‘Mr. Robot’, o Reddit e por que eu gosto quando as teorias estão erradas Como o maior fórum da internet te consome pela sensação de controle.

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O texto contém spoilers da primeira temporada de Mr. Robot, mas não da segunda.

The X-Files foi precursora de muita coisa, uma delas sendo o hábito de se juntar na internet para discutir sobre a série. Isso nos anos 90, quando os fóruns eram ainda coisas de gente muito empenhada e a internet discada tornava tudo ainda mais difícil. As pessoas do fundo da pirâmide digital trocavam cartas, um modo mais barato, mais lento e mais restrito de fazer a mesma coisa: previsões.

Nos anos 2000, foi Lost que tornou a prática um fenômeno mundial, e com ajuda de algumas outras séries fenomenais, falar sobre tevê no dia-a-dia parou de ser considerado coisa de gente esquisita e passou a fazer parte da vida de milhões de pessoas. E então o clássico “o que será que vai acontecer?” virou um negócio, literalmente um negócio, com algumas pessoas sendo tão boas em criar teorias e desvendar mistérios que elas ganham dinheiro com isso.

Desde então, quase todas as séries ganham o tratamento X-Files: o Reddit, um dos maiores fóruns da internet, reúne teorias de todo tipo, desde comédias com narrativa simples como Unbreakable Kimmy Schmidt e Big Bang Theory até, claro, as que mais fazem sentido ter teorias, narrativas mais densas, com uma mitologia própria complexa e incomum, como Game of Thrones, The Walking Dead, e quase todas as séries de super-herói. Já fazem dois anos que, na época do verão americano, quando os canais nos dão uma pausa para respirar, uma série nova domina a conversa dos teóricos: Mr. Robot.

Felizmente – talvez – eu cheguei atrasada no recente sucesso do canal USA, um drama sobre hackers e paranoia e um protagonista antissocial que serve de narrador não confiável. Isso me permitiu passar 10 horas na frente da televisão para a primeira temporada praticamente sem consultar a internet. Eu fui uma das poucas pessoas que ficaram honestamente chocadas com a revelação feita no final do oitavo episódio, simplesmente porque eu não tinha NENHUMA ideia de que aquilo pudesse acontecer. Ok, podem me chamar de cega. Nem a música do Pixies, Where Is My Mind, que apontava para a chave do mistério, chamou minha atenção.

É o seguinte, existem dois tipos de telespectadores: aqueles que querem ser mais inteligentes que a série e aqueles que querem que a série seja mais inteligente que eles. Eu me encaixo no segundo tipo. Talvez por causa disso, eu nunca fui uma fã assídua de teorias. Mas meu inferno pessoal começou no ano passado, com o drama existencial da HBO, The Leftovers. Eu passava mais tempo no Reddit lendo sobre do que de fato assistindo o episódio, cavando cada detalhe que alguém – que nunca era eu – tinha percebido, o tipo de coisa que raramente é comentado nas críticas tradicionais com as quais eu já estava acostumada. Eu também não escrevia muito, e as poucas vezes que dei minha opinião sobre alguma teoria, fui bruscamente ignorada. No finale da segunda temporada de The Leftovers, quando a teoria que eu tinha elegido a mais condizente não se materializou em frente aos meus olhos, algo estalou. Em vez de decepção porque o que eu tinha certeza absoluta que ia acontecer não aconteceu, eu estava radiante de prazer. O episódio tinha sido tão fantástico e tão surpreendente que eu sentia que mesmo se todas aquelas horas gastas lendo previsões no Reddit tinham sido desperdiçadas, eu estava finalmente testemunhando a pura magia da televisão: ela vai te enganar, e você vai agradecer por isso.

Voltemos à Mr. Robot. Obviamente, para os que acompanhavam a série em tempo real e gostavam de ler sobre ela, a teoria à la Clube da Luta de que Mr. Robot (Christian Slater) na verdade seria fruto do inconsciente de Elliot (Rami Malek) já circulava desde o piloto, e depois de ser martelada por semanas, era inevitável que essas pessoas sentissem que a reviravolta estava na cara demais. Quando ela se confirmou, teve muita gente decepcionada porque era aquilo mesmo: estava na cara! Para alguns, ficar decepcionado quando uma história não consegue ser mais inteligente que você é um sentimento que marca a experiência, e de certa forma, a mancha. O fato que o twist maior escondia uma guinada muito mais emocional e sutil – de que Darlene era irmã de Elliot – não parecia importar, porque, ao resolver o mistério por si mesmo (o sentimento de posse da teoria vem com o tempo), todos os elementos que fazem com que um plot twist bem construído te faça parar e se questionar o que você estava vendo esse tempo todo já tinham sido analisados ao extremo.

Mas o Reddit vibrava, claro.

Como toda rede social, o Reddit tem sua etiqueta, a qual todos os usuários, principalmente os novos, estão automaticamente sujeitos. Logo no início você descobre que pode se tornar um idiota total ou um gênio, e um sistema de pontos agressivo pode te levar ao topo ou à base da hierarquia em poucos minutos. Uma vez que tal teoria foi postada, ela precisa ser validada pelos colegas da comunidade. Eles vão julgá-la e provavelmente vão apontar furos (mesmo que ela se prove correta no final). Quando o metafórico veredito final sai (quando a teoria recebe muitos votos) e se torna uma verdade popularmente aceita entre os membros, o texto começa a expandir as barreiras do Reddit, ganhando os grandes veículos (na maioria das vezes sem os créditos). Esse ano, a Vulture já tinha publicado a teoria dominante sobre a segunda temporada poucas horas depois da première. Isso trouxe a discussão para o dia-a-dia mesmo dos espectadores mais casuais, e a tornou quase inescapável.

Mas o que ninguém te diz antes de você descer pela toca do coelho é que tudo muda depois que você lê uma teoria convincente. Se você trombar com ela, A Teoria, por querer ou por acaso, acabou. A série nunca mais é a mesma, e seus olhos não conseguem te enganar. Toda sua visão da história começa a ser moldada por aquilo que você acredita ser a melhor versão daquela história (você pode fazer seus próprios ajustes na sua cabeça para efeitos de credibilidade e/ou ego). No próximo episódio que você vir depois de ter lido A Teoria, sua mente estará focada nos detalhes, na busca de pistas que possam corroborá-la. E mesmo se elas não corroboram, em vez de descartar A Teoria, você vai adaptá-la para que ela se encaixe.

Mas sejamos justos: séries como Lost e Mr. Robot não só inspiram esse tipo de comportamento dos fãs como vivem dele. Os easter-eggs, as infinitas referências e o material que sustenta as teorias são um acordo entre criadores desse tipo de conteúdo e os fãs. Nós vamos procurar por eles, mas eles têm que estar lá para serem encontrados. Antes dos críticos dizerem que era uma das melhores estreias de 2015, Mr. Robot era só uma nova série em um canal que ninguém prestava atenção. Mesmo o aval dos críticos não garante que as pessoas vão checar as novidades (pobre The Leftovers). E mais, mesmo se os índices de audiência de Mr. Robot caíram da primeira para a segunda temporada, é a fanbase dedicada, junto com o trabalho estelar do criador Sam Esmail, que faz com que a série se destaque na paisagem sobrecarregada da indústria televisiva. O fato das pessoas terem transformado Mr. Robot em um quebra cabeça coletivo que precisa ser discutido todos os dias da semana é o que gera momentum. A série tem força no cenário cultural, algo que é reconhecidamente um dos pilares de sobrevivência de um programa, mesmo que os números deixem a desejar.

Então eu assisto Mr. Robot em parte sabendo que esse olho para o detalhe é algo intencionado pela série, e que frequentemente ele será recompensado. Por outro lado, existe o medo de que, ao procurar pelo que não está sendo mostrado, estejamos perdendo o que está. Mesmo se o que estamos vendo não é “real”, é assim que Elliot está o vivendo, e isso diz muito sobre ele, talvez tudo que importa nessa história. Assim como essas teorias fazem a série mais misteriosa e mais viciante, eles também são uma ilusão de controle, porque nos dão a sensação de fazer parte, e às vezes estar à cargo e à frente, de algo que na verdade não temos nenhum controle sobre (apesar de que Malek admitiu ler o Reddit).

Mas não tem jeito, eu continuo a ler teorias e a adicionar minhas próprias observações. Só que mais do que tudo, continuo a desejar que elas estejam completamente erradas. Porque como Elliot descobriu recentemente, as vezes pode ser interessante deixar que quem está no controle nos surpreenda.

E você, como se sente sobre essas teorias? Comente aí embaixo!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Stephen Holder

    Ok Ana, você me convenceu! Vou arrumar um tempo para ver a série! Eu amo criar teorias, e sou assim também, gosto quando a série se supera! Quando a gente acerta, fica meio decepcionante.

    • Stephen Holder

      Acabei de ver…uuuuuuuuuhhhhhhh. Achei muito bom! Sobre as teorias, prefiro fazer as minhas e pronto. Corro do reddit. Ser o amiguinho imaginário de um esquizofrenico é novidade para mim…hehehehe

  • Guilherme

    Abri esse texto com duas abas do reddit abertas em subreddits de séries… Acho que tenho que me controlar e segurar os upvotes. Porém concordo com o texto, tanto é que as séries que eu mais leio sobre acabam sendo as que mais me decepcionam as vezes, enquanto que em ‘Hannibal’ eu me forcei a ler sobre a sérieapenas após acabar de assistir e foi, sem dúvidas, a melhor coisa que eu já vi na vida. Só não tinha percebido a conexão.