Review: A violência colorida de ‘Preacher’ seduz até as boas almas

Dominic Cooper, Ruth Negga e Joseph Gilgun estrelam a adaptação dos quadrinhos de Garth Ennis e Steve Dillon.

Comentários sobre a estreia de Preacher porque minha mãe está morta e meu pai está no trabalho, mas eu tenho dez anos e mando aqui…

O perigo com adaptações de obras adoradas ditas inadaptáveis é que, bem antes delas estrearem, passam a existir no imaginário dos fãs, vivendo em um espaço utópico rodeadas por enormes expectativas. Eu não tinha nenhuma para a nova série da AMC baseada em Preacher, um dos quadrinhos do selo Vertigo (DC para adultos?), de Garth Ennis and Steve Dillon. Eu nunca nem tinha ouvido falar de Preacher até sua première no festival SXSW. E eu não pretendia escrever sobre, mas já fazem dias que eu assisti o piloto e algo dele ainda está na minha cabeça: suas cores.

A paleta de cores não é a coisa mais fantástica de Preacher, mas com certeza é importante. Ela colore a imagem de um lugar fascinante para se contar uma história moderna. É um lugar onde a justiça – o estado – ainda não chegou, mesmo que o xerife de Annville, Texas, seja um de seus personagens. O papel de autoridade local é feito pela religião. O deserto amarelo, o céu azul e o vermelho quente de praticamente todos os cenários pintam o quadro do inferno, exceto que se Annville fosse o inferno, não haveria o questionamento moral constante que paira sobre o texto torturado de Jesse Custer (Dominc Cooper, de Agent Carter), o pregador titular que não é muito bom no que faz.

Muito do tom da série pode ser instantemente ligado ao time por trás dela. O sarcasmo e o humor negro do roteiro gritam Evan Goldberg e Seth Rogen, enquanto o visual bebe em Breaking Bad, na qual o produtor Sam Catlin trabalhou. O drama supernatural de horror com ares de comédia de bang bang é obviamente uma mistura e está cheio de referências aos mestres dos gêneros: Tarantino, Clint Eastwood, Kubrick, Irmãos Coen – a estética é tão cruzada que no fim felizmente Preacher ganha vida própria.

A premissa da série é confusa, mas funciona. Começamos com uma montagem bruta, arcaica, parecendo papelão – mas cheia de personalidade. Assistimos enquanto um cometa vem do espaço e cai em algum lugar da África, onde uma criatura estranha que grita como um bebê faz um pastor explodir. A cena se repete na Rússia, e depois nos Estados Unidos com Tom Cruise, que agora é líder da Cientologia. Mas quando o misterioso ser encontra Jesse, o efeito é diferente: as pessoas passam a fazer literalmente o que ele manda, e obviamente isso é receita para tragédias.

Dominic Cooper consegue fazer Jesse ser interessante o suficiente para que valha a pena o seguir como protagonista, mas sua performance é reservada, de forma que ele brilha quando está sozinho, mas dá espaço para os coadjuvantes tomarem a cena nas interações dois a dois. O clã de Jesse é um verdadeiro tesouro, e suas introduções na série mais ainda. Joseph Gilgun (Misfits) se revela como o vampiro irlandês Cassidy, que semi-literalmente cai de paraquedas (sem paraquedas) na história depois de descobrir que está preso em um avião com caçadores de vampiros. A violência da cena da fuga é abafada pela inventividade de seus métodos no que é uma verdadeira página de quadrinhos filmada: corte-corte-corte, onomatopeias auditivas e um vai e vem da câmera que é coroado com um irônico jazz de trilha sonora.

No outro braço de Jesse está Tulip (Ruth Negga, de Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D.), uma ex-namorada que têm uma das entradas mais fodonas de toda a história das personagens femininas na televisão, na qual ela arranca uma orelha a dentadas em um carro em movimento para pegar um mapa e depois recebe a ajuda de duas crianças para construir uma bazuca caseira. Foda! #TeamTulip.

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Boa parte do piloto é gasta estabelecendo a cidade e a relação de seus moradores com a moralidade que a religião impõe à comunidade. Um garotinho pede ajuda a Jesse para dar um jeito no pai, que aparentemente está em uma relação abusiva com a esposa. Em um desfecho surpreendente, descobrimos que a mulher é masoquista, o que não impede que mais tarde Jesse e o pai do menino protagonizem um quebra quebra no bar local que deixa bem claro que o pastor ainda guarda alguns traços da vida criminosa que levava antes de voltar para Annville.

O polêmico Arseface aparece como um simpático adolescente duvidando da existência de um deus. Em um diálogo eficiente, Eugene, que é filho do xerife e teve o rosto desfigurado por ter atirado em si mesmo com uma espingarda, diz para Jesse: “Eu costumava rezar para ele, e eu ouvia ele responder. Agora é só silêncio”. A conexão dos dois não acontece porque Jesse é capaz de dar algum conforto ao garoto, mas porque ele mesmo carrega a incerteza da sua recente profissão.

A estreia de Preacher foge dos esclarecimentos. O episódio não se preocupa em criar arcos com explicações de como aqueles personagens chegaram ali, mas a ideia geral é intrigante a ponto de despertar essa curiosidade. Também não fica óbvio se estamos lidando com a tradicional briga entre mocinhos e vilões ou se é um caso de pessoas más contra outras ainda mais más. Jesse, Tulip e Cassidy com certeza não são inocentes, mas suas motivações ainda têm que se provar válidas ou não. Dividindo uma cela de cadeia, Cassidy sugere à Jesse o questionamento principal de Preacher: sem fé – e é curioso que ele use “fé” em vez de ”religião” – o planeta seria um lugar melhor. Isso também parece ser o que a criatura mística defende, até que ela conhece Jesse. Se um ser cósmico ficou curioso sobre o que Jesse tem de especial, como eu, mero ser humano, escaparia?

E vocês? Respondam a enquete e comentem ali embaixo!

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