Review: Todos os episódios da 3ª temporada de ‘BoJack Horseman’; é difícil ser BoJack, o mais terrível dos anti-heróis

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A nova temporada de BoJack Horseman chegou na Netflix essa sexta (22) e, diferente das outras, não foi uma tarefa difícil passar seis horas seguidas em frente à tevê. Enquanto seguimos BoJack (Will Arnettl) em sua campanha para o Oscar e pelas consequências da viagem para o Novo México, esse ano está mais maduro (os arcos, não BoJack), mais experimental e mais episódico. Mesmo assim, a fluidez dos arcos maiores te empurra em direção ao próximo e ao próximo e ao próximo até o final, o que faz com que o conjunto pareça mais um livro em vários capítulos do que um filme.

Ainda que ver episódios soltos não faça muito sentido para qualquer fã da série, alguns deles, como Fish Out of Water ou Brrap Brrap Pew Pew podem ser vistos sozinhos por alguém que queira conhecer BoJack Horseman, e eles ainda vão funcionar tanto nas piadas como nas emoções expressadas pelos personagens.

Alerta de spoiler: os comentários contêm spoilers do episódio em questão e de episódios passados, mas tentei manter as notas sobre eventos futuros bem vagas para que seja possível ler até tal ponto sem ter terminado a temporada. O que for mais sensível estará em amarelo, e você pode pular se não quer saber nada nadinha, mas também não são grandes revelações, são comentários sobre algo do episódio que só se paga lá na frente.

PS: Vou fazer o possível para não transformar essas reviews em uma lista imensa de piadas, mas tenha em mente que essa temporada tem algumas das referências sobre cultura pop mais engraçadas da série/tevê.

 

1: Start Spreading the News

A première começa pouco tempo depois dos eventos do finale da segunda temporada: Secretariat está pronto e BoJack precisa fazer com que seu nome esteja na ponta da língua de todos os votantes da Academia. O único modo de fazer isso em Hollywoo é aguentar várias horas de entrevistas em hotéis, guiado pela famosa R.P. Ana Spanakopita (Angela Bassett). Da primeira cena da temporada já dá para entender que o Oscar não vai resolver os problemas de BoJack, e apesar dele saber, ele se agarra a isso em momentos de esperança. A cena também revela um embate mais existencial sobre a indústria: enquanto os jornalistas batem sem pena em Horsin’ Around, que pagou suas dívidas de produção e durou nove temporadas, eles aplaudem um filme isca-de-Oscar no qual a suposta estrela foi digitalmente substituída em todas as cenas. BoJack talvez esteja certo em se agarrar com orgulho ao sitcom, já que foi de fato a única coisa de importante que ele fez em sua carreira. E se Horsin’ Around era uma merda, como Ana diz, talvez seja porque BoJack seja uma merda de ator (meio pesado, mas eu nunca tinha pensado nessa possibilidade).

O outro grande momento do episódio estabelece algo de pista e recompensa quando BoJack não consegue transar com a jornalista porque ela diz “Eu sou uma sereia, baby. Vou subir no seu barco”, o que desperta as memórias sobre o Novo México, quando ele quase transou com a filha do suposto amor de sua vida, Charlotte. A resolução desse arco nunca chega a ser tão intensa como esse segundo de culpa, mas fica claro que a decisão está pesando tanto que consegue atrapalhar até a vida sexual de BoJack, a única parte da vida com a qual ele nunca teve problemas.

Spoiler: a única coisa que me incomodou em Start Spreading the News é o mistério do que Ana fez com a jornalista, que é dado como um cliffhanger, mas fica esquecido pelo resto da temporada.

*“Meu nome é Sarah Koenig? Porque eu vou comer Serial”, Todd, em uma demonstração extremamente específica de como ele é na verdade muito inteligente. (A tradução em português trocou Sarah Koenig por Luis Carlos Prestes, o que transformou um trocadilho hilário em algo que não faz nenhum sentido).

**“Foi interminável. Foi como o segundo ato de um filme do Judd Apatow”, BoJack descrevendo a turnê de marketing.

2: The BoJack Horseman Show

Esse vai ser lembrado como “o episódio do flashback para 2007”, um episódio muito mais leve em termos das jornadas emocionais, basicamente porque nada era tão ruim em 2007 quanto é agora. A força de The BoJack Horseman Show está nas piadas que situam a época: o D está de volta a Hollywood, o rádio só toca músicas pop “marcadas”, bonés Von Dutch são a grande moda dos descolados (meio 2004?), e Lost e Família Soprano são as séries que todo mundo está discutindo (voltaremos a isso já já).

Depois de duas temporadas convivendo com esses personagens, fiquei feliz de ver algumas das perguntas que eu tinha sobre o passado deles sendo respondidas: como BoJack e Princess Carolyn chegaram onde estão?, como Mr. Peanutbutter e Diane se conheceram?, por que Todd gosta tanto da touca amarela?, e claro, o que BoJack fez desde que Horsin’ Around acabou até o momento de depressão e total esquecimento do público quando o conhecemos? Elas também criam mais perguntas, como o que aconteceu com o The BoJack Horseman Show?, mas felizmente não precisaríamos esperar mais três temporadas por essas respostas.

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Mas a melhor parte de 2007 é saber que Todd (Aaron Paul) foi o culpado pelo final enigmático de Família Soprano. Isso é um exemplo de como BoJack Horseman consegue reconhecer e celebrar suas influências de forma cômica e ao mesmo tempo fazer todo tipo de crítica a indústria sem a qual uma comédia sobre depressão, vício e o pânico existencial não poderia existir. A série desafia sua própria existência, um limbo entre a validação e a sátira, e só não cai totalmente para o lado da última porque BoJack se leva a sério, o que faz com que comparações ousadas como essa com Família Soprano não sejam tanta petulância como pode soar.

Spoiler: as reações de Todd aos pedidos de Emily nesse episódio configuram sua grande revelação no final da temporada, que não é só uma decisão ousada em termos políticos, mas fascinante em termos narrativos.

*Então Tony se casaria com a Dra. Melfi… Isso daria um final melhor? (Apesar de que a piada visual já seria o suficiente, a menção se paga mais tarde porque Lorraine Bracco dá voz a terapeuta do episódio 5).

**Qualquer piada envolvendo Jessica Biel: tô dentro.

3: BoJack Kills

Pagar para ver baleias sendo forçadas a fazer truques em aquários que mal as cabem é quase o mesmo que pagar para ver baleias dançando na sua cara, certo? Então porque não misturar as duas coisas? O que começa com uma crítica fenomenal ao polêmico SeaWorld – assista Blackfish, está na Netflix –, se torna uma história de mistério, assassinato e um momento improvável de conexão entre BoJack e Diane (Alison Brie), que não estavam muito bem desde que ela percebeu que a amizade deles costuma levar os dois para o buraco.

A esse ponto, BoJack está bem empenhado em sua campanha pelo Oscar, indo a peças escolares e Bat Mitzvá das primas do Drake, e ele nem está tão preocupado com a possibilidade de ser preso por assassinato se isso não fosse atrapalhar suas chances de ganhar, mas o encontro com Cuddly Whiskers finalmente joga alguma luz no processo de recuperação da saúde mental. Como ele diz, “Leva muito tempo para perceber o quão miserável você é, e ainda mais tempo para ver que não precisa ser assim”. O problema é saber quanto tempo é muito tempo.

*“A Academia não vê assassinato muito bem. Com estupro eles não parecem ter muito problema”, BoJack, tentando garantir seu Oscar. Essa é uma das muitas piadas ferozes sobre a indústria do cinema, apesar de que eu não tenho certeza se ela é dirigida a alguém em particular.

**“Lena Dunham toma banho com as amigas dela e ninguém fala nada”, Todd, em mais uma referência super específica que não é todo mundo que conseguiria fazer.

4: Fish Out of Water

O melhor episódio da temporada (talvez da série), Fish Out of Water é esplêndido porque consegue ser diferente de tudo que BoJack já fez, sem perder a identidade do programa e nem do protagonista. No “episódio mudo”, BoJack perde a força das palavras quando precisa ir a um festival de cinema que acontece debaixo d’água, sendo que os peixes se dão muito bem com um “baleiês” não traduzido. BoJack Horseman se segura muito no diálogo, tanto para avançar a história quanto para fazer humor, mas aqui a série encontra as piadas no visual, no humor físico e na linguagem corporal, um exercício levado adiante no resto da temporada.

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A jornada de BoJack com o cavalo marinho bebê se equilibra bem entre a comédia de erros de Chaplin e a expressão mais simples da depressão, na qual pequenos momentos de felicidade não superam o sentimento de solidão. Quando BoJack devolve o bebê, depois de ter feito tudo para protegê-lo pelo caminho, o cavalo marinho pai pergunta em gestos o que ele quer como recompensa, mas ele não sabe, e isso está estampado em seu rosto, recuperando a razão principal para sua depressão: sucesso, fama e até um Oscar não são o suficiente, então o que seria?

A missão que abre e fecha o episódio, BoJack correndo atrás de Kelsey Jannings para pedir desculpa por Secretariat (é Herb outra vez…), é um ótimo jeito de trazer de volta o que é uma das minhas personagens secundárias preferidas porque 1) o trabalho de dublagem de Maria Bamford é sensacional e 2) ela parece ser a única que quer trabalhar com BoJack pelo que ele pode ser e não pelo que ele foi.

Fish Out of Water confia muito em seu visual para contar uma história sobre a impossibilidade (física e metafórica) da comunicação. Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, serve de inspiração para várias cenas – as tomadas aéreas do trânsito, as propagandas em neon, BoJack sozinho no quarto tentando beber whisky, fumar e comer amendoins, e a perseguição do táxi – mas mais do que tudo, o filme empresta seu tom: a melancolia de não ser compreendido e se sentir perdido também nas relações e na própria vida – algo que parece ser compartilhado por Kelsey –, o que é amplificado pelo deslocamento social.

*A piada no final nos lembra que isso é BoJack Horseman. Por que BoJack haveria de enxergar a beleza dessa meia hora?

5: Love and/or Marriage

BoJack Horseman é uma série na qual os personagens estão constantemente testando os limites de suas relações, sejam elas românticas, de amizade ou mesmo profissionais. E até quando eles sabem que cometeram erros e colocaram essas relações em risco, é melhor cometer os mesmos erros outra vez do que aprender a lição.

Enquanto Diane e Mr. Peanutbutter descobrem que terapia (Dra. Melfi!) não funciona como incentivo à expressão amorosa, mas drogas afrodisíacas sim, Princess Carolyn também descobre um novo parceiro já no seu terceiro encontro da sua única noite de folga da vida. Tudo que as duas precisam fazer para encontrarem algum alívio na vida romântica é tentar algo novo, mas, obviamente, nem tudo é simples assim para BoJack.

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Na maioria das vezes é possível compreender suas ações, mas a amizade com Todd e o modo como frequentemente ele a menospreza são razões suficientes para me fazer ter antipatia pelo protagonista de tempos em tempos. Dormir com Emily foi só mais um desses momentos e é um degrau a mais na escala das sacanagens – fica claro que em certo ponto Todd vai explodir, mesmo que depois ele volte, porque ele é bom desse tanto, e é por isso que nós o amamos. Quanto a Emily, ela se sente rejeitada porque tem algo estranho acontecendo com Todd, mas também foi uma sacanagem de sua parte. Só que nós acabamos de conhecer Emily e ela tem sua cota de erros a cometer, é BoJack quem já estourou suas chances com Todd.

Finalmente BoJack tem alguma clareza sobre seu recente sucesso por causa de Secretariat quando precisa convencer a noiva a não fugir do casamento: todo mundo o ama, mas ninguém gosta dele, e isso gera um sentimento de solidão horrível. Tentando se livrar desse sentimento, BoJack empurra seu suposto melhor amigo para longe. Outra vez. Porque erros existem para serem cometidos.

*“Motherf…”, Diane, no melhor “continua no próximo episódio” da história.

6: Brrap Brrap Pew Pew

Todo mundo deveria ver os últimos segundos de Love and/or Marriage e os primeiros segundos de Brrap Brrap Pew Pew para entender a definição formal de cliffhanger. Dito isso, as piadas excelentes do episódio não tiram a seriedade de sua mensagem. Nunca tivemos mais abortos mostrados na tevê do que agora, mas foi minha primeira vez com uma animação (nunca vi o famoso episódio de Family Guy). O interessante da escolha de Diane, e que ela mesmo nota em certo ponto, é que a representação mais comum do aborto, algo feito por mulheres novas demais e/ou pobres demais, é falsa. Diane e Mr. Peanutbutter decidem não ter o bebê simplesmente porque não querem ter filhos, e isso é motivo suficiente.

O que se segue com Sextina Aquafina é uma daquelas coisas que BoJack Horseman faz com perfeição: algo simples fugindo do controle de forma tão imensa que o absurdo da situação quase não importa em comparação com a reação normal dos personagens a ele. O sucesso de Aquafina com a música Get Dat Fetus Kill Dat Fetus também levanta a questão sobre a intenção das piadas e se deveriam existir limites para o humor, uma discussão muito bem cronometrada. E é importante ficarmos sabendo que golfinhos fazem sexo por prazer e não só para reprodução.

7: Stop the Presses

Se você já se perguntou o porquê de BoJack nunca ter feito terapia, esse episódio traz a resposta, e é também o mais perto que ele vai chegar disso. Ele acha que “psiquiatras são idiotas”, mas acaba descobrindo que pode ser bom deixar um estranho tirar conclusões sobre sua vida (ajuda que A Negociadora é genial e nos convence que a rotina de receber o jornal todo dia é uma forma de lutar contra a fera selvagem que é o universo e o mito que é o controle).

Toda a introspecção do episódio nos diz sobre como BoJack vê a si mesmo, ou como quer ser visto, com mensagens de afirmação como “Você é Secretariat” nas margens. Infelizmente, usar um espelho de anúncio não é a melhor forma de ligar o personagem ao intérprete (nem a melhor forma de manter as rodovias livres de acidentes). Assim como o outdoor, a temporada está cheia de metáforas que talvez necessitem também de um pouco de introspecção para valerem a pena, mas funcionam perfeitamente como poesias visuais. Tem algo de poderoso nessas imagens.

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BoJack dormiu com Emily para ter algo para colocar a culpa quando Todd o abandonasse? Isso é o que A Negociadora pensa, e se aplica a quase todas as relações de BoJack. Ele não consegue lidar com intimidade, e quando o percebe, sente o impulso de lutar contra isso a exigindo de Ana. Mas Ana talvez não seja a melhor pessoa para isso, ela luta contra seus próprios demônios. É a amizade com Todd que parece ter chegado a uma encruzilhada, e agora não tem muito o que se fazer. Bom, você sempre pode usar uma cabeça gigante de Todd de papel machê para fingir que o mundo em volta não existe.

Spoiler: Mr. Peanutbutter prenuncia o grande desfecho do finale já nesse episódio de um jeito bem engraçado, como se tivesse tirando sarro da cultura do foreshadowing (conhecendo BoJack, provavelmente estava)

*Como todas as aparições da Character Actress Margo Martindale, sua pequena história sobre a peça de teatro é um dos melhores momentos do episódio.

**O que tinha no pacote que BoJack jogou no arbusto?

***“É simplesmente complicado… Se o nosso relacionamento fosse um filme da Meryl Streep, seria Dúvida”, BoJack descrevendo Ana e seu vasto conhecimento sobre cinema.

8: Old Acquaitance

Essa pode ter sido a primeira vez que BoJack teve que enfrentar o verdadeiro dilema do ator: fazer algo só por orgulho, o reboot de Horsin’ Around: Ethan Around (ouch, Fuller House!), fazer o que seu agente acha que é melhor para sua carreira, Flight of the Pegasus, ou fazer o que ele realmente quer fazer, o projeto sobre a garota que ama jujubas dirigido por Kelsey Jannings.

Mas mais uma vez, a inabilidade de BoJack de fazer planos e principalmente de se expressar com Princess Carolyn leva à bagunça total, e ele acaba perdendo as três coisas. (Já é a segunda vez que BoJack destrói a carreira de Kelsey, e é realmente impressionante o poder negativo que ele tem sobre as pessoas a sua volta).

Enquanto isso, Todd continua sendo o personagem que melhor se equilibra entre o genial e o idiota completo. Sua ideia do aplicativo Uber-esco, de mulher para mulher, Cabracadabra, vai tão bem que ele resolve expandi-lo para atender aos homens também. Talvez isso seja um comentário sobre como homens não deviam se meter na resolução de problemas enfrentados por mulheres, mas a essa altura funciona mais como um movimento clássico Todd do que qualquer outra coisa. Ele é inocente desse tanto, e é por isso que nós o amamos.

Na Península do Labrador, Diane se sente ainda pior com as elucubrações existenciais do Captain Peanutbutter, que pensa que pode estar perto da morte por causa de um problema na pata. Assim como aconteceu no encontro com Cuddly Whiskers, algumas das coisas que ele diz realmente atingem Diane: “É tão cruel deixar as pessoas te amarem. Você só está prometendo que um dia vai partir o coração delas”. Como uma comédia consegue se virar com uma fala como essa?

* “Isso é o que o Robert Downey Jr. deve ter sentido quando acordou no chão do banheiro de um desconhecido e descobriu que ele seria o Homem de Ferro!”, BoJack.

*Os créditos iniciais mudaram para incluir a faixa da Cabracadabra na sala de BoJack.

9: Best Thing That Ever Happened

Isso é o mais próximo que BoJack Horseman pode chegar de um episódio-garrafa: ele se passa quase inteiramente no restaurante, e é inteiro sobre a relação de BoJack e Princess Carolyn, sendo que tudo que acontece em volta deles só serve para estabelecer conflitos e obstáculos que os façam falar. É uma exploração da dinâmica de codependência dos dois, e é algo que poucas séries se preocupam em fazer: o segredo de BoJack não está na ação, mas na interação.

Por mais que BoJack e Princess Carolyn sejam amigos e ela seja uma das únicas constantes na vida dele (há 23 anos, ainda por cima), a briga dos dois é fruto da compreensão de que ela não é uma boa agente, ou no mínimo, não é uma boa agente para ele, por causa da parcialidade que permite que ele faça coisas como fugir para o Novo México no meio das gravações de um filme e não voltar mais. E ele não é um bom amigo para ninguém, o que impede que ela seja uma boa amiga, principalmente quando está preocupada em ser uma boa agente.

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BoJack percebendo isso é um passo na direção certa, e mais do que tudo, parece uma decisão pensada e madura, ainda que possa ser simplesmente uma resposta pontual aos episódios de Old Acquaitance. Mas mesmo se os dois entram no restaurante esclarecidos sobre a situação profissional em que se encontram (e Princess Carolyn entende na hora o que aquele jantar quer dizer, porque ela sabe que não está funcionando), lá dentro eles descobrem algo mais, sobre a amizade e o amor que nutrem um pelo outro, e principalmente sobre eles mesmos.

Esse episódio é um ponto de virada na série, porque não sabemos como BoJack funciona sem Princess Carolyn e como Princess Carolyn funciona sem BoJack. O futuro parece bom para ela, mas para ele, nem tanto.

*“Eu te amo, a propósito. Quer dizer, o tanto que eu sou capaz de amar alguém. Que nunca é o suficiente. Sinto muito”, BoJack, não fazendo uma piada.

**samanthagoestorestaurants.tumblr.com – os gifs realmente não decepcionam…

10: It’s You

Porque um dos meus arcos preferidos da temporada foi a relação BoJack/Todd, esse episódio foi uma grande surpresa. Além de mostrar como BoJack não tem nenhuma ideia de como um amigo deveria se comportar (nem com Todd, nem com Mr. Peanutbutter), foram 20 minutos de pura gozação sobre como o Oscar se tornou indiferente ao mundo em sua volta.

Como a maioria dos capítulos de BoJack Horseman, It’s You é uma coleção de personagens tristes em situações alegres. Os presentes não param de chegar para BoJack por causa de sua indicação por um filme no qual ele não atuou, o cenário é a típica festa do superstar alienado, o que por si só é um clichê abusado por Hollywoo(d). O que o próprio BoJack nunca nos deixa esquecer é que a notícia não o deixou mais feliz, e a festa é uma tentativa forçada de não revelar isso para os outros e nem para si mesmo.

É uma frase do diálogo que ele tem com Ana e depois com Diane que coroa essa temporada e, de certa forma, descreve a série. “Não fetichize sua tristeza” é um conselho muito útil para quase todos os personagens dessa história, um conto de sobrevivência em um ambiente que constantemente deseja e valoriza a queda.

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A jornada de Mr. Peanutbutter e Todd com os indicados ao Oscar é uma piada longa que funciona perfeitamente na antecipação da informação mais importante, que tira BoJack da bolha ao quebrar sua ilusão de felicidade. Entre as anotações no quadro branco, negros? e Jennifer Lawrence sete vezes (uma delas como Jennifer Jason Lawrence) marcam o ponto da piada e do discurso de Ana: as premiações não são sobre festejar os melhores, mas os que conseguem sustentar a imagem de especial. De qualquer jeito, BoJack não é um deles.

A revelação de que ele dormiu com Emily não é tanto sobre os sentimentos de Todd por Emily quanto é sobre a amizade dele com BoJack. Percebendo que ele afastou todas as pessoas especiais em sua vida, BoJack implora para que Todd não vá embora também. Ele repete variações de “Todd é meu melhor amigo” várias vezes durante a temporada, mas falha em perceber que ele não tem sido um melhor amigo para Todd. O que mais pode se dizer?

*Bebê Todd!

*Essa temporada tem vários momentos que rimam com os créditos de abertura, especialmente quando BoJack está no seu pior. Um deles é quando ele cai na piscina nesse episódio, outro é quando ele não aguenta ouvir Todd comparando a si mesmo, BoJack e Emily a Três Solteirões e um Bebê, em Stop the Presses.

11: That’s Too Much, Man!

Os episódios onze de BoJack Horseman geralmente são histórias sobre grandes erros e geralmente revelam algo de novo sobre o estado mental de BoJack. Apesar desse episódio onze não ser tão visualmente poderoso quanto os outros dois, ele contém o germe de ideias poderosas executadas de forma estranha, e traz o incidente que pode ser o agente de mudança de BoJack na próxima temporada.

Sarah Lynn nunca foi uma personagem amável, e todas as vezes que ela se encontrou com BoJack nos últimos três anos foi para servir de gatilho para algum comportamento horrível dele. Os flashbacks para 2007 explicam em parte o porquê disso, enquanto completam o arco do The BoJack Horseman Show, e aproveitam para fazer alguns excelentes comentários sobre o uso da metalinguagem na tevê.

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A parte na casa da Sarah Lynn é realmente engraçada, mas durante a viagem de carro dos dois o episódio se torna sombrio e triste. Os black-outs talvez queiram dizer que BoJack não consegue estar totalmente consciente de que está tentando arrumar sua vida, porque ele não conhece nada além disso. Ou talvez sejam só por ele estar mucho mucho mucho loco (foi aí que a execução ficou um pouco confusa para mim). Finalmente temos o desfecho (mais ou menos) do que aconteceu durante a viagem ao Novo México, e obviamente a reação de Penny é totalmente compreensível e esperada, só BoJack que não o vê (mucho mucho mucho loco).

Quando Sarah Lynn não responde o chamado de BoJack pela primeira vez, antes de descobrir que ganhou o Oscar, o que era para ser uma piada de humor negro soa mais como um prenúncio óbvio do final do episódio, e os últimos minutos que os dois passam juntos parecem mais saídos de um drama de uma hora do que de uma comédia de 20 minutos (uma transição que BoJack Horseman saber fazer muito bem). Ainda, o fato de que é BoJack que literalmente mata Sarah Lynn é uma adição distorcida da semente da culpa, que eu espero que se concretize no próximo ano. Já é tempo de BoJack pagar por seus erros (ainda que não legalmente) e começar a trabalhar para se recompor.

*“Qual é a da Diane? Ela é uma Daria asiática?”, Sarah Lynn, no que pode ser a descrição mais precisa de Diane entre todas as possíveis combinações de palavras descritivas.

12: That Went Well

Quando o finale começa com o antes e o depois da trágica morte de Sarah Lynn, o tom sugere que esse vai ser um episódio melancólico, quando finalmente BoJack vai atingir o fundo do poço (mais fundo do que todos os outros que ele já atingiu). E é tudo isso, mas as coisas escalam de forma que That Went Well tenha um dos momentos mais engraçados da terceira temporada de BoJack Horseman. BoJack não é tudo que importa, Todd e Mr. Peanutbutter protagonizam momentos icônicos e, depois de tudo, é fácil se importar mais com eles do que com BoJack.

Claro que a Character Actress Margo Martindale serve de motor para o acontecimento cômico do episódio, o “vazamento” de doze toneladas de spaghetti que ameaça a Pacific Ocean City (essa é a piada mais bem construída em uma série de tevê sobre uma loucura nascida na internet: a Igreja do Monstro de Espaguete Voador). É fantástico como essa narrativa consegue amarrar praticamente todas as pequenas narrativas da temporada, até as que pareciam correr em paralelo, como a demissão do chef italiano do Elefante em Best Thing that Ever Happened, a cidade em que ocorre o festival de cinema e o total desastre sexista que se torna o aplicativo de Todd. E quando Mr. Peanutbutter salva o dia no melhor estilo Mad Max, fica claro que sua parceria com Todd vai sempre trazer algo de mágico para a série, para contrabalancear os instantes mais difíceis.

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Diane admitindo que Horsin’ Around salvou sua crença na instituição familiar é um comentário interessante sobre a Era de Ouro da Tevê. BoJack Horseman é uma série de nicho, mas seu DNA contém um sitcom considerado “uma merda”, que apesar de tudo, levava milhares de pessoas para frente da tevê toda semana e de alguma forma passava mensagens positivas. BoJack não precisa deixar de existir e nem de ser apreciada para que seja possível reconhecer o valor da narrativa tradicional, geralmente renegada pelos mesmos críticos que BoJack (e BoJack) tanto compra briga. É a deixa para que BoJack se envolva outra vez no reboot/spin-off de Horsin’ Around, Ethan Around, finalmente um projeto no qual ele está contente em participar. Mas a nova série ainda é insuficiente para fazê-lo esquecer de Sarah Lynn, Princess Carolyn, Todd, Mr. Peanutbutter, Diane, e si mesmo.

A conversa de Todd e Emily na lanchonete é talvez um dos melhores cliffhangers para a quarta temporada. Apesar dele não saber exatamente qual nome dar para o que sente, o diálogo sugere que ele é assexual, uma das mais raras representações na televisão americana. Espero que Emily volte no próximo ano e crie mais oportunidades para que Todd fale sobre o assunto. Especialmente agora que Todd não é só Todd, mas Todd-o-ex-milionário-que-deu-uma-gorjeta-de-8-milhões-de-dólares.

O desfecho de BoJack é um típico desfecho de BoJack, tudo está perdido mas há uma ponta de esperança. Parece que ele resolve se matar, mas então algo chama sua atenção. A cena em si rima com uma das primeiras cenas da temporada, que mostra um quadro dos cavalos correndo no quarto de hotel de BoJack. Diferente das outras temporadas, agora ele está completamente sozinho e não tem para onde ir, mas o filme, o outdoor, o Oscar, tudo vem em mente: “Você é Secretariat”. Está na hora de começar a agir como tal.

BoJack Horseman é uma série diferente, mesmo entre o conjunto de histórias de anti-heróis ao qual ela se compara no poster dessa temporada. Mad Men, Família Soprano, House of Cards, (e Breaking Bad, que faltou), todas te obrigam a entender, e até gostar, dos protagonistas. É a busca pela compreensão dos erros que nos tornam humanos (ou cavalos humanóides). BoJack é mais exigente: a depressão pode explicar um comportamento desprezível, mas não o justifica. E ninguém é obrigado a ficar ao seu lado enquanto você descobre isso.

*BoJack tem uma filha? É isso mesmo? Quer dizer que uma parte daquele dinheiro reservado para abortos não foi usado para abortos afinal?

**Mr. Peanutbutter será o novo Arnold Schwarzenegger? Isso não é exatamente um grande cliffhanger, mas não tenho certeza se gostaria de ver essa história se desenvolver demais.

***Character Actress Margo Martindale está morta?! Nãããão!!!

****1ª decepção com piadas de BoJack: a lista de 20 Actress That Make Everything Better do A.V. Club não existe. E a lista A field guide to 19 of today’s best character actors não contém Margo Martindale.

E você? O que achou da terceira temporada de BoJack Horseman? Comente aí embaixo!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Bruno Vinícius

    Eu acabei de assistir a terceira temporada e sinceramente fiquei cheio de perguntas em mente, mas não me arrependerei de ter assistido, muitos que vivem comigo diriam que é uma série completamente inapropriada (por conter tantas drogas, alcoolismo, etc) e fora da realidade, mas foi completamente incrível, senti como se tivesse vivido 40 anos de uma outra vida fazendo muita merda mas tentando ter fé na humanidade e ter fé em Deus e em mim mesmo e sinto algo diferente, sinto que não posso perder tempo da minha vida, algo em mim ignora toda a parte negativa de BoJack, (que sei que também tenho uma pequena parte dentro de mim, orgulhoso, talvez narcisista, nem sei) e olha rpara aquela ponta de esperança, aonde ele pode pagar pelos seus erros e se sentir em paz novamente, sem ódio de tudo que seus pais fizeram, sem oscar, apenas paz, mas sim, acho que estou sendo positivo demais sobre tudo isso, mas creio que muita coisa ainda vai acontecer e deixarei minha positividade maior que a negatividade, acho que é isso, eu tinha muito pra falar ainda, mas acho que ja está bom por agora.

    Ah, e ótimo Blog Ana Carolina, curti muito, espero voltar pra ver sobre novos episódios ou outras séries, abraços.

  • Raissa Santana

    Apesar de ter achado a terceira temporada confusa e cheia demais, a possibilidade da filha do Bojack me deixou animada.

    E ah, ótimo texto!