‘The Leftovers’ é uma série de televisão – é isso que a faz uma das melhores Não poderia ser mais nada.

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Você não pode explicar essa temporada de The Leftovers para alguém que nunca viu a série. Foi assim que Damon Lindelof traçou os episódios finais de sua obra prima. E até agora, depois do episódio que a HBO exibiu no último domingo, It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World, isso é totalmente verdade. E não só porque a essa altura do campeonato a narrativa está de pernas para o ar e quase tudo que acontece parece louco e inacreditável. É porque The Leftovers é uma história que não pode ser colocada em palavras.

Mesmo assim, vou tentar. Esse episódio começa com um homem pelado correndo em câmera lenta pelos corredores de um submarino francês para disparar uma ogiva nuclear em uma posição de yoga conhecida como Tuladandasana para adiantar o fim do mundo que está sendo esperado para daqui a quatro dias enquanto toca Je Ne Peux Pas Rentrer Chez Moi, de Charles Aznavour. Alguém que não está acompanhando a série poderia até imaginar a cena e todos seus detalhes, mas provavelmente não seria convencido de que foi um momento belo, dramático e, principalmente, que fez quem assiste The Leftovers sentir algo. Essa é uma série que tem que ser sentida. Além disso, a cena nos fez rir, explicou algo do episódio anterior e mostrou que os programas que conseguiriam segurar uma cena como essa não enchem uma mão.

Vivemos em uma era de alta transitividade entre meios. Livros se tornam filmes, filmes se tornam séries de tevê, séries de tevê se tornam livros, podcasts se tornam filmes, peças de teatro se tornam podcasts; tem sempre alguém tentando trazer uma obra para alguma outra forma que não a que ela foi originalmente concebida. E isso é verdade para essa série, e também uma contradição, porque tenho bastante confiança ao dizer que The Leftovers é hoje inadaptável, apesar de ser ela mesma uma adaptação.

A primeira temporada foi uma tentativa bem fiel de levar The Leftovers O Livro para a televisão, e ainda que seus primeiros dez capítulos sejam particularmente uma das coisas mais perfeitas que assisti, foi uma tentativa julgada como fracassada por boa parte do público, incluindo alguns críticos respeitados que foram parar do lado oposto do espectro após o segundo ano.

Com a notícia da renovação, ficou claro que a série teria que expandir o universo criado pelo livro, que já tinha sido todo usado nos primeiros episódios. Talvez fazendo as pazes com a jornada tortuosa que Lost teve com a crítica, Lindelof se tornou um criador mais maleável, e topou “corrigir o rumo” de The Leftovers, transformando a abordagem no que tinha sido apontado como problema pelos críticos mais cruéis. Para mim, isso significou fazer da série um exemplo canônico de uma obra de televisão pura. The Leftovers é cinematográfica, e ainda assim não poderia ser um filme; é literária, e não poderia ser literatura, é melódica mas não vai virar um musical, e não pode ser resumida em uma galeria de imagens, ainda que cada um de seus enquadramentos merecesse a eternidade estática nas paredes de um museu. The Leftovers só pode ser experimentada completamente nesse formato tradicional – um-episódio-por-semana-no-mesmo-bat-canal-na-mesma-bat-hora – de televisão.

Eu poderia até argumentar que The Leftovers é tão “televisão” que quem nunca viu poderia cair de paraquedas em qualquer capítulo e ainda percebê-lo como uma hora fechada, uma história com início, meio e fim, como costumavam ser pensados os episódios de um programa de tevê antes da era de ouro abraçar completamente filmes de dez horas de duração. Certamente essa pessoa não seria capaz de entender como aqueles personagens chegaram ali e como cada momento resignifica instantes e aponta para o futuro de uma nova maneira, e, no entanto, It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World ainda é uma história fascinante sobre um reverendo obsessivo que sobe em um barco onde está acontecendo uma orgia dedicada a um leão, encontra deus e entende sua vida de uma forma diferente. Para o novato pareceria surrealista, para mim parece totalmente provável no universo da série – ainda que surpreendente.

Simples descrições falham com o propósito, mas seria suficiente persistir até o final do episódio para concluir que aquele conjunto de situações bizarras, diálogos profundos e a maneira particular de apresentá-los na tela querem dizer algo, e dizem, mesmo na impossibilidade de compreender a fundo todas suas intenções – que, para ser honesta, também me escapam o tempo todo, dado o quanto cada episódio parece ser inesgotável em termos de metáforas, sentidos e detalhes. Isso também é o motivo pelo qual eu fico feliz que os três episódios seguintes, os últimos de toda a série, não estejam disponíveis para serem vistos em maratona. O tempo até o próximo domingo é necessário para encontrar esses significados e para estabelecer cada episódio como seu próprio gesto, em vez de somente uma ponte para o próximo pedaço de história que levará a um objetivo final.

The Leftovers não é Lost, eu não quero respostas. O que eu quero é ser hipnotizada de novo e de novo e de novo por um episódio de televisão. Por explosões nucleares, leões mulherengos, um deus que nega o Holocausto e Charles Aznavour.

Então, pai, você tem que parar de perguntar o que está acontecendo quando olha de relance a tevê no caminho para o banheiro. Eu sei que vai soar rude, mas não tem mais nada que eu possa dizer além de “Assista”.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.