Festival Varilux: ‘Meu Rei’ fala de amor sem cair nos clichês Emmanuelle Bercot e Vincent Cassel estrelam último trabalho da diretora Maïwenn,

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Esqueça o amor romântico. No longa-metragem Meu Rei (Mon Roi), a faceta do amor que mais interessa é a que revela sua complexidade e densidade. O amor como uma das temáticas mais recorrentes no cinema, parece inesgotável em suas possibilidades de exploração, no entanto, é mais fácil assistirmos a filmes que enveredem por clichês da temática do que vermos algo que consiga ir além na proposta da abordagem amorosa entre dois indivíduos. Felizmente, a cineasta Maïwenn Le Besco (Polissia, 2011 e O Baile das Atrizes, 2009) conseguiu, com muita inteligência, construir uma história de amor única e emocional. Para quem não sabe, Maïwenn foi a cantora de ópera de cor azul do filme O Quinto Elemento (1997) de Luc Besson.

Meu Rei conta a história de Tony, uma mulher que acabou rompendo, gravemente, um ligamento do joelho, após um incidente enquanto esquiava nas montanhas, cena que abre os eventos da narrativa. De cara, percebemos que estamos diante de uma pessoa angustiada por um mero detalhe: uma inquietante e profunda respiração da esquiadora. Esta sutil ação ainda deixa implícito que a personagem tinha outras intenções ao se lançar no desfiladeiro. A partir de então, acompanhamos a recuperação dela num centro de terapia intensiva, ao mesmo tempo em que observamos suas recordações da relação amorosa – intensa e conturbada – que viveu com o seu segundo marido, Georgio. Do encontro ao acaso à paixão fulminante, do casamento à gravidez e às brigas, a câmera da diretora leva o espectador a acompanhar esse relacionamento como um verdadeiro voyeur, adentrando os labirínticos caminhos da mente humana quando diante de uma grande paixão. A narrativa do tratamento ortopédico se costura perfeitamente com os flashbacks que vão sendo revelados de forma bastante arguta – um trabalho de montagem impecável que nos faz sentir o peso de 10 anos em pouco mais de 2 horas de projeção.

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Emmanuelle Bercot e Vincent Cassel demonstram uma química explosiva na tela. As inseguranças, as brigas, os desentendimentos, os ciúmes vão sendo revelados em camadas de interpretação que chegam a assustar de tão realistas. Por esta performance, Bercot ganhou o Prix de atuação feminina em Cannes em 2015. A atriz constrói uma personagem de nuances tão complexas que sua angústia acaba transcendendo a tela do cinema. Cassel, não fica atrás, criando um personagem masculino ambíguo, egoísta e humano em proporções muito bem equilibradas. O bom resultado da dupla, além do talento, corresponde a uma ótima direção de atores focada na intimidade do casal que a diretora explora em enquadramentos sem pudores, fixando sua câmera, preferencialmente, na protagonista feminina, como se quisesse investigá-la em seus sentimentos mais profundos. A atuação de Bercot e Cassel é tão visceral que o restante do elenco acaba desaparecendo. Assim, Louis Garrel, que interpreta o irmão da protagonista, torna-se um coadjuvante de luxo, sem nunca ter o personagem aprofundado. Entretanto, é dele os momentos mais divertidos do filme.

Observando atentamente a narrativa, podemos perceber que há diversas sequências que se passam numa piscina, o que nos induz a pensar numa situação análoga a um nascimento, no caso do filme, fica claro o “renascimento” da personagem que sempre surge com os cabelos molhados, em ambientes muito úmidos, os olhos marejados e “reaprendendo a andar”. No tempo da convalescença, ela repassa a vida e descobre a si mesma.  De posse dessas informações, o tratamento de Tony torna-se uma metáfora de sua própria vida. Pela medicina, o joelho é considerado a maior e mais complexa articulação do corpo humano. Assim como o amor, talvez, seja a emoção humana mais difícil de lidar. Portanto, no roteiro, o joelho ganha status de coração. Pode parecer estranho, mas faz muito sentido se entendermos que a dor que a personagem sente na alma materializa-se na dor do ligamento rompido. Sem querer estragar as surpresas, apenas digo que há uma cena proposital, inserida durante os acontecimentos do enredo, que vai fazer você pular da sofá de tanta aflição. Os sentidos denotativos da palavra “articular”, inferindo a ideia de comunicar, pronunciar ou proferir algo, também não podem ser esquecidos. Dessa forma, os personagens surgem como seres que se comunicam, mas não o fazem por completo porque – talvez -, na realidade, não haja comunicação completa entre indivíduos. Sempre há algo a ser dito, e na impossibilidade do dizer, despontam-se os desentendimentos, as brigas e as ofensas, muitas delas resultantes da inabilidade do ser humano de lidar com aquilo que não compreende em si mesmo e no outro. Não é em vão que, depois de anos juntos, Tony conclua não conhecer mais o marido.

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Não há sentimentos fáceis neste quarto trabalho de direção de Maïwenn. É, portanto, com ironia que, longo nos primeiros minutos, quando o casal está se conhecendo numa festa, a música Easy do Son Lux surja com seu refrão repetitivo nos provocando: afinal, o que no amor é fácil? Há que se lembrar que os joelhos dobrados remete a posição de submissão a algo ou alguém, e isso esclarece o título da produção. Ao se colocar tão reverente ao seu objeto de desejo, como se ele fosse um rei, a personagem acaba por anular parte de sua própria vida em nome de um grande amor permeado de ideais românticos. Os caprichos do marido, na maior parte do tempo, conduzem a vida da protagonista. Observe como é ele quem decide ter um filho, sem levar em conta se ela quer ou não enveredar pela maternidade. Abre-se, aqui, uma discussão sobre relacionamentos abusivos, mas a direção escolhe caminhos menos lugares-comuns para abordar o tema, fugindo do maniqueísmo homem canalha versus mulher vítima, ao colocar os dois como parte intrínseca do processo mutuamente.

Amar pode ser um veneno para algumas pessoas. No entanto, não há como aprender a lidar com as emoções humanas sem nunca tê-las experimentado antes. Às vezes, é preciso atirar-se no precipício (a cena literal da abertura não está lá por acaso) para podermos amadurecer, aprender ou entender certas coisas sobre a vida e sobre nós mesmos. “O amor nada é, enquanto novo, honesto e puro. O amor antes da tempestade, não é escolha: é decreto”, diz a personagem feminina em determinado momento da projeção. Meu Rei é um retrato dos relacionamentos contemporâneos cujos indivíduos, sem o alcance do diálogo, acabam amargurados, destroçados e mergulhados em todo tipo de entorpecente, lícito ou não, com o intuito de dar conta das emoções mal resolvidas que, invariavelmente, se desdobram em imensas frustrações. (Maldito amor romântico que gerou neuras para serem trabalhadas num consultório por séculos). Quando amamos, há o medo de falhar, o medo de ser rejeitado, o medo de perder, o medo de não ser amado, o medo da solidão e tudo isso surge nas entrelinhas do longa-metragem. O diálogo do eletrocardiograma do personagem de Cassel que diz que a vida não pode ser uma linha reta, pois isso significaria a morte, é a chave de entendimento de toda a trama deste belíssimo trabalho audiovisual.

Meu Rei poster

Quem escreveu

Flávio Max
Como crítico de cinema, mantenho o blog "Do Papel ao Movimento" desde 2011. Porém, escrevo sobre filmes desde que descobri a caneta e o papel como minhas armas favoritas no combate à ignorância; a minha e a de quem me lê. Penso a vida através dos filmes, por isso, gosto de longas-metragens que me façam pensar, mas consigo tirar reflexões até de produções muito banais. Afinal, a arte é sempre uma confirmação ou uma cisão das coisas instauradas ao nosso redor. Para mim, “a vida não tem sentido”, quando vou ao cinema “é como voltar ao útero e ver a vida surgindo” e “o maior brinquedo inventado pelo homem é o cérebro”. Lynch, Fellini e Chaplin na minha forma de ver o mundo.