O quinto ano de ‘The Americans’ não chegou a lugar nenhum, e nem tinha que chegar

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Não é injusto dizer que a quinta temporada de The Americans, a penúltima de toda a série, foi a mais lenta, extremamente lenta. É injusto sugerir que isso seja um problema pelo simples fato de que não é assim que a maioria da televisão funciona e portanto não estamos acostumados a esse tipo de narrativa.

Durante os primeiros anos certamente as missões foram mais físicas, envolviam extrair segredos de gente treinada para não entregá-los ou extrair gente que ameaçava o projeto da KGB da face da Terra, e essa dinâmica levou às tantas sequências de ação filmadas em estilo noir americano oitentista que tivemos como definidoras da forma e da seriedade do trabalho dos Jennings – e por extensão, de todas as agências de inteligência.

E então The Americans aos poucos reafirmou a escolha de que seguiria pelo caminho alternativo, se tornando, na reta final, a série que os longos olhares entre Elizabeth (Keri Russell) e Phillip (Matthew Rhys) sugeriam já em seus episódios iniciais, sobre a manipulação e os danos psicológicos, das vítimas e deles próprios, que a vida de espião exige, cobra e impõe aos envolvidos. E isso não é dizer que a temporada não foi cheia de missões, porque espetacularmente a história conseguiu amarrar e mostrar todas essas tarefas ocorrendo ao mesmo tempo, um fato que em outros momentos era bem simples de se esquecer. Como a maioria das atividades dessa temporada envolveu fazer com que alguém tomasse uma decisão sem violência bruta, o clímax do 11º episódio, Dyatkovo, foi elevado a máxima potência diante da aparente calma do resto do ano. Quando Elizabeth mata à queima-roupa a russa que eles acreditavam ter trabalhado para o regime nazista e o marido inocente dela, é absolutamente chocante, além de enfatizar o desiquilíbrio de forças entre ela e Phillip.

A sequência também indica o pode ser o tom do último ano de The Americans, uma total exaustão diante do trabalho por parte dos Jennings, pontuada por situações de extrema tensão em que o propósito da missão é questionado e até colocado em risco.

Essa exaustão não se restringe a Elizabeth e Phillip, mas também é atestada pela hesitação de Stan de seguir na contrainteligência do FBI, e principalmente de Paige, que começou a processar como sua vida foi afetada pelo segredo dos pais. A temporada inteira, mas especialmente os últimos episódios, comprovou que a experiência adolescente de Paige foi arruinada pela confissão, exatamente como Gabriel colocou antes de partir, em uma de suas opiniões mais certeiras.

Paige terminou com Matthew não só porque ela sabia quão perigoso era se aproximar dos Beeman daquela forma, mas também porque ela não podia confiar nele. Quem dera fosse possível, que ela pudesse ter com alguém o mesmo nível de intimidade que seus pais têm, mas naquelas condições simplesmente não era. O mais trágico é que essa desconfiança nunca foi um traço de personalidade, é o que ser um espião te pede, cada vez mais. O trabalho te torna receoso das ações e intenções dos outros, te endurece, te torna refém de uma série de procedimentos, automatiza um instinto natural do ser humano, até que seja possível se revelar para alguém propriamente.

O outro lado desse receio é que, claro, é um espião conhece outro quando vê, então não é tão surpreendente que as suspeitas de Phillip quanto à identidade da namorada de Stan tenham se confirmado. A desconfiança se torna uma tradição, a forma orgânica de lidar com as relações. E assim foi herdada por Paige.

O arco de Paige com o Pastor Tim chegou ao fim esse ano, e é exemplar dessa perda de confiança. Pastor Tim foi capaz de oferecer conforto e um propósito para vida de Paige pela religião e o trabalho comunitário, o que fez com que ela revelasse a informação mais importante que detinha. E então foi uma questão de oportunidade até que a menina percebesse que podia – devia –  usá-lo para benefício da família, espionando seus diários para ter certeza de que a identidade dos pais não estava comprometida. A cena em que o trio Jennings de espiões russos revelam as fotos tiradas por Paige foi um dos meus cliffhangers emocionais preferidos dessa temporada. Os três se olham, tentando entender o que cada um está pensando ao ver o conteúdo das imagens no varal, e no início do próximo episódio Phillip diz a Elizabeth “Acho que ela queria nos ver vendo essas fotos”, que é quando eles finalmente se confrontam sobre a dimensão do desgaste que provocaram em Paige ao se confessarem para ela.

Paige fez tudo o que fez porque quis: apesar dos pais dizerem que ela não precisava vigiar Pastor Tim ela decide mesmo assim ir em busca das informações. Mas fica subentendido que as escolhas são impostas pela situação geral. Ela termina com Matthew, ela procura os diários, ela decide sair da igreja, mas são todas reações às pressões que ela sofre em casa, muitas vezes sem nem perceber, e uma vontade natural e válida de estar presente na vida dos pais.

Um dos maiores problemas da temporada foi que Paige roubou toda a atenção entre os filhos do casal, quase como se Henry não existisse mais. E só é um problema porque as poucas aparições dele são poderosas e poderiam ter sido melhor desenvolvidas. Henry reflete uma outra perspectiva de como o trabalho de Elizabeth e Phillip afetam as pessoas em volta deles. A visita com Stan ao FBI (ei, Mail Robot!) foi tensa e preocupante. Não menos sensacional foi a surpresa dos pais ao descobrirem que Henry é um gênio da matemática e da computação e um verdadeiro romântico. Ele se esforçou pelo que queria e criou expectativas quanto a ir ao colégio no próximo ano, se tornando o maior expoente da família tradicional americana, o garoto que vai frequentar as universidades mais prestigiadas do país. Seria estranho não ter Henry por perto para a última temporada, mas deixar ele ir (agora que eles não vão mais para a Rússia o desabafo de Phillip tem menos efeito) é uma forma interessante de mostrar essa internalização do modo de vida americano.

Além disso, não é só em Henry que ela se manifesta. A montagem ao som de Goodbye Yellow Brick Road, de Elton John, entrega os sentimentos mistos de Elizabeth diante de seu closet cheio de casacos e sapatos, e a caminhada de Paige até o estacionamento é um movimento exemplar de tudo que esse ano sinalizou. Primeiramente, a distância que ela precisa percorrer deixa claro que Paige escolhe parar o carro lá como forma de enfrentar as memórias do que presenciou com Elizabeth. Segundo, a distensão do tempo na sequência cria expectativas para um confronto, e então nada acontece, é só Paige pegando o carro que ela aprendeu a dirigir como uma boa menina americana para voltar para a casa. Esse “nada acontece” é uma máxima da temporada. Ela foi estruturada de forma que o crescendo da tensão desse a entender que tudo iria explodir, mas a única explosão foi a emocional, se não contarmos a tentativa de suicídio de Pasha, que foi filmada de maneira delicada e terminou por atingir seu objetivo. Alguns caminhos levam a lugar nenhum, enquanto outros, como os longos e totalmente arrepiantes minutos de silêncio no fim da première, uma das melhores sequências da série, podem terminar com um estouro fora de hora.

A força do núcleo russo é crucial nessa reta final. Gabriel e Marta estão condenados a uma vida de solidão, e ainda que Marta vá em frente e adote a garotinha, ela provavelmente não poderá voltar aos Estados Unidos mesmo após a queda do muro, já que seria processada por traição. Oleg desvendando o sistema de corrupção no Departamento de Agricultura fala muito do modo como dois países tão diferentes ficam expostos à problemas semelhantes quando uma ideologia é levada ao extremo, um tema recorrente desde a abertura da série.

Essa questão fecha o ciclo do trabalho dos Jennings, que são colocados de frente para sua própria insignificância ao mesmo tempo que percebem que suas decisões podem ser levadas às últimas consequências. É um tanto irônico que eles tenham passado grande parte da temporada tentando impedir os EUA de sabotar as colheitas russas para no fim descobrirem que pegaram as pessoas erradas e que o problema de comida na Pátria-Mãe é interno. Na outra ponta, a quarta temporada foi dedicada majoritariamente a tirar o vírus de Lassa da mão do inimigo, mas assim que ele caiu na mão amiga foi usado na guerra biológica no Afeganistão. Essas narrativas maiores deixam espaço para o entendimento dos efeitos da Guerra Fria em uma escala global, e reforçam que Elizabeth e Phillip são só uma pequena peça no jogo.

Se foi um ano de pouca ação, as sequências mais emocionais tiveram destaque como nunca. Certamente uma das mais comoventes entre todos os anos de The Americans foi o casamento dos agentes realizado por um capelão russo. A ligação profunda entre marido e mulher já existia há alguns anos, mas é legitimada por dizeres religiosas que nem eles mesmos acreditam, mas que carregam significados bem maiores que as palavras em si. Que eles estejam oficialmente, burocraticamente casados é uma jogada interessante, já que durante todo o tempo que eles mantiveram um casamento de mentirinha era preciso se esforçar para mostrá-lo real para qualquer um em volta, e agora que eles estão casados legalmente, precisam esconder o fato, já que os novos votos escondem a história de Nadezhda e Mischa, e não de Elizabeth e Phillip.

O casamento se conecta diretamente com a última cena do finale, porque a cerimônia é a barreira final que mostra que eles estão dispostos a se sacrificar um pelo outro. Por um tempo, isso significou largar qualquer conforto que a vida na América podia trazer para retornar à Rússia. No final, o sentido é oposto. Eles chegam juntos à conclusão de que não podem ir para casa, mas Elizabeth sabe que Phillip também não consegue continuar no mesmo ritmo. Ela então se oferece para carregar o peso sozinha, em contrapartida Phillip tem que levar à cabo uma única missão. É uma decisão que mostra a força deles como parceiros de trabalho e parceiros de vida, e como a existência deles está sempre pendendo entre a experiência familiar restrita e o compromisso com a causa. Foi uma forma bela tanto quanto devastadora de terminar uma temporada e deixar questões abertas para a última.

A maior dessas questões é “Será que algum dia vai ser uma hora boa pra ir embora?”. Sempre vão existir objetivos, problemas para serem resolvidos, pessoas para serem salvas ou mortas. O que The Americans sugere no momento é que os personagens serão levados ao total esgotamento, como Gabriel, que sacrificou toda sua vida pessoal e quando voltou para casa não tinha nada, assim como também não tinha nos EUA. Ou eles fazem a decisão que será vista como egoísmo e terminam a missão de vez, ou ela terminará com eles. Os Jennings ainda não chegaram nesse ponto de libertação, eles seguem comprometidos, certos de seus deveres como cidadãos russos e agentes da KGB, e prontos a abrirem mão de seus desejos particulares, da esfera privada, do universo minimizado da família, tudo por amor à pátria. Qual delas? Esperemos que não chegue a isso.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Tiago Paixão Ramos

    Adorei a crítica. Me fez gostar ainda mais dessa temporada. Não conhecia o site.. Vou acompanhar

    • Ana Carolina Nicolau

      Obrigada, Tiago!