Review: Tudo é mágico em ‘The Americans’

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Rápidos comentários sobre The Americans de ontem a noite porque eles gostaram do mini golf e eu mal posso esperar para ser babá…

 

“Perfeição” não é uma palavra que podemos sair jogando por aí. É uma palavra que deveríamos guardar só para coisas como a quarta temporada de The Americans.

Os últimos episódios dessa obra prima vêm sendo perfeitos em vários níveis. É o desenvolvimento da trama, é o desenvolvimento dos personagens, é a precisão histórica. The Magic of David Copperfield V: The Statue of Liberty Disappears não foi diferente do resto da temporada, mas atingiu um novo padrão de beleza. Como se isso ainda fosse possível.

O título, que se refere ao nome do especial de televisão para o qual o truque foi realizado, não poderia ser uma metáfora melhor para todas as despedidas que norteiam o episódio. Copperfield explica que escolheu a Estátua da Liberdade para lembrar ao povo o quão fácil é subestimar a liberdade, uma vez que a temos. Essa é uma série em que todos os personagens principais (exceto, talvez, Henry) tiveram suas ações restringidas de alguma forma, e alguns até precisaram literalmente desaparecer. Abriram mão de suas liberdades individuais pelo que acreditavam ser a liberdade de uma nação. Não é uma mensagem fácil, mas sua entrega é mais mágica do que a própria façanha de Copperfield.

Enquanto acompanhamos os últimos passos de Martha nos Estados Unidos, o mais longo momento de silêncio em The Americans força o luto que Philip, e nós, estamos sentindo pela situação. Se tem alguém a quem o discurso de Copperfield se aplica literalmente, esse alguém é Martha. Sua vida desapareceu bem em frente aos seus olhos, e ela não podia explicar como aconteceu. Foi pura mágica. Cruel, mas mágica.

A partida de Martha coloca Philip outra vez em modo “eu não quero mais essa vida”, um sentimento que tem contaminado os momentos mais sombrios da série. E The Magic é com certeza um dos episódios mais sombrios de The Americans. Todas as emoções reprimidas de Elizabeth vêm à tona, junto com confissões de Paige, Gabriel, Claudia, Gaad, Lisa e até mesmo Tatiana. Mágica, assim como suas vidas, é sobre se esconder, mas não há nada que essas pessoas desejam mais do que poder se revelar. E quando eles o fazem, não é algo que vem sem algo em troca.

A viagem para o Epcot é resgatada justo no momento no qual ela parece mais irônica. A Disney não é só símbolo do capitalismo americano, mas um lugar também construído de mágica, onde os visitantes precisam se deixar enganar para tirar proveito da experiência. São as “férias” que Elizabeth e Philip tiram, momentaneamente fechando os olhos para a guerra, mas também a perigosa ideia de que para escapá-la, basta viverem como uma típica família americana.

Depois de um pulo no tempo significativo, a sequência final, agitada ao som de End of The Line, vem para contrastar com o silêncio do começo, como se a mera existência de barulho fosse sinal de felicidade. Quando chegamos em outubro de 1983, o mundo mudou, e os personagens mudaram. Gaad não é mais o chefe da Inteligência no FBI, mas incentiva Stan à continuar seu trabalho. Henry ainda é mantido na ignorância, mas Paige assumiu um novo papel dentro da família. Talvez ela ainda não tenha percebido, mas ao passar informações sobre o Pastor Tim e sua esposa para agentes da KGB, Paige se tornou uma espiã russa, e agora ela é parte do jogo, ela é parte da guerra. Ela foi obrigada e se pudesse não o escolheria, assim como Martha não escolheu mudar de país, assim como a Estátua da Liberdade não escolheu desaparecer, mas aconteceu de toda forma.

É tarde demais para a falsa impressão de esperança, porque ela vem em um momento em que não podemos mais confiar nos nossos olhos. É a tática da distração, é o segundo no qual o mágico força o público a prestar atenção em outra coisa enquanto ele faz o movimento que conclui seu truque. O fim da linha chegou, e eles simplesmente não estavam olhando.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.