Review: A escolha não é de Sofia em ‘Grey’s Anatomy’

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Comentários sobre Grey’s Anatomy de ontem à noite porque o bar estava guardando o placar da noite de trivia…

Grey’s Anatomy não é uma série que costuma se arriscar visualmente e nem se destacar pela beleza visual. É uma série cheia de gente bonita, mas quando falamos da fotografia, suas cenas são simples, limpas, mais preocupadas em desenvolver a narrativa pelo diálogo do que pela estética. E isso não é um problema: Grey’s anda muito bem obrigado independente disso, o melodrama não precisa de pirotecnias para construir sua trama.

Mas… Mas… Mas essas são as séries que mais se beneficiam de momentos como os do episódio de dia das mães, Mama Tried, porque as novidades sobressaem imediatamente ao que veio antes, e aumentam a expectativa para o que virá depois. Eu fiquei chocada, um misto entre maravilhada e incrédula, com as cenas da briga jurídica entre Callie e Arizona pela custódia de Sofia. O texto está repleto de simbolismos: o que significa ser mulher, mãe, mãe solteira, trabalhadora, gay, e a insuficiência dessas definições; mas a forma como tudo está amarrado por uma brilhante, senão perfeita, representação visual dessas coisas é que me surpreendeu.

Kevin McKidd, que interpreta Owen e dirigiu o episódio, traz para Grey’s Anatomy o refino de American Crime Story: The People v. O.J. Simpson. À primeira vista parece uma comparação estranha, mas os movimentos de câmera das sequências no tribunal parecem saídos diretamente de uma das melhores séries do ano, no melhor estilo Ryan Murphy.

Bem no início*, temos um rápido – mas mesmo assim – plano sequência que começa na mesa da juíza, fecha em Arizona e se vira para Callie, como se a própria câmera se recusasse a separar as duas por um corte, porque isso significaria que não há chance para a pequena Sofia. Logo em seguida temos em uma tomada aérea da juíza, que gira 90 graus para dar um close na batida do martelo, rimando com uma piscada de Meredith que puxa a mudança de foco para Callie. É tudo muito barulhento e grande, mas ao mesmo tempo a câmera procura por detalhes, assim como a experiência em si é barulhenta e grande, mas a estratégia das advogadas é justamente focar nos detalhes.

*Se você tiver chance, volte ao episódio e assista à sequência outra vez. É fantástica, e vai valer a pena.

Faz sentido que qualquer um que queira fazer um bom drama de tribunal busque referências em ACS, e Mama Tried faz o que pode para sê-lo. A direção de McKidd é sofisticada de uma forma que nem Grey’s Anatomy e nem a maioria da programação da tevê aberta tenta ser. É reconfortante ver que, de vez em quando, uma série que não pode se dar ao luxo de não ser assistida aceita correr riscos. A recompensa pode não ser grande entre o público usual, mas gradualmente esse tipo de preocupação torna a série mais fina, mais elegante, simplesmente melhor.

Tão melhor que desejei que eles tivessem ido ainda mais fundo e feito o episódio inteiro no julgamento. Provavelmente tornaria o momento em que Arizona decide ir embora* mais difícil de entender, mas Grey’s está sempre à beira de ser desafiadora assim, sem nunca dar o pulo final. É como se existisse uma versão mais encorpada da série que ainda está esperando a hora certa de se revelar. Mesmo assim, Mama Tried foi o melhor episódio de Grey’s Anatomy em um bom tempo, e certamente deu um novo sopro de vida para as histórias de Callie e Arizona, que foram mais do que desprezadas nessa 12ª temporada. Depois disso tudo, será uma queda inevitável na qualidade dos dois últimos episódios? Só espero que isso não seja um ataque do coração, daqueles que tem um pico no segundo anterior à linha reta.

*Arizona saindo foi o exato momento no qual ficou claro para mim para onde as coisas estavam caminhando. Ela precisava ganhar, porque apesar de Meredith dizer no final que as duas são as mães verdadeiras, Arizona joga tudo para cima enquanto Callie joga com tudo o que tem, e as metáforas nessa série sempre são literais. Arizona desiste porque sabe que Sofia ficaria bem com Callie, e pelo altruísmo ela se torna merecedora, fazendo a história do Rei Salomão completa.
E minha aposta para a próxima temporada: se Sara Ramirez fosse sair, teria sido mais fácil levar Sofia junto, porque assim Callie teria um desfecho satisfatório. Mas ela não vai conseguir ficar longe da filha, então se ela fizer a viagem, vai ser para tirar Penny da história. Já vai tarde.

O que vocês acharam? Comenta aí!

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Mai

    Achei demais esse episódio! Nunca tinha tomado partido como tomei pela Arizona dessa vez. Justamente pelo que vc falou “Arizona joga tudo para cima enquanto Callie joga com tudo o que tem”. Mostrou bem a maturidade e a diferença de momentos em que elas estão.
    Mas tirando a Penny da questão, será que aquele fim tem cheiro de revival?