‘Orange Is the New Black’ perde a chance de contar sua história mais poderosa A quinta temporada precisava ser tão engraçada?

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Orange Is the New Black sempre foi uma série vacilante, flutuando entre o drama e a comédia, nem sempre de forma suave. O programa sempre funcionou melhor quando deu tratamento dramático à escala geral das coisas, sendo pontuado pelo humor dos diálogos e relacionamentos. Não foi surpresa quando, depois do primeiro ano competindo como comédia nos Emmys, a série mudou para a categoria de melhor série de drama, depois que decidiram por discutir temas sérios de forma séria. O quarto ano, o mais forte até o momento, concluiu de forma sombria e eletrizante, no momento em que as prisioneiras iniciam uma rebelião para protestar as mudanças que vieram com a privatização da prisão, as más condições de vida, os maus tratos infligidos pelos guardas, as violações dos direitos humanos e as circunstâncias que levaram ao assassinato de Poussay (Samira Wiley) algumas horas antes.

Essa temporada não consegue acompanhar o ritmo. A série perdeu o controle de seu lado cômico, se tornando muito mais engraçada do que jamais poderia ser depois da tragédia de Poussay. Especialmente porque todos os episódios se passam em um espaço de três dias: ninguém teve tempo de se recuperar do choque – nem nós, espectadores. OITNB não consegue transitar entre os gêneros sem se tornar uma paródia de si mesma, porque as partes engraçadas, ainda que engraçadas de fato, tiram todo o peso das partes realmente importantes. A história está cheia de arcos poderosos: a inversão de perspectiva de uma agente da empresa dona da prisão que passa a viver como detenta, o julgamento de uma delas, montado e conduzido pelas próprias colegas, que provavelmente é muito mais justo que o julgamento que a maioria delas tiveram (apesar das consequências fugirem um ypouco do controle), o tratamento a qual Suzanne é submetida ao ficar sem remédios, e particularmente a jornada de Taystee, Watson, Black Cindy e Alison para conseguir justiça por Poussay. Há momentos realmente emocionantes, com performances intensas de Dasha Polanco, Yael Stone, Selenis Leyva e Danielle Brooks, que entrega seu melhor trabalho até hoje. Infelizmente, essas histórias estão espremidas entre cenas de escorregadores de lama(?) no corredor, shows de talento e guerrinhas de comida*.

*Em qualquer rebelião, cortar o abastecimento de comida é uma das primeiras coisas que o Estado faz para tentar retomar o controle, então porque diabos a primeira reação das prisioneiras diante da imaginada “liberdade” é gastar toda a comida em uma brincadeira? Esse tipo de falta de estratégia não condiz com o que foi mostrado até agora, principalmente na última temporada, sobre a capacidade de organização dessas mulheres para controlar suas próprias vidas.

O artifício narrativo das 72 horas funciona em partes. É uma temporada fechada que conta a história de um motim. Tem começo, meio e fim e muitas das tramas estão completas e provam um ponto. Alguém poderia até argumentar que dá para assisti-la isoladamente. Alguns personagens aprendem lições, decidem mudar de vida, uma presa consegue o que queria desde o início, ainda que de forma inesperada, novas alianças são formadas e desfeitas, personagens antes apagadas se revelam, um romance que não deveria ter sido esticado continua de forma brusca, um flashback em particular é surpreendente e memorável. Mas a temporada se arrasta, e fica a impressão de que ela sofre do padrão Netflix, já que poderia ter funcionado melhor se fosse compactada em 8 ou 10 episódios.

A forma como o finale está em descompasso com todo o resto chega a ser esclarecedora. Ele é a imagem do que a temporada deveria ter sido não foi. Finalmente a morte de Poussay ganha uma sequência tonal. Esse ano chega ao fim com um cliffhanger tão potente como o último, no qual as possibilidades não são mais do que a pura desgraça. Mas levou 13 episódios. Essa demora é apontada em dois diálogos marcantes. Ao ser negada tempo de luto e esperada para fazer parte da rebelião, Soso, perturbada pela perda da namorada, desabafa: “Odeio todo mundo. Quem está rindo, sorrindo, quem está vivo… é uma puta ofensa”. Bem mais racional e chamando atenção para as consequências perigosas do motim, é Flores quem solta a frase que resume tudo: “Vocês esqueceram que quatro dias atrás a morte chegou na cafeteria? ”. E você, OITNB, esqueceu?

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Joamila Brito

    Também fiquei esperando o mais que não veio. :