Festival Varilux: ‘Flórida’ transita entre a comédia e o drama ao tratar da perda da memória Jean Rochefort protagoniza obra do diretor Philippe Le Guay.

Há vários filmes no cinema sobre a perda da memória, talvez, uma das mais cruéis formas de terminar a vida, justamente, por nos tirar o direito de lembrar da nossa trajetória até o momento derradeiro. Em Flórida, novo filme de Philippe Le Guay, Claude Lherminier é um senhor octogenário que precisa lidar, cotidianamente, com os seus esquecimentos cada vez mais agravados pela passagem da idade. No passado, liderava com mão de ferro uma fábrica de papéis cujo comando a filha mais velha, Carole, assumiu após a incapacidade declarada do pai para o trabalho. É na relação delicada e conturbada entre pai e filha que toda a narrativa se alicerça. O cineasta conduz seu longa-metragem com sensibilidade e elegância e, pouco a pouco, vai nos revelando os fatos do passado de seu protagonista, marcado por tragédias indeléveis, que inclui a infância durante a II Guerra Mundial, a perda da segunda esposa de forma abrupta e a morte repentina da filha mais nova, da qual ele vive esperando uma visita que, obviamente, nunca acontecerá.

O filme de Le Guay é de uma leveza incrível, mas carrega como pano de fundo dramas pesadíssimos. Enquanto alguns momentos nos provocam risos – as tentativas de Claude de se livrar das ajudantes contratadas pela filha são hilárias – , outros são de dar um nó dorido na garganta, impossível ficar indiferente. Parte dos bons resultados da produção são provenientes da atuação da dupla de protagonistas. Jean Rochefort interpreta o velho rabugento, implicante, orgulhoso e manipulador de forma adorável e humana. Já Sandrine Kiberlain, que interpretou Simone de Beauvoir em Violette (2013), confere a sua personagem um balanço de sentimentos confusos permeados pela angústia, pelo desespero contido e pelo afeto imenso que sente pelo pai. A cena que mais resume esse embate de atuações, segundo o próprio diretor, durante entrevista no Festival Varilux de Cinema Francês, é o momento em que Carole precisa despir o pai após ele se urinar por inteiro. Reside ali a descoberta de duas pessoas que, ditas familiares, percebem-se estranhas diante da nudez revelada. O desconforto, a desconfiança e o medo travam as relações diante da intimidade inesperada.

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Ao abordar a questão da memória como principal temática de seu trabalho, o cineasta utilizou-se de recursos fílmicos bastante eficientes para conduzir a história que desejava contar. Nesse sentido, destaca-se a belíssima fotografia, que valoriza as paisagens de Avenay – pequena cidade francesa que faz fronteira com a Suíça – e que atribui ao antigo casarão da família, no qual Lherminier reside, ares de grande conforto que, confrontado com os tons frios que as cenas assumem quando ele precisa morar com a filha no pequeno apartamento dela, dá uma ideia de deslocamento e estranheza próprios de quem se encontra em estado amnésico. A montagem também se aproveita muito bem das falhas de memória para construir um enredo que acaba por confundir o espectador, no bom sentido. Durante toda a projeção, ao mesmo tempo em que é mostrada a rotina do personagem, a trama é entrecortada por uma viagem de avião que, ao final, nos faz indagar se ela foi fruto da imaginação ou da realidade do homem. Num filme que fala sobre emoções perdidas, reminiscências do passado e da tentativa de resgate do que se perdeu – ou da manutenção do que ainda resta – é interessante observar que o diretor tenha escolhido elementos cujo o sentido do paladar parece se destacar. Assim, temos o suco de laranja favorito proveniente da Flórida, que reporta à cidade onde a filha falecida residia; a rejeição ao vinho com o qual ele diz estar “brigado”, que lembra o rompimento de uma grande amizade do passado e a ojeriza ao arroz-doce, que remete aos tempos de guerra pela semelhança que ele associou com o vômito de um soldado morto. É quase um exercício proustiano no qual a madeleine (biscoito tradicional francês), levada à boca, acaba por evocar emoções pretéritas.

Logo após a exibição do filme no Brasil, o simpático diretor conversou com o público. Revelou que o longa foi filmado em 8 semanas após uma extensa pré-produção. Admitiu cuidados especiais para não extenuar seu ator principal que tem 85 anos, mas que Rochefort se prontificou a fazer tudo o que ele pedisse, inclusive se colocou a disposição para aparecer nu, caso fosse preciso. Ideia que o diretor, aos risos, disse ter descartado por não ver necessidade para a trama. Em uma de suas falas, revelou que seu primeiro curta-metragem era sobre um garoto que tinha um prego no pé e, mesmo assim, seguia para a escola. Refletindo sobre o longa-metragem, aqui resenhado, pensei que essa história daria uma ótima metáfora para este novo trabalho do cineasta. Assim sendo, o “prego no pé” seria aquela dor – física ou emocional – que todos nós temos que carregar em algum momento de nossas jornadas ou a vida inteira. Porém, mesmo diante do incômodo, precisamos seguir em frente. Em Flórida isso se configuraria na filha que precisa lidar com a doença do pai ao mesmo tempo em que precisa manter os negócios da família, cuidar do filho adolescente e manter a sua vida particular.

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Quem escreveu

Flávio Max
Como crítico de cinema, mantenho o blog "Do Papel ao Movimento" desde 2011. Porém, escrevo sobre filmes desde que descobri a caneta e o papel como minhas armas favoritas no combate à ignorância; a minha e a de quem me lê. Penso a vida através dos filmes, por isso, gosto de longas-metragens que me façam pensar, mas consigo tirar reflexões até de produções muito banais. Afinal, a arte é sempre uma confirmação ou uma cisão das coisas instauradas ao nosso redor. Para mim, “a vida não tem sentido”, quando vou ao cinema “é como voltar ao útero e ver a vida surgindo” e “o maior brinquedo inventado pelo homem é o cérebro”. Lynch, Fellini e Chaplin na minha forma de ver o mundo.