Review: Deixe Lucas Silva e Silva te levar para o ‘Mundo da Lua’ Lá você será amigo do rei.

mundodalua

7 de outubro de 1991

Pode parecer o pior pesadelo de qualquer menino ganhar 24 cuequinhas de presente de aniversário de dez anos, mas quando seu pai te lembra que “a gente só faz dez anos uma vez”, é para que você aproveite mesmo os piores pesadelos dessa vida.

Infelizmente para Lucas Silva e Silva (o novato Luciano Amaral), a criança emburrada de Mundo da Lua, que estreou ontem a noite na TV Cultura, os pesadelos não param por aí. A lista de presentes do episódio piloto, Bem-vindos ao Mundo da Lua, escrito por Flávio de Souza e dirigido por Marcos Weinstock também inclui:
– um par de meias marrons;
– um cinto e um sapato de couro de jacaré;
– uma caixa de lápis de cor com um lápis faltando;
– a ideia frustrada de um telescópio que quebra antes de chegar às mãos dele;
– uma caixa rosa destinada à irmã Juliana (Mayana Blum) por causa de uma confusão.

Farta demais.

Quando conhecemos Lucas, ele está bravo porque nenhum dos amigos poderá ir a sua festa, uma das mazelas de fazer aniversário em janeiro, quando todos estão viajando de férias – algo que compartilhamos, eu e ele, e um dos motivos para identificação imediata. Diferente da maioria das crianças da tevê, Lucas não é superfofo a maior parte do tempo. Ele é respondão, ele é sarcástico – “Ah, né!?” vira um bordão antes dos cinco minutos de episódio –, as vezes ele é ingrato. Se ele não disfarça é porque não aprendeu ainda. Lucas Silva e Silva não quer ouvir seu nome na lista de aniversariantes do rádio, mesmo se for uma homenagem que a cozinheira Rosa (Anna D’Lira) acertou com seu locutor preferido. Ele quer é um videogame, e ele reage como crianças de verdade quando são contrariadas: mesmo estando enraizada em um mundo de fantasia, a franqueza de Lucas é um dos grandes méritos de Mundo da Lua.

Em um elenco lotado de grandes astros da dramaturgia brasileira, Gianfrancesco Guarnieri abraça o papel do avô de Lucas, Orlando, com um carinho que toma a tela toda vez que ele aparece. Suas interações com o pequeno Luciano Amaral são tão naturais que os dois parecem estar se divertindo tanto em cena quanto Seu Orlando e Lucas na história. Em seu primeiro papel na telinha, Amaral atua com tanta leveza que não me surpreenderia se ele se tornasse um ator de clássicos infanto-juvenil. Completam o time Antônio Fagundes e Mira Haar como os pais de Lucas e Laura Cardoso como a vizinha Dona Lila (possível interesse amoroso de Orlando, estou torcendo!).

Não podemos ignorar a participação dos jovens rostos em um pôster na parede de Juliana. Caio Blat, Christian Lima, José Augusto Medeiros e Pedro Matheus Busko são os integrantes da banda Big Bad Boys, que, em uma das melhores cenas do episódio, cantam “Somos os Big Bad Boys/Todas as minas gostam de nós” na tevê enquanto o pai explica para Lucas por que ele tem que tomar outro banho antes da festa.

Claro, a sorte de Lucas muda quando ele finalmente ganha um presente massa do avô, um gravador Geloso modelo 256, que o garoto usa para viajar para o mundo da Lua e reimaginar a tragédia da festinha quase como um conto de fadas. E com isso somos convidados à primeira edição do diário de bordo de Lucas Silva e Silva, uma fantástica jornada pela cabeça de um menino de dez anos que tem tudo mas ainda quer mais, porque isso é ser criança. Em uma passagem sensacional, o comentário de Lucas ao voltar ao Planeta Terra não poderia ser mais niilista: “E aí? E aí nada”.

Bom, não nada-nada. Ainda tem o final feliz da vida real. Mas a esse ponto, Lucas Silva e Silva já descobriu que jogar videogame no mundo da Lua pode ser muito mais divertido que no mundo real – e fez questão de dividir esse segredo com a gente.

*Esse artigo foi escrito em comemoração dos 25 anos da exibição do primeiro episódio de Mundo da Lua. Em sua página do Facebook, a TV Cultura reapresentou o piloto ao vivo no dia 6 de outubro de 2016. Você pode conferir o vídeo na íntegra aqui.

E você, ainda se lembra de Mundo da Lua? Comente aí embaixo!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.