Review: ‘Atlanta’, ‘Better Things’, ‘Queen Sugar’ e ‘One Mississippi’ são as obrigações da primeira semana da Fall Season

Se você estava usando o verão americano para colocar as séries em dia, ciao amore, ciao. A fall season veio com tudo essa semana e já trouxe alguns dos programas mais aguardados da temporada. Seguindo a tendência dos últimos anos, a fluidez entre comédia e drama nos programas de meia hora é tanta que eles viraram o maior campo de experimentação da tevê, e um tipo bem particular entre eles, as dramédias autobiográficas, foram minha parte preferida dessas estreias.

Seguem críticas breves das melhores séries que assisti nessa primeira semana da fall season. Só para constar, um monte de outras coisas já foi ao ar, como: Mary + Jane, a comédia da MTV sobre entregadoras de maconha em Los Angeles (totalmente emprestado de High Maintenance), Van Helsing, a mais nova saga dos caçadores de vampiros, Quarry, sobre um soldado que volta da guerra do Vietnã, e StartUp, o novo drama policial de Martin Freeman. Talvez falte tempo para ver tudo que está por aí, então se liga no melhor!

Terça: Atlanta

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Você conhece Donald Glover de Community. Esqueça. O ator, que também é rapper, tem uma série nova (ele produz, escreve, dirige e atua), e ela é tão ambiciosa que você vai se perguntar porque não deram uma série para Donald Glover antes. Bom, tudo tem a primeira vez. Atlanta é diferente de tudo que está na tevê, em questão de tema, de tom, de proposta. Imagine que, no segundo episódio, o protagonista, Earn, vivido pelo próprio Glover, fica o tempo inteiro isolado da ação principal e dos outros personagens. Isso já aconteceu outra vez na história da televisão?

Essa é uma daquelas séries que não precisa responder a questão “é sobre o que?”, mas, se for mesmo necessário, Atlanta segue a decisão de Earn de se tornar empresário do primo, o rapper Paper Boi (Brian Tyree Henry), que estoura com a música – surpresa – Paper Boi. Junto com o mão-direita Darius (Keith Stanfield), eles sentam em um estacionamento e fumam maconha enquanto falam sobre a pobreza. E então há Vanessa, melhor amiga e mãe da filha de Earn – porque, sim, a história do jovem protagonista inclui uma bebezinha. Sabe aquele papo de basta surgir um bebê para que a série vire de cabeça para baixo? Esqueça.

Em teoria, é uma comédia. Mas então coloque a bebê e um personagem carregando uma arma na mesma cena e não é mais tão engraçado assim. Comece e termine o episódio com um bang! e nem de dramédia é fácil chamar. Para ser bem honesta, eu não ri muito. Mas tem um cara de máscara do Batman, então…

Esqueça os cortes mecânicos e a regra de uma piada a cada 30 segundos. Esqueça o visual colorido dos sitcoms, apesar de que também existe cor na atmosfera naturalista do subúrbio. E esqueça o clichê máximo sobre produções que carregam nomes de cidades nos títulos: Atlanta não é uma declaração de amor a Atlanta, mas às pessoas que vivem nela sem serem vistas por mais ninguém. A série é lenta, é uma meditação. Sobre hip-hop, sobre ser negro e pobre, sobre viver à margem, sobreviver à margem. E então tem o cara de máscara do Batman…

Quarta: Queen Sugar

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Pela sua premissa teatral – três irmãos que voltam para casa, no subúrbio de New Orleans, após a morte do pai, para retomar a plantação de açúcar deixada por ele – Queen Sugar pode despertar as lembranças de um novelão. Isso e o fato de que a série, adaptada do romance de Natalie Baszile, é do canal OWN, a emissora de Oprah Winfrey. Mas quem passar rápido demais pelos arredores da produção pode perder o que ela tem de mais importante: é um exame das complexidades emocionais da família, uma especialidade para Ava DuVernay (Selma), que criou a série e dirigiu os dois primeiros episódios.

Quando a tragédia atinge a família Bordelon, cada irmão está vivendo coisas bem diferentes. Nova (Rutina Wesley) é jornalista e ativista, e espiritualmente realizada. A irmã mais velha, Charley (Dawn-Lyen Gardner), deixou a cidade há tempo para viver uma vida de luxo com o filho e o marido, estrela de um time de basquete em Los Angeles, agora envolvido em um escândalo sexual. E certamente o personagem mais interessante até agora, Ralph Angel (Kofi Siriboe) tenta organizar a vida depois de ter passado um tempo na cadeia, e cuida sozinho do pequeno Blue, cuja mãe, viciada em drogas, nunca esteve por perto.

Eles se reúnem de maneira um tanto clichê, “apesar das diferenças, por um objetivo em comum”, mas DuVerney é hábil em construir a reaproximação visualmente: os enquadramentos são definidos pelas distâncias entre os personagens, e pela forma como elas diminuem ou aumentam dependendo das circunstâncias. O texto é enxuto, em vez de se apoiar no melodrama para provar o quão difícil é para essas pessoas se reconectarem, o silêncio preenche a tela e torna tudo que está ao redor muito mais poderoso.

Mesmo com seu enredo mundano e íntimo, Queen Sugar encontra sua grandiosidade na especificidade dos “tipos” que são seus personagens. É um choque de classes sociais na mesma família, uma exposição da cultura negra e da cultura local do sul dos Estados Unidos, uma rara conjuntura na qual as mulheres são a ligação mais forte. E eu não ligo de ver tudo isso ao mesmo tempo, mesmo que o pano de fundo pareça um novelão.

Quinta: Better Things

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Definitivamente a que mais se aproxima de uma comédia pura dessa lista, a nova produção de Pamela Adlon para o FX tem momentos tão inspirados que não fica claro como eles podem ser tão familiares ao mesmo tempo. Como Sam, uma atriz divorciada mãe de três garotas, Adlon revisita situações que já estamos cansados de ver: a filha pequena que chora no shopping, a conversa sobre drogas, o “é difícil ser divorciada e mãe de três garotas”, mas o texto de Better Things, co-escrito com Louis C.K. (que também produz e dirige), é afiado, um misto de aparente indiferença e absoluta dedicação que define a relação de Sam com as meninas.

A série também tem cenas que soam extremamente reais, talvez porque são. Adlon também é atriz desde criança e criou as três filhas sozinha, e ela escreve sobre o que sabe, apesar de dar os contornos da comédia que as vezes parece fugir da seriedade que o diálogo implora para entregar a piada. Apesar de suas pequenas falhas, Better Things é engraçada, pessoal, tem sequências de sonhos malucas, e mais importante, não quer endossar os clichês sobre as relações horríveis (ou maravilhosas) entre mães e filhas.

Até o conceito de imparcialidade, ou talvez ao menos isonomia, que seria de se esperar em uma narrativa desse tipo é ignorado; no piloto, a filha do meio, Frankie (Hannah Alligood), só aparece por alguns segundos em uma única cena, enquanto as irmãs Max (Mikey Madison) e Duke (Olivia Edward) dominam a ação. Na comédia os personagens geralmente são colocados acima da história, mas ainda é uma abordagem diferente, na qual as vezes eles estão inseridos em contextos que aparentemente não se conectam com nada mais, e algumas cenas parecem mais sketches do que parte da narrativa. Em vez de arcos A e B com início, meio e fim incluindo todos os personagens, Better Things segue o que é mais interessante, e faz isso com confiança, realizando uma façanha: você não precisa ser uma atriz divorciada mãe de três garotas para se identificar.

Streaming: One Mississippi

2016

Essa série foi criada por uma comediante, está recheada de piadas e vai ser categorizada oficialmente como comédia. É também tão pesada, tão comovente e tão trágica que você talvez não deva vê-la se não estiver se sentindo “no clima” para. Mas se você gosta de uma tevê íntima, menor, e absolutamente magistral, você provavelmente deveria ver One Mississippi de qualquer jeito. Depois de sobreviver a um câncer de mama, uma mastectomia dupla e uma doença gastro-intestinal grave, a comediante de stand-up Tig Notaro foi surpreendida com a repentina morte da mãe. E então ela fez o que os melhores comediantes fazem: incorporou a fatalidade à rotina no palco, criou um especial para HBO e escreveu uma série de tevê para a Amazon junto com Diablo Cody (com produção executiva de Louis C.K.).

Os seis episódios, que eu devorei em três horas, relatam a volta de Tig para sua cidade natal, no interior do Mississippi, para tirar a mãe dos aparelhos que estão a mantendo viva, depois de complicações causadas por uma queda. Lá ela reencontra o irmão Remy (Noah Harpster) e o padrasto Bill (John Rothman), com quem mantém relações boas mas não muito próximas. Em vez de stand-up, a versão ficcional Notaro tem um programa de rádio em Los Angeles no qual intercala músicas e histórias sobre sua vida. A série é isso, uma coleção de histórias, no presente, sobre luto, medo da morte, trauma e família.

Enquanto as conexões que Tig estabelece com as outras pessoas na cidade têm um ritmo bem acelerado – pontos chave da narrativa, como a briga que ela tem com a namorada ou a descoberta que ela faz sobre a mãe, não ganham nem uma cena completa –, One Mississippi leva mais tempo construindo momentos de autorreflexão, como a confrontação das cicatrizes da cirurgia ou das consequências de ter sido molestada na adolescência. A série quase não tem instantes leves – Tig precisa lidar com alguma coisa muito perturbadora o tempo todo –, mas Notaro sabe fazer piada com coisas perturbadoras, e algumas das sequências imaginárias são realmente hilárias. É um domínio da tragicomédia que vai te fazer rir sobre coisas trágicas e chorar sobre coisas engraçadas. E então se sentir bem porque as coisas não são só uma coisa ou outra.

 

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.