Review: ‘Orphan Black’ encerra a temporada com uma pequena ponta de esperança 'From Dancing Mice to Psychopaths' começa a acertar o fim da série.

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Comentários sobre o season finale de Orphan Black porque mesmo que você consiga passar um pente naquele cabelo, ela é um sete em um bom dia e me disseram que eu sou um dez…

Semana passada eu comentei como o season finale, From Dancing Mice to Psychopaths, provavelmente teria que correr com algumas tramas para tratar de tudo que foi deixado em aberto em The Mitigation of Competition. E de fato, terminamos a quarta temporada de Orphan Black com mais perguntas do que respostas, mas, não surpreendentemente (já que o quinto ano será o último), mais perto da solução do que nunca.

A cena de abertura, um flashback para a cena do final da terceira temporada quando Delphine toma um tiro foi uma incrível rima narrativa não só porque exatamente uma temporada depois finalmente descobrimos o que aconteceu com ela (mais ou menos?), mas também porque a première começou com um flashback de Beth não totalmente esclarecedor, e o finale termina com um nos mesmos moldes. Mas, mesmo apreciando a estrutura, foi bizarro que o atirador fosse Duko, já que não conhecíamos Duko naquela época. Talvez, quando filmaram a cena original, não tinham ainda decidido quem seria o assassino, e talvez sabiam que seria alguém novo, mas nada me leva a pensar que os roteiristas já tinham decidido por Duko. Primeiro porque o tom usado por Delphine para perguntar o que aconteceria com Cosima nos levava a crer que ela conhecia bem a pessoa, enquanto, em termos de história, é simplesmente deselegante apresentar um mistério de assassinato no qual a identidade do assassino não possa ser descoberta, ou pelo menos teorizada, com todas as peças disponíveis até o momento.

Outras decisões também pareceram apressadas. Estamos há quatro temporadas vivenciando as pesquisas de Cosima e Scott, e em apenas uma semana no laboratório de Susan e uma ideia (de fertilizar os óvulos de Sarah com o esperma incestuoso de Ira), A Cura foi encontrada. Estava mais do que na hora, mas depois de terem queimado todo o material genético do original, precisava ser mais difícil para que a morte de Kendall não fosse em vão. E com essa solução, a larva robô que Cosima roubou da sala de Evie Cho serviu só como uma distração. Eu gosto de distrações quando são feitas de maneira cuidadosa, mas o desfecho precisa ser grandioso para que valha a pena enganar o espectador. Senão fica parecendo só um roteiro confuso que não sabe para onde ir, como foi com a revelação sobre Delphine e Duko.

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Obviamente os pontos altos do episódio se dividiram entre os momentos românticos entre Cosima e Delphine (já chegaremos lá) e as interações de Tatiana Maslany com ela mesma. O talento de Maslany é tão inacreditável que toda vez que a vejo atuando consigo mesma, esqueço que é a mesma atriz, tão distintas são as personalidades, os maneirismos e as posturas de cada clone. O encontro entre Sarah e Krystal foi alívio cômico ao mesmo tempo que forneceu informações importantes para os próximos passos da série. Agora que Krystal foi oficialmente introduzida ao Clube do Clone (“Sou Sarah, seu clone”. “Tá, tanto faz”.), ela deve aparecer mais na última temporada, além de fornecer algum insight sobre a complicada hierarquia da Neolução – Evie Cho < Dr. Ian Van Lear < Susan < Rachel?

Mas foi a briga entre Sarah e Rachel que realmente tomou as rédeas do episódio. Não era difícil imaginar que Rachel iria trair as seestras outra vez, porque ela é a grande vilã de Orphan Black. No fim, a guerra não será entre clones e corporações, mas entre clones. Quando Rachel vai à reunião da diretoria (“Sempre tem uma maldita diretoria”), é um tanto irônico vê-la falar de outros clones como se eles fossem objetos de pesquisa diferente dela, mas também é a história da humanidade – somos todos iguais, mas alguns se acham melhores. Rachel vai lutar até o fim para mostrar que é diferente, senão no DNA, na inteligência, na criação. É por isso que também foi estranho ouvir Susan dizer “Para cada Sarah, cada Cosima, eu me arrependo de ter feito você”. A série é uma grande fã da teoria de Karl Marx, de que “o homem é produto do meio”, porque se todas as clones são cópia genéticas idênticas, a única coisa que poderia fazê-las tão diferentes é o meio. E se Susan era responsável por Rachel, não faz muito sentido ela se livrar de sua parcela de culpa pelo que Rachel se tornou. E também, aquela foi uma coisa horrível de se dizer para uma filha e pronto.

Finalmente tivemos a reunião tão esperada entre Cosima e Delphine e provavelmente foi o momento mais satisfatório do episódio. A começar pelo instante exato do reencontro das duas, que tem planos embaçados pela fraqueza de Cosima, em referência à alucinação que ela teve com Delphine na última vez que esteve à beira da morte. Podemos admitir que foi puro fan service que Delphine tivesse uma desculpa para tirar a roupa 30 segundos depois que elas se encontraram, mas foi lindo que, no fim, tudo que Cosima precisava era de um corpo quente ao seu lado, e a alternância entre a lentidão de Cosima, quase em primeira pessoa, e a loucura dos médicos do lado de fora criou uma dinâmica empolgante na cena. A forma como ela diz emenda um “Terminei nosso dever de casa” logo depois de dizer que está morrendo nos lembra que a dupla funcionava tão bem porque além de par romântico, elas dividiam algo único quanto ao entendimento daquela ciência. E é bom saber que Delphine não sofreu lavagem cerebral pelos Neos, porque o fato de elas estarem presas na Ilha do Doutor Moreau com o verdadeiro criador da Neolução é cientificamente fascinante e arriscado quase na mesma medida.

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From Dancing Mice to Psychopaths termina em estado de alerta para quase todos os personagens. Enquanto Kira e Ms. S. estão sob a mira da arma de Ferdinand (esse cara nunca desiste!), Sarah está abandonada e impossibilitada de se mover, Cosima e Delphine estão tecnicamente sendo mantidas em cativeiro por desconhecidos que dominam várias tecnologias malucas (aquela coisa do cisne é terrível), e Susan está sozinha em casa sofrendo uma hemorragia. Mas, apesar de tudo, temos uma cura e com ela vem um pouco de esperança de que as coisas finalmente comecem a se acertar na reta final. Mesmo com falhas pontuais, essa quarta temporada de Orphan Black sustentou novidades na narrativa e foi guiada pela ousadia. Vai ser triste dar adeus para a série, mas estou curiosa para ver se chegaremos ao final com a mesma qualidade desse ano.

E deem logo um Emmy para a menina!

Notas:

– Não tenho certeza se Susan vai sobreviver ou não. Por ter sido uma vilã em potencial por tanto tempo, e depois revertido as expectativas sem no entanto ter se tornado mocinha, tenho sentimentos mistos sobre sua presença, mas eles não são o suficiente para que sua cena final funcionasse como um cliffhanger emocionante. Mas não vejo porque Rachel teria feito um curativo caso não quisesse que ela vivesse.

– Tanto show de Rachel, Sarah e Cosima custou caro para Helena e Alison, que não tiveram a melhor temporada, apesar de bons momentos. Espero que tragam elas (e Donnie, e Felix) de volta para o fim, porque a série não seria a mesma sem eles.

– O verdadeiro cliffhanger dessa temporada (já que não há nenhuma chance de Sarah ou Cosima morrerem) é a identidade do Dr. Westmorland. Para não repetir o anticlímax de Duko, acredito que já o conhecemos. Isso significa que ou ele descobriu o segredo da longevidade (vale tudo a esse ponto?) ou, uma solução mais possível, sua existência tem algo a ver com clonagem. Se fosse para arriscar, eu diria que o tal “mensageiro” é uma boa opção. E porque ele fala dele mesmo na terceira pessoa e não se revela? Já viram aquele reality show, Chefe Espião, no qual o chefe se disfarça de funcionário para ver por dentro o funcionamento de seu negócio?

– Para onde foi a pobre Charlotte? Depois que ela e Cosima foram resgatadas, não ouvimos mais falar da garotinha. Tomara que não estejam usando ela de rato de laboratório outra vez.

– A morte de Evie foi ao mesmo tempo uma homenagem e um clichê da ficção científica, no qual os criadores quase sempre morrem pelas mãos de suas criaturas. Karma is a bitch.

– Só mais um exemplo do talento infinito de Tatiana Maslany: acho que todos sabiam, mesmo que só no subconsciente, que aquela era Sarah vestida de Krystal. Porque a mulher consegue distinguir entre uma personagem e outra personagem imitando a primeira personagem. O QUE É ISSO, MINHA GENTE?

– O título desse episódio é um dos meus preferidos dessa temporada. É uma referência a um trecho de um artigo escrito pela professora de Ciborgologia (sim, isso existe), Donna Haraway. Ela escreve sobre Robert Yerkes (1876-1956), um psicólogo, primatologista e admirador da eugenia: “Suas investigações sobre a psicobiologia sexual e mental incluíam a criação de testes para todos os aspectos das funções mentais nos organismos, variando de dáfnia e ratos dançantes a psicopatas, soldados e administradores corporativos”. Rico, não?

E vocês, o que acharam do episódio? Comentem aí embaixo e até a próxima temporada!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Henrique92

    Tomara que a Krystal apareça mais na quinta temporada, deu mais leveza e comédia pra série que ja tem tanta cena de ação (que eu adoro tbm)…

  • Elis

    Krystal é tão maravilhosinha né? Hahahaha, amei as cenas de Cosima com Delphine e fiquei sofrendo horrores pela Sarah, logo ela que sempre ajudou e tentou resolver esse mistério entre ela e as sestras 🙁
    Senti falta de mais cenas com Kira, e o pai dela hein? Sumiu?

    • Marcelle Machado

      Tá em Game of Thrones pegando a Danny