Review: ‘The Night Of’ é uma mistura de tudo que a HBO já fez. E é sensacional. Existe vida depois de 'Game of Thrones'. E depois de 'Os Sopranos', e 'The Wire', e 'Oz' e 'True Detective'.

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Comentários sobre a estreia de The Night Of porque o Teorema de Stokes diz que a integral de linha de F ao longo de C é igual à integral de fluxo da curva F pela superfície S…

É horrível quando a melhor noite da sua vida se transforma na pior noite da sua vida em um piscar de olhos (que nesse caso, é um piscar de olhos literal). Mas acontece. Talvez não com tanta frequência, que é o que faz com que The Night Of, nova minissérie da HBO, seja tão particular, mesmo quando navega por águas extremamente conhecidas. De certa forma, é uma história muito comum. Mas é também uma história comum contada de forma incomum, e é excelente.

Entre todos seus programas de prestígio, o drama de tribunal é território novo para a HBO. O canal já explorou o crime em Os Sopranos e Boardwalk Empire, o sistema prisional em Oz e o trabalho policial em The Wire e o recente True Detective. Um projeto antigo de James Gandolfini (que iria estrelar a série e aparece nos créditos como produtor executivo), The Night Of é tudo isso e se encaixa lá em cima junto com a nata da emissora, adicionando o aspecto legal como o elemento de novidade. É uma mistura de coisas que já vimos: adaptada da britânica Criminal Justice, ares de Law and Order, paralelos na vida real com o podcast jornalístico Serial, e uma reprise de basicamente todos os pontos levantados em 12 Homens e uma Sentença para garantir a condenação de um imigrante, mas a série ainda parece fresca, moderna e singular.

Escrita pelo romancista e roteirista Richard Price (A Cor do Dinheiro, The Wire) em parceria com Steven Saillian (A Lista de Schindler, Hannibal, Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres), que também dirige sete dos oito episódios, a série nos faz entender bem rapidamente que estamos lidando com o garoto mais legal do mundo, e talvez o mais ingênuo também: Naz (Riz Ahmed), um jovem de origem paquistanesa, usa seu tempo livre da faculdade para ajudar um colega do time de basquete com assuntos complicados de Matemática, mas falha em perceber que ele não será a pessoa mais bem recebida na festa para qual é convidado. Mas a promessa é de garotas e diversão. O que poderia dar errado?

Bem, tudo. O que acontece em seguida é uma série de eventos infelizes que levam Naz a ser acusado de um crime horrível, mas que também nos lembram o quão imprevisível, e até certo ponto, incrível, pode ser uma noite em Nova York. Sem a consequência trágica, o piloto The Beach lembra um dos melhores episódios desse ano, The Panic in Central Park, da série Girls, quando Marnie (Allison Williams) encontra um ex-namorado por acaso e eles partem em uma jornada pela madrugada da cidade onde tudo acontece, visitando novos lugares, passando por novas experiências, de forma que a decisão de Naz de ir para a casa de uma desconhecida (Sofia Black D’Elia), se drogar e beber uma garrafa de tequila com ela não pareça uma loucura total. É só algo que acontece naquela Nova York cinza e estranhamente silenciosa. Poderia ter dado tudo certo e então seria a melhor noite da vida de Naz. Poderia.

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A direção de Zaillian e a fotografia de Robert Elswit estão contando uma história de detetive nos detalhes. Eles dão especial atenção para tudo que poderá ser usado contra Naz mais tarde: a filmagem da câmera de segurança na loja de conveniência, um encontro suspeito no posto de gasolina, o gato que a garota põe para fora de casa pela porta de trás e os inúmeros closes lentos em uma faca que depois culminam em um momento extraordinário na delegacia. Tudo isso funciona como peças soltas de um quebra cabeça, e não está claro se elas serão o suficiente para que seja possível desvendar o mistério antes que ele seja desvendado na série, mas ajudam a tornar a história convincente e intrigante. Ainda assim, mesmo se a curiosidade anseia pela verdade, não é só isso que está em jogo, e não seria tão surpreendente se a série terminasse sem uma resposta clara, como tantas das histórias de crime que se tornaram fenômenos recentemente, como foi o caso de Adnan Syed em Serial ou Steven Avery em Making a Murderer. Parte do que nos fascina é realmente não saber e mesmo assim ter opiniões e sentimentos sobre o caso, e sobre as circunstâncias que levaram a um veredito ou outro.

Naz é vivido por Riz Ahmed com a leveza de quem acabou de descobrir que coisas ruins podem acontecer com ele. Talvez você se lembre de Ahmed como o talentoso ajudante de Jake Gyllenhaal em O Abutre, mas vê-lo tomar o palco com um personagem tão cheio de facetas e mistérios é a promessa de uma carreira notável – promessa já cumprida: ele estará no próximo Star Wars: Rogue One. Naz está vendo o mundo ruir na sua frente pela primeira vez, e sua aparente inocência (em todos os sentidos) garante uma incredulidade que as vezes soa como fascínio. A tensão cresce enquanto o assistimos conversar com o Detetive Box (Bill Camp) sem pedir um advogado porque ele acredita na polícia e acredita que não fez nada de errado, e mesmo Naz sendo um garoto quieto e calado, o sentimento que predomina é de que ele falou demais, fez demais, e até foi visto demais – algo que depois se concretiza pela principal testemunha só ter reparado nele por causa de sua descendência árabe.

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Seria Naz capaz de cometer tamanha atrocidade? Não está totalmente claro, mas a resposta tende para o “não”. Mas seria um sistema falido capaz de condenar Naz por tal crime? Essa é a pergunta que aparece nos minutos finais do piloto, quando John Turturro (O Grande Lebowski) entra em cena como o advogado excêntrico Jack Stone. Como ele observa com um traço de indiferença, “Naz não fez nada até que o indiciem por ter feito”. Ele pode não ter sido acusado formalmente ainda, mas a série já o indiciou, e talvez até o condenou, no minuto que nos mostrou um garoto que ajuda os outros por pura generosidade. Mas como dizem, não basta ser inocente, é preciso parecer inocente, até para a justiça. E pobre Naz, no momento a única coisa que ele parece ser é o pior tipo de criminoso.

E vocês, o que acharam de The Night Of? Comentem aí embaixo!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Stephen Holder

    Vi o primeiro episódio, achei interessante. Mas, duvido muito na inocência dele. Então a conspiração terá que ser muito grande em torno dele. Vamos ver no que dá.