Review: Alice Braga brilha, mas ‘Queen of the South’ não é (ainda) o novo ‘Breaking Bad’ A premissa é fascinante, mas se perde em uma narrativa batida.

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Comentários sobre o series première de Queen of the South porque eu fui pobre e eu fui rica, e rica é melhor…

Na era do “tem tevê demais”, um piloto morno pode fazer com que as pessoas nunca mais voltem para o que depois se torna uma boa série, porque também é a era das necessárias boas primeiras impressões. Por causa disso os pilotos têm ficado cada vez mais agitados, a ponto de as vezes serem agitados demais. A estreia de Queen of the South, o novo drama do canal USA (que despontou ano passado com Mr. Robot) consegue estabelecer um tom, mas é improvável que consiga mantê-lo durante os próximos 12 episódios.

Inspirado no romance La Reina del Sur, do espanhol Arturo Pérez-Reverte, e na telenovela de mesmo nome, a adaptação americanizada* conta a história da ascensão de Tereza Mendoza (Alice Braga), uma prostituta mexicana que se apaixona pelo capeta em forma de guri, o traficante El Güero (Jon-Michael Ecker), e depois de sua morte, se torna uma das forças mais poderosas do tráfico de drogas no continente.

*A novela La Reina del Sur era uma produção americana do canal Telemundo (divisão da NBC em espanhol) que se passava na Espanha. Nessa nova versão, a história de Teresa é ambientada em Dallas, Texas, provavelmente para contornar a barreira bilíngue e para aproveitar a conjuntura política da fronteira entre México e Estados Unidos.

O piloto não foge da ação, Teresa vivencia todo tipo de horror nos primeiros quarenta minutos em que a conhecemos, inclusive seu assassinato, que a primeira cena do episódio já apresenta como os limites da história que vamos ver. Explosões, acidentes, sequestros, fugas, não há nenhum risco na vida de um traficante que Teresa não conheça antes de decidir se tornar uma. Supostamente, isso tudo a torna “uma mulher mais forte”, mas não há tempo o suficiente de reflexão para que a personagem canalize essas experiências em forma de um desejo promissor, seja de vingança, de provação ou de sucesso. Tudo isso funciona como incentivo para que ela se torne a rainha das drogas, mas não há nada que explique como ela resiste a possibilidade de simplesmente se afastar de tudo aquilo.

As referências não são poucas, e nem são sutis. A fotografia e a produção têm tudo a ver com Weeds e Breaking Bad, e as situações parecem todas saídas dos dramas criminais mais famosos do cinema, como Scarface, O Poderoso Chefão ou os Bons Companheiros. Logo após se acostumar com o luxo que comércio ilegal traz para a vida de Teresa e Güero, ela é vista em uma banheira espumando, bebendo tequila e assistindo Tony Montana explodir seus inimigos. A visão de Teresa do mundo do crime parece realmente influenciada por todas essas obras de ficção, existe uma glória na profissão que ultrapassa seus perigos, e é maior até do que a glória política almejada por um dos chefes do tráfico local e mentor de Güero, Don Epifanio (Joaquim de Almeida).

Logo no início, a série faz uma escolha controversa. Diferentemente de sua parceira de canal, Mr. Robot, que usa um narrador não confiável para aumentar a intriga pela história, Queen of the South segue os passos de Narcos e aposta em uma narração descritiva, bem na cara, que se recusa a deixar que o público interprete sozinho a transição do presente para o futuro que as imagens sugerem. Ao tomar uma decisão drástica, Teresa diz “Quando você acha que sua vida acabou e que você chegou ao fundo do poço, tem gente que diz que vê Jesus ou a Virgem Maria. Mas eu? Eu vi a mim mesma”. Ainda que o off dê personalidade a algumas das cenas chaves de Teresa, Queen of the South não poderia se passar como ficção científica e a aparição da Teresa do futuro não poderia se passar por um clone, fazendo com que a explicação óbvia tire a força desses momentos, o que é uma pena, já que as visões de Teresa são uma das ideias mais interessantes do episódio. Ao mostrar de onde ela veio e para onde ela está indo, a série consegue despertar uma curiosidade genuína pela jornada que vai levá-la até lá, e isso é amplificado pela escolha estilística de fazer as duas dividirem a mesma cena.

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Alice Braga tem uma presença quase hipnótica em cena. Seu olhar ao mesmo tempo curioso e fascinado por aquela realidade gera uma verdadeira simpatia pela personagem, de forma que mesmo quando veteranos como Joaquim de Almeida e Veronica Falcón – que vive Camila, mulher de Don Epi e possível mentora de Teresa – estão comandando a obra, nós só estamos esperando que Braga reapareça e faça alguma loucura outra vez.

A premissa de Queen of the South é tentadora: passamos 20 anos acompanhando histórias dos Homens Difíceis – para pegar emprestado o título do livro de Brett Martin sobre anti-heróis confusos, politicamente incorretos e multifacetados –, mas só agora começaram a aparecer protagonistas mulheres liderando ambientes de imoralidade e violência dominados pela masculinidade. A conduta de Teresa Mendoza é tão repreensível quanto a de Walter White ou de Don Draper, mas o fato dela ser mulher cria uma camada extra de originalidade (se é que se pode falar em originalidade se tratando se uma adaptação de uma adaptação). Eu não fiquei particularmente interessada por essa história como fiquei interessada por sua personagem principal. Teresa é o centro desse universo, e ela é espetacular, agora só falta fazer as histórias nos arredores se igualarem a seu charme.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.