Review: Elliot perde o controle em um episódio totalmente controlado de ‘Mr. Robot’ 'Kernel Panic' mostra que todo mundo tem seu Mr. Robot.

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Comentários sobre Mr. Robot de ontem à noite porque isso é George clássico, tô certa…?

Uma semana depois e eu me sinto meio envergonhada por não ter escrito sobre a estreia de Mr. Robot, porque Kernel Panic (ou eps2.1_k3rnel-pan1c.ksd) me lembrou que essa série merece ser falada sobre toda semana, talvez a semana toda (já visitaram a página do Reddit?). Dirigido e escrito por Sam Esmail, assim como todos os episódios da temporada, esses 62 minutos provam que, diferente do Dr. Frankenstein, o criador tem o domínio completo sobre sua criatura, o que me faz quase ter medo pelo futuro, já que o slogan da série declara que “controle é uma ilusão”.

Elliot – ou Mr. Robot – parece estar cada vez mais consciente do nosso papel como telespectadores, assim como a própria série está cada vez mais consciente que é uma série de televisão. Antes que você possa se perguntar se a resolução do cliffhanger da semana passada aconteceu de verdade, Elliot já está nos perguntando como ele poderia falar no telefone com o homem mais procurado do planeta, e Mr. Robot já está perguntando para ele porque ele está nos perguntando.

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A estética de Kernel Panic é tão linda quanto desconcertante. Esmail insiste no enquadramento não convencional até que estejamos totalmente presos no pânico/euforia de Elliot, que dá origem a duas das montagens mais interessantes que a série já fez, remanescentes das aventuras de Mark sob o efeito de drogas em Trainspotting. A primeira, enquanto Elliot está enfrentando um sequestro mental, e depois desafiando Mr. Robot e procurando por comprimidos de Adderall no meio do vômito é uma daquelas cenas que por mais sufocante, nojenta e bárbara que seja, te faz pausar, voltar e assistir de novo, só para ter certeza de não perder nenhuma parte daquele filme de terror tocando como uma pintura clássica, revelando seus detalhes em close ao som de Opening, parte da trilha sonora de Philip Glass para Mishima: A Life in Four Chapters.

Então conhecemos o novo Elliot, há cinco dias sem dormir, completamente lunático e sem percepção da realidade – mas ei, se isso é o necessário para se livrar de Mr. Robot, que seja. O momento parece ainda mais autoconsciente, incluindo múltiplos Elliots, um Leon falando ao contrário*, escadas mágicas, um prato estrelando de tão limpo e Rami Malek tão seguro da excentricidade de Elliot que apesar da sequência inteira ser cômica, é também um prenúncio do fundo do poço que vai se instalar quando a onda do Adderall acabar e Mr. Robot exigir seu espaço de volta.

*Alguém reverteu a cena e – surpresa! – Leon está comentando sobre o episódio The Betrayal, de Seinfeld, apelidado de “o episódio ao contrário”, no qual a cronologia é toda invertida, começando da última cena e terminando na primeira.

A terceira montagem, além de nos apresentar um pouco mais de Dom Dipierro (Grace Gummer), a agente do FBI que está na trilha da fsociety, estabelece paralelos entre ela e Elliot e completa o tema do episódio, os amigos imaginários com os quais os personagens mantém relações instáveis. No melhor estilo Ela, Dom também sofre de insônia e conversa com seu celular*, que não parece compreender totalmente seu humor para canções matinais (a ótima Highwayman, sobre uma alma e suas várias reencarnações). Ao nos mostrar Dom colocando maquiagem para ir trabalhar, a cena também remete ao episódio da semana passada, Unmasked, que notava que tanto Darlene quanto Angela sabiam exatamente a máscara que deveriam colocar para o mundo, enquanto Elliot virava uma pessoa diferente agora que ele estava empenhado a se livrar da sua.

*Isso foi um ótimo exemplo do marketing indireto usado de forma orgânica na narrativa. Se você também quiser uma Alexa, basta comprar um Amazon Echo.

Finalmente, ter Elliot explodindo durante o encontro do grupo da igreja é o ápice do processo de uma suposta salvação pela rotina, pelo mundo “normal”. Ele odeia que as pessoas se contentem com o conforto da ignorância, mas mesmo assim gostaria de fazer parte disso. Permanece um mistério se é o próprio Elliot ou o Mr. Robot que percebe a hipocrisia total que é Elliot se drogar e se iludir em busca da paz de espírito, mas atacar a religião como forma de anestesia social. Isso pode significar que não veremos mais montagens de Elliot viajando nas drogas, mas é o início de uma nova dinâmica no relacionamento dos dois, talvez vejamos mais de Elliot como Mr. Robot. Se “o controle é tão real quanto um unicórnio de uma perna fazendo xixi no fim de um arco-íris duplo”, talvez o único jeito seja desistir da ideia de controle. E é aí que o Frankenstein sai para brincar.

O que vocês acharam de Kernel Panic? Comente aí embaixo!
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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Stephen Holder

    Ainda não assisti um episódio dessa série. Mas, acompanho as reviews aqui mesmo…Já estou pensando na maratona maluca que vou ter que fazer, quando ver o primeiro e gostar. Ferrei-me!

  • Euller Neves

    Eu não via um ep tão maluco de Mr. Robot desde o quarto da primeira temprada! E só sei que alguém precisa fazer um gif dos olhos do Elliot quando ele tava olhando pra máquina de lavar.