições dessa sociedade, devem ser colocados abaixo. E serão, mas quem vai reclamar por ainda levar mais algumas temporadas?

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.