Review: ‘Jane the Virgin’ não é crível, e por isso é incrível

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Comentários sobre Jane the Virgin ontem à noite porque o formato das maratonas mudou mas os fundamentos eram os mesmos…

Jane the Virgin não é a única série metalinguística da tevê, mas é a que mais entende seu propósito como tal. Séries como Telenovela ou The Grinder (que é atualmente uma das minhas favoritas) sabem falar e rir do mundo da tevê, mas fazem isso apenas com a história em si, enquanto Jane o faz em todas as camadas, incluindo a própria estrutura narrativa da série. Episódios são nomeados como capítulos, existe um narrador que encarna o espectador que não fica calado, e, mais importante, todos os clichês estão lá. Que a família de Jane seja tão viciada em novelas e que seu pai seja um grande astro delas (o maior ou o segundo maior?) não só permite que o narrador tire sarro do gênero mas também questione a insistência dos fãs em voltar noite após noite para um próximo capítulo quando tudo é tão… falso.

Obviamente Chapter Forty-Two não foi o primeiro episódio, ou capítulo, a fazer isso, mas a quantidade de tramas paralelas nesse final da segunda temporada criou o contexto perfeito para se discutir credibilidade, mais um dos traços novelísticos a ser apontado pelo narrador como algo que a maioria ignora, mas que quando absorvido torna a história melhor ainda. Rogelio explicando para Michael que as coisas não precisam ser exatamente plausíveis em uma telenovela é o pico da autoconsciência metalinguística de Jane the Virgin por dois motivos: 1) Rogelio sabe o quão ridículo é a explicação de que, só por se declarar ”telenovela”, eles estão livres da credibilidade (e ele faz caras e bocas para provar); mas 2) a relutância de Michael em abrir mão do conceito de mundo real é justamente o que o impede de se divertir com o que está sendo criado (e ele briga pela posição dos pés em uma cena de batalha mesmo que Tiago a Través del Tiempo seja uma história de viagem no tempo). Você pode criticar a falta de verossimilhança das novelas mesmo quando é completamente viciado nelas, mas se for um apaixonado, vai não só aceitá-la, mas perceber que ela é parte das características que definem o gênero, e mais, o tornam tão atraente.

Se Jane não percebeu que Anezka era a gêmea malvada, mais um dos clichês estilísticos das novelas, é porque como personagem ela desconhece ao fato de que está vivendo nesse universo. Já o narrador sabe e cutuca Jane por isso, tornando o clichê possível na história e também necessário para que a própria série possa ter credibilidade como a telenovela que tenta ser. Por abraçar a ironia, Jane the Virgin mostra um completo domínio de um gênero do qual não faz parte organicamente, mas deseja fazer, e com isso se torna uma grande novela, a maior ou a segunda maior.

O que vocês acharam?

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.