Review: ‘Game of Thrones’ finalmente superou as expectativas? Jon Snow e Ramsay Bolton protagonizaram um verdadeiro espetáculo em 'Battle of the Bastards'.

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Desde que Jon Snow foi ressuscitado, finalizando o mistério do fim da quinta temporada de Game of Thrones, nenhum evento foi mais aguardado pelos fãs da série do que a guerra entre Jon e Ramsay Bolton. E depois de uma sequência de episódios mais calmos, erroneamente categorizados como “fracos”, Battle of the Bastards tinha o importante papel de devolver à série o título de espetáculo, de transformar o enfrentamento final dos Stark contra Bolton em um show épico, que garantisse a mistura de violência e imensidão que deu a todas as outras batalhas já mostradas em Game of Thrones os ares de evento da noite, da temporada, e até mesmo do ano.

Diferente de todos os outros episódios dessa temporada, Battle of the Bastards se dividiu apenas em dois núcleos, Winterfell e Meereen, o que deu tempo suficiente à narrativa para se desenvolver de forma coerente nas duas pontas, apesar de deixar para o season finale a difícil tarefa de costurar todas as outras tramas. A direção de Miguel Sapochnik, responsável pela extraordinária investida dos White Walker em Hardhome, nos deu as belas imagens e movimentos cinematográficos que vez ou outra fazem jus ao slogan esnobe “não é televisão, é HBO”. E mesmo se nem tudo atingiu a perfeição, os efeitos visuais de cair o queixo, os diálogos enxutos e os momentos emocionais garantem para Battle of the Bastards um lugar de honra na História da tevê.

Boletim médico de Jon Snow

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Pisoteado, mas vivo.

Enquanto era Lorde Comandante da Patrulha da Noite, Jon Snow foi um bom e fiel líder, mas desde que morreu por seus companheiros, “não viu nada” e foi trazido de volta à vida, sua confiança e vontade de liderar ficaram profundamente abaladas. Jon não quer ser Protetor do Norte e nem chefe de um exército, e todas suas ações na batalha foram guiadas por falta de escolha ou por motivos pessoais.

Foi bizarro vê-lo cair na armadilha que Ramsay construiu com Rickon depois de Sansa tê-lo avisado que ele tentaria fazer exatamente algo do tipo. Foi bizarro vê-lo sendo pisoteado, sem ar*, no meio de todos os outros soldados. Foi bizarro vê-lo dar férias a sua “honra” e encher Ramsay de porrada, depois de uma caminhada magnífica até ele atrás de um escudo. O modo como Jon agiu durante toda a batalha foi bizarro, mas o mais importante, e uma grande realização do roteiro, é que ele não saiu do personagem para ser um herói. Jon Snow não é mais um líder e não foi mudado por essa guerra. Ele já tinha sido mudado antes de entrar nela, e lá era apenas mais um soldado. Um soldado muito bom na espada, mas só mais um soldado.

*A conversa entre Jon e Melisandre antes do combate foi interessante para sabermos o que ele pensava sobre sua mortalidade e sobre ser o suposto escolhido, mas falhou em nos fazer acreditar que haviam riscos para ele. Se a série o matasse outra vez, seria um movimento bem estúpido, além de demorado. Os vários momentos em que ele parece estar perto de morrer na batalha foram em geral ótimas cenas: tensas, angustiantes e bem filmadas. Mas foram também completamente livres de perigo.  

O momento mais mágico

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Para uma série com tantos elementos mágicos e sobrenaturais, até que os repetidos momentos de deus ex machina não incomodam tanto quanto deveriam. O exército do Vale chegar exatamente na hora em que tudo estava perdido para os Stark e seus aliados foi um dos mais inacreditáveis, não só pelo timing, mas porque as ações de Sansa que precederam aquele instante foram igualmente inacreditáveis. Sua recusa em contar para Jon que aquilo era pelo menos uma possibilidade foi uma de suas decisões mais burras, algo que remete a Sansa imatura de algumas temporadas atrás, e não a uma futura Rainha em pleno controle de seus poderes. Se ela tivesse mencionado esse pequeno detalhe no Conselho de Guerra, Jon e Davos teriam armado estratégias bem diferentes das que os fizeram serem encurralados pelo exército Bolton em um movimento pinça como eles mesmos previram. Sansa foi esperta em pedir ajuda e em se impor para Jon ao afirmar que ela conhecia a cabeça sádica de Ramsay como nenhum deles, mas seja lá o que fez com que ela não contasse – orgulho? Medo? Vontade de ser reconhecida como salvadora? – colocou a vida de seu irmão e seu exército em risco, um péssimo início para seu reinado.

Contagem de corpos: infinitos

É inútil tentar quantificar as mortes desse episódio, mas preciso reconhecer que o ataque do Verme Cinzento aos dois mestres foi um dos movimentos de punhal mais elegantes de toda a série. Aliás, toda a guerra aos mestres de Meereen foi extremamente elegante, incluindo o modo como foi filmada, com planos pelo ponto de vista das bolas de fogo e as imagens aéreas que justificam os milhões de dólares gastos em efeitos especiais. A cavalaria Dothraki atacando os Filhos da Harpia, os escravos dos mestres fugindo e, claro, os dragões colocando fogo nos navios foi exatamente o que estávamos esperando de Daenerys desde o começo da série: que ela usasse a vantagem de ser Mãe dos Dragões não só para conseguir respeito através do medo, mas para defender seu povo e seu reinado, e para planejar seus próximos passos. Sua aliança com Tyrion é poderosa – ele tende a controlar suas tendências piromaníacas –, e o acordo com Yara Greyjoy foi sábio e estratégico (além de sexy pra caramba), o que me faz acreditar pela primeira vez que ela tenha alguma chance de ser reconhecida pela competência, e não só pelos dragões.

Se havia um verdadeiro mistério nesse episódio era como a morte chegaria para Ramsay. E ser devorado pelos seus próprios cachorros, que estavam famintos há sete dias, esperando para ter Jon Snow e sua trupe de jantar, foi uma morte cármica, foi justiça poética, foi um alívio. A performance de Iwan Rheon deu nuances a Ramsay que o tornaram facilmente o melhor vilão da série até então, muito mais do que Joffrey, que apesar de também ser um psicopata sádico, era infantil demais para receber o respeito que Ramsay mereceu como antagonista. Por ser um dos únicos personagens 100% maus, a morte do bastardo – que há não muito tempo também carregava o sobrenome Snow – foi um momento catártico, e o diálogo que a precedeu foi uma das melhores trocas de palavras já ditas em Game of Thrones.

Ainda que tenha sido prazeroso ouvir Sansa dizer que qualquer rastro de Ramsay na Terra iria desaparecer por completo, o que ele diz imediatamente antes, “Você não pode me matar, eu sou parte de você agora”, é tragicamente verdade, porque Sansa nunca será capaz de esquecer o rosto de seu estuprador. Essa afirmação é forte, porque explicita que mesmo que seja feita justiça, as pessoas ficam marcadas para sempre pela violência cometida contra elas. O fato de que o próprio Ramsay reconhece isso diante da negação de Sansa foi talvez a primeira vez que Game of Thrones deu a um estupro a dimensão do que ele realmente representa – não só a dor eterna da vítima, mas também o controle desumano sobre outra mente cobiçado pelo estuprador.

A faca pelas costas & a melhor fala

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Meus cães nunca vão me machucar. Eles são bestas leais”.
– Ramsay

Risos.

Notas:

– Mesmo o acampamento dos Stark sendo próximo do lugar onde foi o acampamento de Stannis, era altamente improvável que Davos encontrasse o exato local onde Shireen foi queimada. Mas o momento serviu bem para que ele percebesse que a morte da garota não foi uma casualidade normal das guerras, e o olhar dele para Melisandre ao final pareceu uma sentença de morte.

– Tão poucos personagens que estavam no início da série sobreviveram até agora que é legal quando dois deles se encontram novamente depois de passarem temporadas inteiras separados por meio mundo. Que Tyrion ainda lembre que Theon fez piadas sobre sua altura é mais do que legal, é poético. Adivinha quem vai rir por último.

– O sorrisinho de Sansa ao final soou mais psicopata do que deveria. Entendo que ela ficasse aliviada com a morte de Ramsay, mas não satisfeita ao ouvir alguém ser devorado por cachorros famintos. Ela é melhor que isso.

RIP Wun Wun.

– Todas as referências à Senhor dos Anéis nas cenas da batalha foram devidamente percebidas, internalizadas e aplaudidas.

– Tyrion não contou a história do real motivo pelo qual Jaime matou o Rei Louco só para dar um exemplo a Daenerys. Vem fogo-vivo por aí.

E vocês, o que acharam do episódio? Comentam aí embaixo!

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Lee Santos

    A melhor crítica sobre o episódio em questão de GOT que eu já li. Parabéns pela analise. Só discordo da opinião da autora sobre o fato de Sansa não ter avisado J. Snow. Creio que certamente, se sob o comando dele, o exército salvador também teria sido encurradado no matadouro de Ramsay juntamente com os outros.Enfim se ela o fizesse, creio que a merda seria federal, e não estava tão claro assim que o Mindinho apareceria, e mais, trata-se de um personagem no mínimo dúbio, que já deu prova de grandes canalhices em alguns dos momentos mais decisivos e criciais de GOT.

  • Nando Peres

    Melhor review do episódio