Review: O importante é se lembrar do último episódio de ‘Person of Interest’

'return 0' encerra cinco temporadas acreditando na humanidade.

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Comentários sobre o series finale de Person of Interest porque se você puder evacuar o prédio e avisar o FBI eu ficaria muito agradecida…

Quando resolvi assistir a quinta e última temporada de Person of Interest sem nunca ter visto um episódio sequer das temporadas anteriores, definitivamente não assumi a possibilidade de criar uma conexão emocional em apenas 13 episódios com personagens que eu não conhecia e histórias que eu não conhecia que já estavam em seu arco final. Mas talvez porque esses 13 episódios foram realmente uma boa temporada de televisão, ou talvez porque a série terminou justamente defendendo as conexões emocionais, eu já estava sentindo falta de PoI imediatamente depois de ver Shaw e Bear pararem para atender o telefone no series finale return 0, e isso porque eu ainda tenho quatro temporadas pela frente.

Porque a primeira cena que eu vi de Person of Interest foi o monólogo da Máquina em um metrô vazio, a ideia de que o final da série seria apocalíptico já estava não só anunciada mas completamente concebida. Aquela guerra entre forças poderosas seria tão monumental que levaria a humanidade como dano colateral. De alguma forma, a temporada tentou de fato nos preparar para o fim do mundo, e é por isso que o final otimista foi surpreendente. E ainda, se contarmos com a onda recente dos finais atormentados e difíceis, porque “é a vida”, uma série sobre inteligências artificiais que decidem quem vive e quem morre seria uma das primeiras a ter o direito narrativo de fazê-lo, o que torna essa decisão de fechar em tom de vitória ainda mais acertada.

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Ainda que isso seja um clichê de montagem, começar por um suposto final para depois revelar que ainda há coisas além dele, a abertura de return 0 funciona perfeitamente em todos os aspectos. Até mesmo o uso do clichê encontra justificativa na narrativa quando a Máquina não consegue se lembrar do final da mensagem “todo mundo morre sozinho”. Começamos pelo final porque quem está contando a história é a Máquina, e essa é a impressão mais forte que resta para ela do ser humano. Nós ficamos sabendo que aquele não era o fim praticamente ao mesmo tempo que ela, quando as memórias começam a voltar e revelam o verdadeiro significado da mensagem, que não é nada mórbido, como Finch coloca, mas agridoce. Enquanto ouvimos a Máquina morrer, a faixa instrumental que envolve o discurso, Bunsen Burner, cria um paralelo poético com o dono original da trilha, o filme Ex Machina, que faz justamente o contrário e usa a música para marcar o nascimento e a conquista da liberdade por uma IA. Realmente parece que estamos vivendo esses momentos do ponto de vista da Máquina, e é uma façanha que a série tenha conseguido dar personalidade a um supercomputador a ponto de ser possível identificá-la e se identificar com ela.

Com algumas poucas cenas de ação que coroam a destruição da Samaritan, os pontos altos de return 0 foram mesmos os diálogos – nem todos reflexões filosóficas como o discurso da Máquina, mas simples e sinceras declarações de amor que completam os arcos individuais dos personagens. Quando Shaw toca rapidamente nos cabos da Máquina depois que ouve dela que Root a amava por tudo que a fazia ser diferente (e que a forma dela era uma flecha), quando Reese pede a Fusco que não morra e ele responde com “Te amo também”, ou quando Finch tranca Reese no cofre para protegê-lo e depois seu terror ao perceber que Reese vai morrer em seu lugar, e a realização de Reese ao entender que aquele era seu verdadeiro propósito, são momentos assim que fizeram com que a Máquina se tornasse cada vez mais humana, mesmo que isso desse vantagem a Samaritan. É uma novidade quando, no telhado, ela diz para Finch que cometeu erros e pergunta “Mas nós salvamos algumas pessoas, não é?”: é a Máquina precisando de confirmação, um sentimento profundamente humano.

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E é por causa dessa evolução que a reaparição de Amy Acker se encaixa tão naturalmente nas cenas com Finch e Reese. A ideia de que a Máquina teria simplesmente “roubado” a voz e personalidade de Root, como Shaw diz quando visita o cemitério, vai abrindo espaço para um conceito mais perto da fusão do que da apropriação, o que torna a morte de Root ainda mais significativa. Enquanto a Máquina devolveu a Root a crença na humanidade, Root deu humanidade à Máquina. Os pensamentos das duas sobre a morte se completam de forma elegante quando a Máquina se lembra do resto da mensagem, e afinal, apesar de morrermos sozinhos, para sobrevivermos basta que alguém se lembre de nós. Antes de morrer Root diz algo parecido, mas sobre a Máquina conter cópias completas das pessoas que eles amavam. A nova versão é ainda mais poderosa, porque é a própria Máquina dizendo que eles não precisam dela para isso, só deles mesmos.

Enquanto a série completou as jornadas emocionais dos personagens de forma satisfatória no finale, o desenvolvimento de algumas tramas pagou o preço da temporada mais curta*, e várias explicações ficaram pela metade. Não fica muito claro, por exemplo, como a Máquina descobre o esconderijo da bebê Samaritan na Reserva Federal, ou, se ela sabia o tempo todo, porquê eles não se dedicaram a destruí-la antes. Foi interessante que a missão dos silos russos de Root tenha sido amarrada ao míssil no fim, mas ainda não ficamos sabemos como a Samaritan faria uso daqueles planos ou quem estava liderando seus últimos ataques depois da morte de Greer – ela estava agindo por conta própria ao programar o míssil para destruir a antena? – e mais importante, como a Máquina sabia disso. A história de Jeff Blackwell também não foi bem costurada no enredo, porque quando ele é apresentado nos primeiros episódios, e depois é questionado por Root, dá a entender que ele fica em dúvida sobre seu papel como agente Samaritan, mas toma a decisão de abraçá-lo completamente fora da tela. Ainda que dê para entender que seu arco pessoal foi sacrificado em nome de mais tempo para os heróis, o desfecho do personagem não corresponde às expectativas criadas pelas cenas iniciais.

*Nunca vou defender plenamente temporadas de 22 episódios, mas entendo a possibilidade de uma série se perder um pouco na transição de 22 para 13 episódios. Temporadas curtas exigem uma precisão da narrativa que não suporta o tanto de casos da semana que tivemos. Enquanto não podemos desconsiderá-los totalmente, principalmente porque a maioria deles foi bem contada, ficou claro que os últimos três episódios foram apressados por causa dessa escolha.

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Talvez o que Blackwell fez de melhor nesse episódio foi servir como uma prova de que Shaw não mudou completamente. É fácil criar situações que redimam os personagens por erros do passado, é mais difícil manter a ideia de que as vezes pessoas que não querem se redimir de tudo ainda podem ser personagens fantásticos e queridos. A necessidade de Shaw de vingar a morte de Root – e em menor parte, a tentativa de assassinato de Fusco – foi completamente válida e de acordo com o a personalidade que ela demonstrou ter até então. O fato de ter sido ela a escolhida para continuar o trabalho do Time Máquina cria mais um tanto das simbologias que tornaram esse finale tão intrigante. De certa forma, Shaw e Root tiveram seu “felizes para sempre”. De um jeito novo, esquisito e distorcido, mas, a seu próprio modo, bem gratificante. Não é dizer que Shaw se apaixona pela Máquina, em uma virada estilo Ela, de Spike Jonze (apesar de que é, um pouco), mas o fato de que não é difícil fazer essa conexão quando é praticamente Root que está ali, só que em uma forma diferente, e com 99,6% de precisão (Shaw inclusive se confunde quando pergunta sobre Blackwell se “foi ele que te matou?”, e só depois corrige para “foi ele que matou ela?”).

Em homenagem a mais uma música imortalizada pela ficção científica (em um momento importante de Battlestar Galactica), Metamorphosis One, do compositor Philip Glass, faz da morte de Reese um espetáculo, uma mistura de tragédia e altruísmo que dá peso a escolha de morrer por um amigo, por uma causa – assim como seu pai –, mas também como um herói desconhecido, senão pelas três pessoas que vão carregar suas memórias.

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A maioria das cenas em return 0 não carregam essa natureza espetacular, mas assim como a música destaca a morte de Reese, o silêncio destaca o último grande momento entre Finch e a Samaritan, quando ela fala com ele no meio da Time Square. Grande parte das pessoas parece não entender a imensidão do que está acontecendo, e fazer a Samaritan implorar por sua vida é quase cruel. O diálogo também cria um dilema fascinante, porque Finch assume que está tomando uma decisão que ele teoricamente não tem direito de tomar em nome de toda a humanidade, mas é como se ele precisasse ser autoritário por um instante para poder devolver o livre arbítrio para aquelas pessoas.

Brilhantemente orquestrado por Ramin Djawadi (como todo o episódio, a temporada e possivelmente a série), as últimas cenas, o renascimento da Máquina, o reencontro de Finch e Grace e a ligação para Shaw, são de esperança, e não de desespero. Eles ilustram uma visão de equilíbrio, ou reequilíbrio, que só se torna possível com a destruição da Samaritan. Não há equilíbrio de informação – como provavelmente nunca haverá –, mas, na reunião do governo, parece haver o entendimento de que aquela foi uma experiência que foi longe demais e de que os erros não podem se repetir. O mundo sem a Samaritan não é perfeito, mas é otimista o suficiente para fazer de return 0 uma despedida memorável e até revigorante.

Poderíamos discutir por horas sobre as mensagens filosóficas da série, sobre o que ela tem a dizer sobre o impacto da tecnologia no mundo e sobre os limites dos instrumentos de domínio, mas, apesar de tudo isso ser extremamente fascinante, é mais incrível que, em seus momentos finais, Person of Interest escolheu ser uma série sobre pessoas, sobre pessoas falhas, quebradas e desacreditadas, que encontraram conforto nas conexões emocionais que só podem ser oferecidas por outras pessoas. PoI foi mais do que uma guerra entre inteligências artificiais, foi uma guerra entre seres humanos, e mesmo que você não ligue ou não acredite em computadores com consciência que querem dominar o mundo, ainda é fácil se importar com histórias bem contadas sobre seres humanos – porque não há nada além.

Notas:

– “return 0” é uma função da linguagem C que testa se existem erros na rotina. Zero significa sem erros. Dá para tirar um monte de conclusões sobre o título e apesar de humanos não serem programas com a mínima chance de rodarem sem erro, eu gosto da ideia de que a sociedade que funciona como o programado, a sociedade ideal, é a sociedade livre.

– Não sei se isso deveria ser tomado como ambiguidade, mas o fato do túmulo de Root estar vazio desperta várias teorias da conspiração (mesmo que ela estivesse viva, isso não significa que deveriam fazer um spinoff ou tentar um reboot em alguns anos. Não deviam. Histórias precisam de início meio e fim).

– Muitas palmas para os seres da internet que previram que o trem do metrô ia finalmente sair do lugar no final. Aparentemente, dá para ouvir o barulho do vagão chegando cada vez mais perto nas aberturas dessa temporada.

– Shaw estava usando a jaqueta de Root ali no fim, certo? Esse é o tipo de detalhe que dá força para uma história.

– Em alguns momentos da reprodução do monólogo da Máquina pelo gravador, dá para perceber o tom de voz de Root mudando. De fato, a sequência foi gravada duas vezes, uma para uma publicidade, e uma para a temporada, e eu fico feliz que em algum momento entre as duas coisas alguém decidiu que Amy Acker devia abandonar a voz mecanizada e fazer a Máquina realmente soar como Root, já que isso acrescentou um monte na camada de emoção do final das duas.

– Estranho que a Máquina não tenha contado para Shaw que Reese tinha morrido e Finch sobrevivido. Ou, se aquele sorriso esperto dela na cena do café significa que na verdade a Máquina tinha contado, estranho que Shaw não queira contar para Fusco. Eles deveriam nunca mais se ver? Estranho.

– Não sei se li direito o último frame do episódio, mas diferentemente de quando Finch finalmente tornou a Máquina um sistema aberto, a imagem só mostrava os CPF’s, mais nenhuma outra informação. Isso quer dizer que a própria Máquina concluiu que um sistema fechado seria mais seguro? Se sim, uau, foi um detalhe sutil que faz toda a diferença.

– Essa é provavelmente a última review que vou escrever de Person of Interest. Muito obrigada a todo mundo que leu, comentou, voltou e cobrou por mais textos. É a conversa que faz esse trabalho valer a pena. Obrigada por terem sido pacientes com meu desconhecimento sobre a série, e obrigada até pelos spoilers. Já estou morrendo de curiosidade pelo episódio If-Then-Else por causa deles.

O que vocês acharam desse final? Comentem aí embaixo!

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