Uma carta de adeus a ‘The Leftovers’ Por que você tem que partir?

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Querida The Leftovers,

Obrigada.

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A última hora de The Leftovers foi muito mais perfeita do que eu jamais poderia imaginar. Ela nos lembrou de todas as coisas realmente importantes. Em um mundo que termina um pouco todos os dias, só queremos uma mão que segure a nossa.

Essa é só a segunda vez que eu escrevo um artigo sobre The Leftovers, que foi sem dúvida minha série preferida nos últimos anos, junto com The Americans, sobre a qual eu escrevi pelo menos uma dúzia de vezes. Admito que houve uma dose do fator preguiça de minha parte, mas a preguiça vem como consequência de algo que eu frequentemente também ouvi dos meus colegas críticos: o texto nunca parece estar à altura da série.

Obviamente, pode ser feito, e fico feliz que alguns se arriscaram. Alguns dos textos mais bonitos que já li foram inspirados por The Leftovers. Esses críticos usaram a série para filtrar sentimentos profundamente pessoais, e refletiram sobre perder companheiros (esse também), sobre a própria mortalidade, sobre a profissão, sobre ter crescido em uma cidadezinha religiosa. Acompanhar as críticas do Henrique Haddefinir foi uma experiência à parte, um mergulho nos símbolos e nos códigos de linguagem da série. Essas pessoas foram generosas o suficiente para compartilharem esses quase-diários na forma de verdadeiras cartas de amor.

Existem series fáceis, basta sentar e escrever. E existem séries que te fazem pensar em desistir da crítica, porque palavras são insuficientes. Essas são aquelas que preenchem um vazio – cultural, espiritual, mental – no nosso corpo.

The Leftovers é isso para mim.

Na maior parte do tempo, a série ajudou a solucionar um conflito interno que já durava anos com a religião. A aceitá-la como parte do ser humano, e não mais como a causadora de todos os problemas desse mundo. Porque mesmo sem acreditar em deus, eu acredito em algo, e isso é, na verdade, muito similar.

Cada um tem seus próprios sistemas de crença, mas lá na essência eles são muito parecidos. Nós todos temos esse buraco no coração, alguns o preenchem com algo que chamam de deus. Ainda que deus possa assumir várias formas, incluindo um cara que se comunica por meio de cartões de visita, um leão ou a recusa em esquecer. No fim, deus é o nome que a humanidade deu ao que nos conforta. The Leftovers é sobre as histórias que contamos a nós mesmos, a fim de nos sentirmos mais inteiros, menos esburacados.

Eu escolhi preencher esse buraco com a matemática, e durante algum tempo eu até dizia especificamente que era deus para mim. Durante a faculdade foi a primeira vez que eu entendi a possibilidade da existência humana estar condicionada a algo mais, e a algo que essencialmente também depende de crença. Você consegue provar um teorema usando outros teoremas que vieram antes e revertendo todo o processo, mas no fim chega ao fato de que um ponto, por definição, não possui volume, área, comprimento ou qualquer dimensão semelhante, ou seja – e não tem jeito melhor de colocar isso –, um ponto é só um ponto e ponto. Não é algo que pede provas, é um conceito que criamos para dar sentido ao nosso mundo. Aceitamos isso como verdade e ninguém nunca provou estar errado. E toda a matemática está construída sobre isso, sobre a crença em conceitos fundamentais, muito como as religiões.

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O que me permite falar de matemática em um texto sobre The Leftovers é o fato de que é uma série que te faz ver tudo o que acontece nesse universo ficcional sob a lente da sua própria realidade, seus pontos de vista, suas experiências terrenas, basicamente o que você acredita e não acredita. Quantas séries conseguem fazer isso, serem um espelho de nós mesmos? A maioria das histórias que abrem espaço para a interpretação o fazem apenas em certos momentos cruciais, tornando todo o resto naturalmente explícito. The Leftovers nos contou uma história que se tornou minha, nossa, de cada um, porque pode significar o que queiramos que signifique, e possibilitou nos identificarmos com uma parte de cada personagem mesmo sem nunca ter passado pelo que eles estão passando.

Quem nunca quis começar do zero? Kevin (Justin Theroux) nega sua memória a Nora (Carrie Coon), nega a história deles juntos, porque se você disse coisas horríveis a alguém que você ama em um quarto de hotel, é mais fácil resetar tudo e fingir que nunca aconteceu. O que ele entende no fim é que isso não é só impossível, mas que a beleza dos emaranhamentos entre as pessoas é justamente a acumulação de momentos, trajetos e sentimentos que experimentamos juntos. Compreender o quão importante é se apropriar dessas histórias e assumir essas memórias é honrar a própria complexidade da existência. E é por isso que ele tinha que procurar por ela, para que ele não tivesse que experimentar uma segunda Partida, onde tudo pode ser deixado sem resolução e esquecido, sem saber se Nora estava viva ou morta, em constante estado de indefinição, sujeita ao acaso, presa em uma caixa de Schrödinger que só levava à repetição da História. De novo não. Não agora que ele finalmente tinha escolhido o mundo daqui de cima, explodindo a realidade alternativa que durante algum tempo lhe deu a sensação de controle.

Foi tão comovente acompanhar Nora em sua trajetória até ela enfim perceber que tinha também que se apropriar do luto, que era alguém que nunca tinha se dado tempo de sofrer, nunca tinha se deixado lamentar o evento mais trágico de sua vida. Quando ela se permite sentir tudo isso, é um processo tão intenso que a leva a se trancar em uma banheira com água que não é água sob o risco de sair dali fossilizada. Todos os outros personagens já tinham encontrado um jeito de seguir em frente, tendo saído da total escuridão na primeira temporada, encontrando pequenos focos de luz no caminho e finalmente fazendo as pazes com a perversidade do acaso, com as formas que ele sugere nossa insignificância e descobrindo maneiras de se opor a isso, insistindo na relevância de suas vivências. Nora precisou contratar uma prostituta para atirar nela, arriscar sua vida em um tanque radioativo, de alguns anos de reclusão e que Kevin aparecesse batendo à porta disposto a sequestrar suas lembranças para chegar ao ponto de aceitar que podia ser feliz de novo.

E se você pensar no que a série veio fazendo, se torna claro que só poderia terminar com alguém nos contando uma história. Principalmente na terceira temporada, muitos dos instantes mais eficientes foram sobre ouvir o outro. Nora (nos) contando sobre a tatuagem do Wu-Tang Clan e o jogo de baseball, Grace contando sobre seus filhos, Kevin Senior contando para Christopher Sunday sobre seu plano para parar o dilúvio, Matt contando seu martírio para Deus e contando a história de Kevin pelo “Novo e Melhorado Testamento”. Essas histórias são menos sobre o que aconteceu de fato e mais sobre se você acredita em quem está contando, porquê e para quem. Nora conta uma história para Kevin. Pode ser a verdade, pode ser só o que ela precisa acreditar para se sentir melhor. O importante é que ele acredita. Terminar nesse tipo de ambiguidade reflete lindamente o trajeto da série, e também a impossibilidade de alcançar certas respostas e o aprendizado de conviver com o indecifrável.

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The Leftovers não foi sempre uma história de amor, mas desde o final da primeira temporada, resolveu apostar no amor – romântico, entre família, entre amigos – como forma de libertação. Não é à toa que os três season finales se pareçam tanto em suas mensagens, sempre Kevin atravessando um turbilhão, físico e emocional, para chegar em casa e encontrar amor. Nas condições extremas da Partida, faz sentido que a sociedade de The Leftovers seja uma que tenta ressignificar o amor. Pessoas como Nora e Kevin pensavam que não o mereciam pois por um breve instante falharam com ele, e pessoas como Nora e Kevin tinham medo de amar de novo. Para uns, como os habitantes de Miracle, o amor era a força necessária para se proteger da tragédia, para outros, como os Remanescentes Culpados, algo extremamente custoso, a ponto de ser proibido. Se as pessoas que você ama podem sumir de repente, te deixando para trás para lidar com a falta delas, por que qualquer um iria querer amar outra vez?

A série escolhe responder essa pergunta da forma mais otimista. Ela diz que ainda podemos encontrar propósito, mesmo se temos que aceitar que tragédias assim podem acontecer, e pessoas serão tiradas de nós. Kevin conta que Jarden não é mais chamada de Miracle. Mesmo as piores desgraças perdem seu peso com o tempo, as coisas voltam ao normal e as pessoas ficam bem outra vez. Pode ser justamente o que faz com que nós, como humanidade, sigamos repetindo os mesmos erros vez após vez, mas é também só a entropia das coisas, tendendo à desordem, à incoerência, à desconexão.

A morte é algo que todos nós experimentamos em algum momento. Se você não morrer antes de todo mundo, pessoas vão morrer antes de você. O que a Partida fez em The Leftovers foi forçar o mundo todo a experimentar uma mesma realidade ao mesmo tempo para que então eles elaborassem realidades distintas que os permitissem fazer algum sentido daquilo. A morte é algo que escolhemos lidar só quando se faz necessário, mas The Leftovers parece refletir esse mundo em que se faz necessário quase o tempo todo. Na verdade, não somos nós e nem é hoje, sempre estivemos lutando contra essas questões que não podem ser respondidas, e estar vivo sempre foi motivo para se preocupar com a morte. Encontrar propósito dá trabalho, requer correr riscos e finalmente abrir mão do papel de homem mais poderoso do mundo.

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Fins são complicados. O fim do mundo chega todo dia. Mas o sol também nasce todo dia, porque fins também são recomeços, começos, porque a existência é cíclica, porque estamos condenados a conviver com a ambiguidade de começos e fins, do que somos e não somos, do que sabemos sem termos certeza. Como você decide lidar com isso é o que determina como você enxerga o fim de The Leftovers.

É um final aberto quanto a se você escolhe acreditar ou não na história de Nora e nas muitas outras histórias extraordinárias que foram contadas durante esses três anos, mas também é um final fechado em um ponto: Nora e Kevin decidem que merecem amor e amar, e escolhem dar as mãos e enfrentar tudo juntos. Não poderia ser mais otimista, intimista, delicado e honesto.

É a história mais clichê, contada da forma menos clichê.

Se você conhece a história da Arca de Noé, sabe que as pombas retornam para avisar que as águas abaixaram, que o céu está limpo outra vez, que tudo recomeça. Um dia no qual The Leftovers termina é um dia no qual começa uma era da televisão sem The Leftovers.

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Vou sentir muito sua falta. E sei que outras como você virão. Até lá, só sou grata por termos existido ao mesmo tempo.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Luiz Gustavo Victor De Lima

    Quando esse texto foi postado, eu li o começo. Deixei salvo aqui pra ler depois e finalmente li. Essa série me ajudou a compreender tanta coisa que antes era tipo uma dúvida no fundo da minha mente e coração. Sou católico mas isso não quer dizer concordo com TUDO o que pregam nos altares das igrejas. E me sinto bem assim. The Leftovers me ajudou a entender quem sou, pra onde vou, de onde vim é o que o mundo reserva pra mim.

    Obrigado pelo belíssimo texto.

    • Ana Carolina Nicolau

      O lindo dessa série é que por mais diferente que sejamos, cada um consegue aprender algo com ela. Obrigada pelo comentário gentil, Luiz. Um abraço.

  • Eduardo Silva

    Que texto mas que texto mesmo; só elogios. The Leftovers pra mim foi uma série que mudou minha visão de religião e o ponto em que o ser humano pode chegar para superar tais dores; a uns que superam rápido, a outros que demoram mas no fim todos precisam continuar caminhando apesar de que em todas as vezes a dor vai estar lá; mesmo que o ferimento já não esteja aparecendo; excelente texto!

    • Ana Carolina Nicolau

      Obrigada, Eduardo!