Review: ‘The Americans’ encerra a temporada com passagens compradas para a Mãe-Rússia Quem vai e quem fica em 'Persona Non Grata'?

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Comentários sobre o season finale de The Americans porque você aceita uma Coca…?

Semana passada eu mencionei como The Americans mantém uma relação especial com finais, não cedendo para cliffhangers tradicionais. O season finale, Persona Non Grata, é um exemplo disso tanto no desenvolvimento do episódio como um todo quanto em sua última cena. Por um lado, vários arcos concluem de forma brutal, e por outro, a família Jennings sai relativamente ilesa de uma temporada carregada de mortes cruéis e traumas psicológicos: não fica mais otimista do que isso se tratando de The Americans.

Diferentemente dos outros finales, Persona Non Grata recolhe Philip e Elizabeth para dar espaço a outros personagens, e com isso cria máximo impacto nas cenas em que eles aparecem. Paige pedindo Elizabeth para ensiná-la defesa pessoal é ao mesmo tempo uma ligação extraordinária entre mãe e filha e completamente aterrorizante. É a resposta final de Paige aos acontecimentos de Dinner for Seven, e sua recente admiração pelo trabalho dos pais flerta com a perda da inocência de forma violenta – algo que Philip avisou Elizabeth que poderia acontecer quando ela resolveu contar a verdade para a filha.

Sabemos que Paige já gostava de Matthew antes de descobrir que ele era útil, mas são justamente os sentimentos conflitantes que empurram a missão para a frente. Aquela mão sob a blusa – algo que a Paige pré-meus-pais-são-espiões-russos não aceitaria tão tranquilamente – é um aceno para o “tal mãe, tal filha”, ainda que ela não tenha total consciência disso, já que a KGB era a única agência de inteligência que não só aceitava que seus agentes usassem o sexo como meio oficial de conseguir informações, mas os ensinava a fazê-lo. Está longe de ser um Romeu e Julieta, e se Paige insistir em tratar Matthew como um ativo, a ligação dos dois ainda pode causar mais tragédias do que trazer soluções.

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Claro que a “última missão” de William terminaria em tragédia, mas a ironia dos acontecimentos no finale tornou o arco redondinho, uma grata surpresa. Seu lento e sofrido suicídio foi um ato de coragem ou de covardia? Não dá para dizer que ele impediu o vírus de ser espalhado, já que os Estados Unidos eram os donos originais da amostra. Se ele não tivesse se contaminado, teria sobrevivido a uma sessão de tortura pelo FBI? Conhecemos William já cansado, desacreditado de seu trabalho para a Pátria-Mãe, e seu discurso nos momentos finais foi terrivelmente metafórico. Ele preveniu Philip várias vezes sobre a morte cruel que a febre de Lassa provocava (um outro tipo de tortura, pensando bem), e enquanto William murmurava sobre como a solidão daquele trabalho derreteu seu interior, ele literalmente entregava Elizabeth e Philip para Stan e Aderholt, com uma descrição vaga mas ainda devastadora – “o sonho americano e uma esposa bonita”. A performance de Dylan Baker e a filmagem da cena (que contém um belo plano em primeira pessoa) torna a morte de William uma das mais emblemáticas da série, porque confronta o público com um dos possíveis fins para os que escolhem a profissão escolhida pelos Jennings.

E ao oferecer a possibilidade de deixar o sonho americano para trás, Gabriel coloca um problema que funciona de forma bem anormal para a tevê. Não chega a ser um cliffhanger, porque sabemos que com duas temporadas finais garantidas, a série nunca separaria os Jennings de seu vizinho Stan-Beeman-agente-da-contra-inteligência-do-FBI, mas são os motivos pelos quais Philip e Elizabeth vão decidir ficar, e como a KGB vai reagir a eles, que tornam a história interessante daqui para frente e nos lembram que The Americans faz seu melhor quando está sendo um drama familiar, além de toda a cortina de espionagem. A resposta é explicitada na montagem que segue, quando, ao som de Who by Fire, de Leonard Cohen, vemos Paige no hospital visitando Alice, Pastor Tim e o bebê, admirada e sem a mínima noção de que poderia ser forçada a sair do país, e algumas cenas depois, quando eles chegam em casa e encontram Henry assistindo o Super Bowl – o maior evento televisivo dos Estados Unidos. “Casa” pode significar a Mãe Rússia para Elizabeth e Philip, mas tem um significado bem diferente para Paige e Henry. Mesmo se Philip sente um “embrulho no estômago”, como ele diz na reunião do EST, quando levanta toda manhã para fazer esse trabalho, não há nada que ele não faria pelos filhos, e a decisão de ficar e “ser Americano”, por eles, traz o trabalho junto, o que é tão cruel com Philip quanto uma mudança para Rússia seria com as crianças.

Com a expulsão de Arkady do solo americano e a volta de Oleg, Tatiana pode ser o único rosto conhecido que veremos na próxima temporada, e mesmo ela tem planos de ir embora, e assim a série poderia estar fechando de vez o núcleo da Residentura. Mas com a chegada de Mischa fica garantido pelo menos um personagem que falará russo. A escolha de confirmar que Mischa não era uma invenção de Irina para manipular Philip foi ousada, porque a trama foi estabelecida na primeira temporada e deixada de lado por três anos. A entrada de Mischa na vida da família com certeza vai abalar as coisas, já que o garoto parece também estar desacreditado quanto ao governo, e um segundo de sua presença na casa seria o suficiente para Stan fazer a ligação entre os Jennings e a KGB. Parece que encontros secretos vão ser uma parte importante do próximo ano, já que não faria sentido a série trazer o personagem do outro lado do mundo para mantê-lo afastado do pai.

De certa forma, esse foi um ano de despedidas para The Americans. Demos adeus para Nina, Marta, Gaad, Claudia, William, e possivelmente Arkady, Oleg e Tatiana. Se essa fosse a última temporada – e quase parece que é –, seria uma progressão natural ver os Jennings encerrarem o serviço e voltar para o que 50% deles poderiam chamar de casa. Mas agora que eles vão ficar, um aviso de pai é um jeito banal, ainda que esperto, de terminar esse arco. Na temporada passada, seria fácil ler aquela última cena como um momento de conexão entre Paige e Philip, enquanto Elizabeth era deixada de lado, colocada para assistir de longe. Mas na situação atual, o menor lado daquele triângulo é entre Elizabeth e Philip, de uma forma que talvez nunca tenhamos visto. É um jeito complexo e distorcido de terminar uma temporada de uma série que tantas vezes soa complexa e distorcida. É também a melhor série na tevê, e por enquanto, The Americans mais do que mereceu o direito de nos pedir para distorcer coisas a fim de compreendê-las. Aliás, pode mandar mais.

Notas:

– No meio de Who by Fire tem uma tomada de Arkady olhando, completamente desolado, para a enorme estátua de Lenin que ele mantém em seu escritório. Devastador.

– Esse episódio tem vários diálogos que reforçam o sentimento de solidão. Além do discurso de William, e do desabafo de Philip, é meio triste quando Paige pergunta quantos dias Elizabeth esperou para receber visitas depois de seu nascimento e ela diz que não tinha amigos que fossem visitá-la. Junto com a cena de Arkady, isso dá uma forte tese sobre que tipo de trabalho é ser agente da KGB.

– As duas vezes que vimos William correr nessa temporada foram as duas cenas mais engraçadas de toda a série.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Rafael Rodrigues

    Essa serie é demais, completa, de longe minha preferida.❤❤❤
    Mas sinto que poucas pessoas a conhecem, pelo menos aqui no Brasil, fico feliz em acompanhar desde o piloto.