Review: Na primeira semana, ‘Justiça’ escorrega nas coincidências mas compensa no visual As tramas cruzadas complicam uma narrativa que já é complicada pelo tema.

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“Justiça” é um conceito complexo: quando falta, fica na cara, quando acontece, é difícil ver. Nós temos que questioná-la sempre, e no processo, perceber que nunca chegaremos a uma opinião comum sobre ela. Esse é um dos pontos que Justiça, nova minissérie da Rede Globo, acerta na mosca. Alguns vão chamar as ações dos personagens de pura vingança, alguns vão dizer que é direito, e outros ainda irão afirmar que, às vezes, a vingança é um direito. O certo e o errado se misturam em uma área cinzenta da compreensão humana.

A ideia não é uma novidade nas mãos de Manuela Dias, que criou e roteirizou a série. Em seu trabalho anterior, Ligações Perigosas, a lei também era algo maleável, tanto que no fim a “justiça” veio na forma de um duelo com armas de fogo, aos moldes clássicos. A diferença é que, quando Justiça chega a 2016, os personagens já encararam o sistema criminal por sete anos, e por considerá-lo insuficiente ou injustificado é que resolvem tratar o assunto com as próprias mãos.

A estrutura da série é única coisa simples de entender sobre ela: são quatro capítulos por semana, cada um focado em um dos casos, que serão retomados na mesma ordem pelas próximas quatro semanas. Na segunda conhecemos Elisa (Débora Bloch), que quer vingar o assassinato da filha Isabela (Marina Ruy Barbosa) pelo noivo Vicente (Jesuíta Barbosa), apesar dos sete anos que ele passou na cadeia pelo crime. Na terça, a doméstica Fátima (Adriana Esteves) sai da prisão e tem que lidar com a raiva pelo policial Douglas (Enrique Díaz), que plantou drogas na casa dela depois que ela matou o cachorro dele. Na quinta, as amigas Rose (Jéssica Ellen) e Débora (Luiza Arraes) tramam o assassinato do homem que estuprou Débora enquanto Rose estava presa por porte de drogas. E na sexta, Maurício (Cauã Reymond) vai em busca de Antenor (Antonio Calloni), que fugiu do atropelamento que deixou sua esposa Beatriz (Marjorie Estiano) tetraplégica, que fez com que ela pedisse para que o marido a matasse, crime pelo qual ele passa seus sete anos na cadeia.

Apesar de casa caso estar bem delimitado pelo dia da semana no qual é exibido, a trama se complica quando as histórias se cruzam mais e mais, e assim, começam a influenciar nas outras narrativas. Essa facilidade do encontro é um traço que marca quase todas as produções da Globo, sendo as novelas das 23h as que tem mais sucesso em fugir do entrelaço, então é irônico que Justiça não só o utilize, como faça dele o principal motor da história. Recife é uma cidade com 1,5 milhão de habitantes, mas para a série parece existir só seus personagens. Não há – até então, pelo menos – um regime de consequência entre os fatos – pelo contrário, eles são apresentados como coincidências, mas diante da repetição e da improbabilidade, não passam de conveniências.

É muito conveniente, por exemplo, que Rose e tanto o marido de Fátima como Maurício presenciem o atropelamento cometido pelo chefe em comum dos dois, e que poucas horas mais tarde, a mesma praia reúna Rose, Maurício e Vicente, completando a ligação dos personagens principais em duas cenas do crime distintas, ignorando por completo o fato de que eles são de classes sociais diferentes, tem rotinas diferentes, moram em bairros diferentes e muito provavelmente, frequentam lugares bem diferentes. Enquanto esses detalhes impulsionam o clima de mistério e fazem com que cada episódio adicione informações sobre os outros casos, eles também impulsionam uma narrativa confusa, e a sensação de que, apesar de toda a discussão social que preza pela verossimilhança, ainda “é bom demais para ser verdade”, além de ser uma insistência totalmente desnecessária para que a trama principal se sustente.

Outro ponto que não se ajustou foi a cronologia da noite dos crimes. À primeira vista, parece um furo do roteiro, mas pode ser que haja uma explicação mais complexa para as janelas de tempo daquela noite que ainda não foram mostradas. A cena chave da primeira semana da série mostra os quatro sentados um ao lado do outro na delegacia. É uma imagem forte, que denuncia não só a ligação mais importante entre eles, mas as diferentes reações que cada um apresenta diante do motivo da prisão. Mas ainda assim, a possibilidade da existência desse encontro está nebulosa. Rose é a primeira a ser presa, na praia, em um momento que ainda podemos ver Vicente e Maurício soltos. Em seguida, aconselhado por Celso (Vladimir Brichta), que é traficante e namorado de Rose, Vicente volta para a casa de Isabela para pedir desculpas, o que acaba com o assassinato da garota e sua prisão. Fátima só é presa na manhã seguinte, quando já está pronta para ir trabalhar e visitar o marido no hospital. Na jogada mais estranha do roteiro, Maurício aparece sendo preso três dias depois do atropelamento da mulher, o fato que torna a cena em questão basicamente impossível, pois implicaria que os outros três personagens estiveram na delegacia esperando para serem fichados por três dias. A justiça no Brasil é conhecida por andar a passos de tartaruga, mas talvez Justiça leve isso muito ao pé da letra. Para completar o misto de cronologia furada com coincidência divina, todos os quatro são soltos no mesmo ano, em 2016, ainda que tenham sido presos por crimes de natureza tão diferentes.

Em termos de qualidade técnica, o que pesa no roteiro é muito bem compensado na imagem. A série tem direção artística de José Luiz Villamarim, que comandou algumas das minisséries recentes de mais sucesso na Globo: O Rebu, Amores Roubados, O Canto da Sereia e Mad Maria, além de ter sido diretor geral de Avenida Brasil, que também tratou o tema justiça com refinamento e elegância, principalmente visual. Seu olhar de Recife, em particular da noite recifense, declara certo fascínio pelo choque cultural, social e econômico causado pela desigualdade acentuada da cidade.

Capturar

Nas cenas internas, Villamarim é um mestre da observação, e frequentemente opta por longos planos de câmera parada que se recusam a se aproximar da ação (um truque especialmente interessante quando usado nas cenas sexo). Em uma das composições mais eficientes, assistimos Fátima retornar a sua casa após sair da prisão e encontrá-la tomada pelo mato. O enquadramento nos força, de longe, a contemplar a tragédia da única personagem que não cometeu o crime pelo qual foi condenada. É uma escolha sutil, mas os quase dois minutos silenciosos pelos quais o plano roda trazem o arrepio do suspense contrastado pela beleza do quadro, que funcionam juntos para provocar as emoções que a série quer provocar. Inclusive, funciona melhor do que as cenas do fichamento, todas embaladas pela versão de Hallelujah de Rufus Wainwright, que, depois de quatro repetições, se tornou basicamente uma chave capaz de ligar o choro do público.

Se Justiça conseguir manter o balanço entre o tema áspero e o melodrama pelo qual já deu indícios que vai seguir (aparentemente, Elisa e Vicente vão desenvolver uma relação amistosa), essa pode se tornar uma das produções mais ousadas da Rede Globo, tanto em termos de estrutura quanto dos temas abordados. O elenco afiado e a direção competente tornam os deslizes iniciais do roteiro menos marcantes, ainda que furos tão elementares como os de cronologia sejam difíceis de engolir em uma faixa de horário que é definida pelo público mais exigente. Assim como “justiça”, “potencial” é um conceito complexo: é o primeiro passo para decepção, mas quem o tem está sempre em clara vantagem.

E você? O que achou da semana de estreia de Justiça? Comente aí embaixo!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Robledo Castro

    Seu texto foi preciso. Já tava achando estranho até então ninguém comentar o erro na cronologia. Felizmente você falou sobre. De qualquer forma é uma série fora dos padrões da TV aberta. E isso é muito bom. Tô curtindo 😉