Review: ‘Game of Thrones’ finalmente entregou uma obra prima Além de épico, 'The Winds of Winter' foi bem amarrado, caso raro entre os season finales da série.

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A maioria dos season finales de Game of Thrones são grandiosos, simplesmente porque são uma coleção de grandes momentos, mas não é sempre que uma coleção de grandes momentos é costurada de forma que se torne também uma grande narrativa. The Winds of Winter conseguiu, transitando harmonicamente entre Porto Real, Meereen, Winterfell, as Gêmeas e Dorne. Dirigido por Miguel Sapochnik, que, na semana passada, transformou Battle of the Bastards na mais bela expressão do puro caos, esse season finale foi mais calmo que a guerra entre Jon Snow e Ramsay Bolton, mas só porque houve tempo para fazer com que as decisões tomadas, que não tiveram nada de calmas, fossem refletidas e suas consequências ponderadas.

Contagem de corpos*: infinitos + 11 conhecidos

Lá na primeira temporada, quando a cabeça de Ned Sark rolou, sua morte foi catártica não só porque Game of Thrones fazia uma escolha que poucas séries ousavam fazer, mas porque serviu como ponto de partida para a desestabilização política de Westeros que envolveria toda a história. Desde então, nenhuma outra morte singular – nem em GoT e nem no resto da tevê, que decidiu copiar o método a rodo – teve o mesmo impacto narrativo e histórico que a morte de Ned. Até no Casamento Vermelho, foi preciso que vários personagens morressem de uma vez para gerar a mesma sensação de magnitude.

*A contagem final de mortes da temporada é de exatamente 90 pessoas conhecidas (ou que pelo menos tiveram mortes individuais), mais as vítimas em grupo de eventos gigantes (genocídio Dothraki, Jon vs. Ramsay, mestres de Meereen, explosão do Septo).

Isso não é dizer que as mortes perderam totalmente seu propósito, mas que, nesse ponto da história, elas nos dizem muito mais sobre os assassinos do que sobre as vítimas. Semana passada, ficamos aliviados de ver Ramsay sair de campo, mas a informação mais importante do acontecimento foi a de que Sansa Stark tinha se tornado uma mulher destemida e impiedosa.

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Cersei sempre foi uma das melhores e mais bem desenvolvidas personagens da série, e o fato dela ter-se tornado uma terrorista é a coroação de uma ideia antiga, de que ela fará absolutamente qualquer coisa para retomar o controle de sua vida e do reino que ela acredita ser seu por direito. Literalmente tudo que ela tinha foi tirado dela na Caminhada da Vergonha no ano passado, e quando Tommen resolveu se aliar ao Alto Pardal e se converter à Fé dos Sete, ele levou junto o único laço que ainda servia de redenção para Cersei. A Rainha Mãe pode ter pedido ao Montanha para manter Tommen seguro da explosão do Septo de Baelor, mas ela sabia que ele não voltaria a sentar a seu lado, o que fica mais claro pela sua reação à morte dele, que é de total resignação, bem diferente do luto por Joffrey e Myrcella.

A detonação do fogo-vivo já tinha sido antecipada há vários episódios, mas não foi o fato em si que gerou comoção, e sim o modo como foi filmado por Sapochnik. Ao começar pelo contraste criado pelas vestimentas que cada um escolhe, a própria Cersei encarnando o perverso Tywin em seu vestido preto, e Tommen passivamente tendo a coroa colocada em sua cabeça pela última vez. A música de Ramin Djawadi toca como uma marcha fúnebre durante toda a sequência, anunciando um funeral bem antes da explosão. Apesar de conhecermos alguns dos finados pelo nome – Alto Pardal, Margaery**, Loras, Mace, Tio Kevan, Lancel, e Mestre Pycelle –, a morte de nenhum desses personagens se compara individualmente à tragédia como um todo, porque Cersei não se importava só em matá-los de qualquer forma em uma vingança pessoal, mas em tornar o massacre um momento épico, em ter prazer ao assistir o símbolo de sua vergonha ser destruído do mesmo jeito que Nero assistiu Roma queimar, com um sorriso no rosto. Cersei sempre foi uma admiradora da estética, e a faísca de fogo-vivo refletida nos olhos de Lancel antes do verde kriptonita inundar os becos de Porto Real é uma das escolhas mais cinematográficas que Sapochnik faz na cena.

**Por mais que Margaery tenha sido uma personagem interessante na temporada passada servindo de antagonista para Cersei, nesse ano ela não foi nada mais do que a responsável pela conversão de Tommen. Fiquei triste por sua morte, mas faz sentido que o problema que ela representava para Cersei, um inimigo local, desapareça da história para que as ameaças globais comecem a tomar forma nos planos dos Lannisters.

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O suicídio de Tommen é outro momento que, envolvido pelo absoluto silêncio, cria a atmosfera macabra das perdas geradas pelas escolhas de Cersei. Vendo o Septo queimar do mesmo enquadramento que sua mãe, Tommen se dá conta não só do que Cersei é capaz, mas do que ele, nem como rei, nunca seria capaz de impedir, e então toma a única decisão própria de todo seu reinado. Quando Tommen retira a coroa ele mesmo e sai de quadro por alguns segundos, a câmera estática faz o público encarar a cidade destruída como se fosse cúmplice de Cersei, só para então torná-lo testemunha também da renúncia trágica de Tommen.

A transição de Porto Real para a Casa Frey se dá quase que ironicamente com a morte de Tommen seguida da comemoração de Walder Frey pela aliança com os Lannisters. O diálogo de Frey com Jaime serve como uma distração porque o pavor no rosto do Regicida ao ser igualado ao algoz de Robb dá a entender que ele mesmo poderia ter arquitetado a morte de Frey. Quando é revelado que a assassina é uma garota que tem nome e esse nome é Arya Stark, o alívio por ser o fim de um dos personagens mais nojentos da série divide espaço com o receio pelo que Arya se tornou. Que ela não ficasse contente simplesmente em matar os assassinos de sua família, mas que fizesse questão de esquartejar os filhos de Frey e usá-los de ingrediente em uma torta, leva a crer que Arya está disposta à métodos tão extremos quanto Cersei para conseguir o que quer. Não é mais questão de justiça, mas pura vingança. Não basta só matar, é necessário fazer sofrer, humilhar. Essa cena revela que de fato algo mudou em Arya. Ela não é mais a garota que deixou o Cão viver no final da quarta temporada. Ela ainda é Arya Stark, e agora sabe manejar uma espada no escuro, mas mais importante, ela aprendeu a ser cruel. Agora resta saber se ela vai seguir para Porto Real para terminar de riscar os nomes em sua lista ou vai ouvir a palavra que o Mindinho prometeu espalhar e vai ao encontro de seus irmãos em Winterfell. Enquanto a ideia do reencontro dos Stark é tentadora, o conflito entre Cersei e Arya pode ser uma reviravolta irresistível.

Boletim médico de Jon Snow

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Rei do Norte! Rei do Norte! Rei do Norte!

Ainda que o orgulho de Jon ao aceitar o trono de Winterfell seja compreensível (principalmente depois daquele discurso de Lady Mormont), ele está de novo aceitando um posto porque outras pessoas queriam que ele o fizesse. Jon tem experiência de liderança e alguma noção tática (questionável), mas o que é mais marcante nesse momento é que ele ainda não se recuperou da viagem que fez pelo outro lado. Desde o momento em que ele quase se deixou ser soterrado por seus próprios soldados na batalha contra Ramsay, não houve nenhuma mudança significativa que nos fizesse acreditar que Jon reencontrou a vontade de viver e seu propósito nessa vida. Em vez de questionar Sansa por ter sonegado a informação da aliança com Mindinho, Jon simplesmente pede que eles confiem um no outro. Ele não parece superanimado para ocupar o lugar de Ned, e talvez Sansa fosse a melhor escolha, mas ele vai com a maré até algo dar muito errado ou até ele aprender a gostar de ser rei.

Depois de anos de especulação, a série finalmente provou a famosa teoria dos fãs de que Jon Snow seria filho de Lyanna Stark e Rhaegar Targaryen, o que faz dele sobrinho de Daenerys. Apesar de isso nunca ter sido explorado na tevê com a mesma força das sugestões dos livros, e até exatamente por esse motivo, não fazem questão de explicar muito a questão, nem quem é Rhaegar, que nunca foi introduzido propriamente na história além de pequenos diálogos que notassem sua existência e sua relação com Lyanna.

A confirmação do parentesco de Jon Snow está bem no centro de uma conversa sobre legitimidade. Afinal, quem é o herdeiro legítimo do trono de Westeros? Mas como fica claro nesse final de temporada, já faz tempo que o trono de ferro não é regido pelo direito de sangue, mas pela força. Os seis anos em que assistimos a guerra pelo trono se configurar foram tempos em que, em todos os lados do reino, novas regras estavam sendo criadas para se adequarem aos seus líderes, e não o contrário. Jon e Sansa, Daenerys e Cersei estão em rota de colisão, e nenhum deles com a ideia de que o argumento da legitimidade funcionaria sozinho – não é à toa que Daenerys, a única herdeira do que foi possivelmente o último rei legítimo, precisou juntar gente na água, terra e ar para lutar a seu favor antes de partir em direção a Westeros. Esse jogo não vai ser resolvido nas questões burocráticas dos sobrenomes, mas no sangue. Agora que Daenerys está falando de novo em casamentos políticos, parece que a progressão óbvia da história seria se juntar aos Stark para derrotar Cersei e Jaime* de vez. Considerando o fato de que ela ainda tem um Lannister bem ao seu lado, é quase poético que as três casas possam terminar unidas e em paz.

*Isso é, caso eles não se terminem antes. A julgar pelo olhar de Jaime ao ver Cersei ser coroada por causa da mesma loucura que o levou a matar o Rei Louco, os gritos entre os dois na próxima temporada não vão ser de amor.

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Mas se tem algo certo em Game of Thrones, é que não importa quantas teorias estejam corretas, a série sempre encontra formas de surpreender, e imaginar um arco final tão simples pode ser totalmente inútil. Se pudermos aplicar a mesma estrutura de crescendo que rege as temporadas à série inteira, os dois últimos anos têm tudo para serem como Battle of the Bastards e The Winds of Winter: loucos, agitados e implacáveis. Ah, e muito boa televisão.

Notas:

– O teletransporte de Varys, de Dorne para Meereen em apenas alguns minutos, não incomoda tanto quanto incomodava antes. A série nunca se preocupou minuciosamente com o tempo que as coisas levam – exceto pelo fato geral de que tudo leva muito tempo –, então não é difícil assumir que dias, semanas ou até meses se passaram entre uma cena e outra para que apenas a sucessão dos eventos seja preservada. O que não dava era para encher a série de “três meses depois…”

– Cersei é uma personagem fascinante e quase todas suas ações como vilã podem ser defendidas pelo prisma da construção de um vilão cativante. Mas estupro, ela mesmo tendo sido estuprada, é algo que não pode vir com uma reação diferente de repúdio. A condenação de Septa Unella a uma vida (se é que podemos chamar de vida) de tortura e violência sexual nas mãos do Montanha-Zumbi é um passo na direção contrária de como a série tinha tratado a violência contra mulher nessa sexta temporada – ainda mais quando já estavam tentando consertar o descaso nas temporadas anteriores.

– Ver Tyrion receber de Daenerys o broche de Mão da Rainha foi recompensador em vários níveis. Certamente parte de sua emoção ao se ajoelhar para a Mãe dos Dragões foi fruto de um reconhecimento que ele sempre almejou do pai e nunca conseguiu, mas, depois de conhecer boa parte de Westeros, Tyrion parece verdadeiramente convencido de que Daenerys é competente e merecedora do posto de Rainha – e Tyrion bebe e sabe das coisas.

– Apesar de não ter aparecido quase nada nessa temporada, Sam terá um papel central nos últimos anos de GoT, porque ele é o único que pode descobrir como vencer a guerra contra os Caminhantes Brancos. Sua emoção ao entrar na biblioteca da Cidadela é tudo que podíamos esperar de alguém tão apaixonado por conhecimento. A majestade do lugar torna a biblioteca um dos interiores mais bonitos mostrados na série até hoje, digna de todos os milhares de anos de sabedoria acumulados em Westeros.

– Em uma série na qual a maioria dos personagens morre assim que se torna desnecessário, tanto Melisandre quanto Daario Naharis tiveram finais de sorte – e possivelmente serão trazidos de volta em algum momento. Melisandre pode encontrar com Arya (ela prometeu revê-la) ou com a Irmandade sem Bandeira enquanto viaja para o sul, e se Daario vai seguir as orientações de Daenerys ou ir atrás de algo mais ainda é um mistério, mas de qualquer forma não pareceu um final definitivo.

– David Benioff e D. B. Weiss já disseram que querem terminar de contar essa história em duas temporadas mais curtas, mas dado a recente notícia de que a HBO voltou atrás e cancelou Vynil, não seria surpreendente que os chefões do canal pressionassem os produtores para que Game of Thrones dure mais – pelo menos os 10 episódios por ano –, ou para que um spinoff fosse desenvolvido logo.

E vocês, o que acharam do finale? Comentem aí embaixo!

PS: Uma versão desse artigo foi publicada no Séries do Momento.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Carolinna Barreto

    Gosto muito da maneira como você escreve linda xará