Ouvindo o Filme: Cidade de Deus

É só samba f*da, p*rra!

Quem não gosta de samba? Bom sujeito é ou não é. Para ambos os gostos, a trilha sonora do premiadíssimo Cidade de Deus (2002), filme dos diretores Fernando Meirelles e Katia Lund, é uma excelente pedida. Antônio Pinto e Ed Côrtes usaram o melhor do seu talento para fabricar a trilha, que é um misto de composições originais mais canções brasileiras e internacionais populares nas décadas de 1960-70.

Antônio Pinto respira os ares dos filmes desde a juventude. Aos 17 anos, quando ainda queria estudar bateria, foi estagiário do pianista Philip Glass, indicado ao Oscar por Notas Sobre um Escândalo (Notes on a Scandal, 2006). Alguns anos depois estreou em Menino Maluquinho – O Filme (1994), adaptação da obra original de Ziraldo (que coincidentemente, ou não, é seu pai). A partir de então se tornou um compositor assíduo e requisitado nas produções cinematográficas brasileiras e estrangeiras. Antes de Cidade de Deus, havia participado de Central do Brasil (1998), outro filme brasileiro aclamado pela crítica e pelo público. Mais recentemente, Antônio compôs as trilhas de Trash – A Esperança Vem do Lixo (Trash, 2014) e Amy (Amy: The Girl Behind The Name, 2015).

Do avô flautista, Ed Côrtes herdou a predileção pelos instrumentos de sopro e da avó que tocava violino no cinema, a imersão na sétima arte. Além dos avós, os pais de Ed também são músicos, assim como sua irmã. Desde criança, ele toca instrumentos musicais, começando pelo piano até o saxofone, o instrumento que mais lhe encantou. Sua carreira compondo trilha sonora de filmes está bastante ligada à de Antônio Pinto, pois muitos de seus trabalhos foram em conjunto, alguns dos mais conhecidos são: Abril Despedaçado (2001) e O Amor nos Tempos do Cólera (Love in the Time of Cholera, 2007). Seu trabalho mais recente nas telonas foi na trilha de A Despedida (2014).

Antônio e Ed compuseram 8 músicas para o filme. Em todas elas, os instrumentos de percussão são bastante valorizados, assim como os metais, o resultado é um samba-funk presente nos momentos importantes da narração. A música, que segue a clássica cena em que o já crescido Dadinho apresenta o seu novo nome, foi batizada de Meu Nome é Zé, ela é a primeira faixa do álbum City of God.

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Dentre as músicas do cancioneiro popular brasileiro, escolhidas para integrar a trilha sonora de Cidade de Deus, podemos encontrar duas das músicas mais importantes da carreira do poeta das rosas, Cartola. A primeira delas é Preciso me Encontrar, que apesar do enorme sucesso na voz do cantor, é de autoria de outro famoso sambista, o Candeia. A canção que embala o romance de Berenice (Roberta Rodrigues) e Cabeleira (Jonathan Haagensen), na primeira parte da história, trata do drama pessoal vivido por Candeia. O compositor era policial civil, mas teve que se aposentar após receber cinco tiros em uma discussão de trânsito e ficar paraplégico. Sua vida a partir de então foi marcada pela contínua depressão que o inspirou a escrever muitas canções amarguradas, como Preciso me Encontrar.  Na contramão da música anterior, Alvorada evoca o bem-estar que o morador do morro encontra nas coisas simples. A composição faz parte do lado B do primeiro álbum de estúdio gravado por Cartola, em 1974, quando ele tinha 65 anos de idade. Cartola, o álbum, é o número 52 na lista dos 100 maiores discos da música brasileira, mantida pela revista Rolling Stone.

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Na Rua, na Chuva, na Fazenda foi um grande hit das discotecas brasileiras na década de 1970. A música é de composição de Hyldon, um dos principais nomes do soul brasileiro, ao lado de Tim Maia e Cassiano. A canção, popularizada com o título Casinha de Sapê, virou sucesso antes mesmo do disco que a lançou estar pronto e à revelia de Hyldon e dos produtores envolvidos na preparação do álbum. Ao som de Casinha de Sapê, o casal Angélica (Alice Braga) e Bené (Jonathan Haagensen), irmão de Cabeleira, se apaixonam.

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Os bailes de aniversário de Zé Pequeno (Leandro Firmino) e de despedida de Bené, são recheados de músicas internacionais populares nas casas noturnas nas décadas de 1960-70, período em que se passa a trama. Uma delas é Get Up I Feel Like Being Like a Sex Machine ou, simplesmente, Sex Machine, de James Brown. O clássico da música funk foi lançado originalmente em 1970. A outra voz da música é de Bobby Bird, integrante da The J.B.’s Band, nova banda de James Brown na época. Sex Machine foi tão influente na vida de James que permaneceu em seu repertório até o fim da carreira, nos anos 2000. Outra das músicas dos bailes que vale a pena citar é Kung Fu Fighting do jamaicano Carl Douglas. Carl a compôs despretensiosamente em um período de explosão dos filmes chineses de artes marciais, usando o riff oriental, um fraseado musical composto no ocidente para se referir às coisas do oriente, e deu certo. Carl foi o primeiro jamaicano a figurar nas paradas de sucesso norte-americanas.

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No início da terceira parte do enredo de Cidade de Deus, Mané Galinha (Seu Jorge) se junta ao bando de Cenoura (Matheus Nachtergaele), então Wilson Simonal anuncia a volta à Pilantragem em Nem Vem que Não Tem. A Pilantragem aí citada foi um movimento cultural surgido no final da década de 1960 que se auto definia como “a apoteose da irresponsabilidade consciente”. A letra de Nem Vem que Não Tem é de autoria de Carlos Imperial, enquanto a música foi feita por Wilson Simonal e sua banda nas gravações do programa Show em Si… Monal da TV Record, em 1967.

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A música negra da década de 1970 é bastante explorada pelos organizadores da trilha, pois, sem dúvida, é um instrumento de representatividade para os personagens principais do filme. Sendo assim, Tim Maia não poderia ficar de fora, duas de suas músicas estão presentes. A primeira a ser ouvida, quando Buscapé (Alexandre Rodrigues) percebe que perdeu Angélica para Bené, é Azul da Cor do Mar. A canção está no álbum clássico Tim Maia, lançado em 1970, o número 25 da lista de melhores brasileiros da Rolling Stone. Em No Caminho do Bem, Tim traz a ideologia Racional para a sua carreira profissional. No filme, a música é ouvida em seu desfecho, deixando uma mensagem de esperança (por que não?) para os espectadores.

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Nos créditos finais, Seu Jorge deixa de ser o ator para ser o cantor. Convite para a Vida é uma das canções originais de Antônio e Ed e com ela se encerra a saga conflituosa das primeiras gangues da Cidade de Deus.

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Um dos instrumentos musicais mais ouvidos durante todo o filme é a cuíca, ela chora lamentando a tragédia e grita de euforia nos momentos felizes. E quando ela para é porque tudo o que nós conhecíamos deixou de existir, ou melhor, quando ela dá um tempo. Pois como todos sabemos, malandro não para, malandro dá um tempo.

Para ouvir toda a trilha sonora de Cidade de Deus, acesse a Playlist oficial do Ouvindo o Filme no Spotify.

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