Tangerine

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Se não me engano, foi Jean Renoir quem disse que o cinema só se tornaria arte, de fato, quando os instrumentos para realizá-lo fossem tão fáceis de manusear quanto lápis e papel. A sentença visionária do cineasta francês parece estar ganhando vida pela primeira vez na história. Tangerine, do americano Sean Baker, é um daqueles filmes que nasceram para ser cult. Após ser exibido no festival de Sundance, o longa-metragem ganhou projeção no mundo todo e conquistou a atenção do público e, principalmente, da crítica. Sua maior inovação: ser realizado com aparelhos de celular Iphone 5S. No total, foram três celulares usados para as filmagens, somando a eles adaptadores, aplicativos e técnicas próprias do cinema para que o produto final fosse satisfatório. É incrível observar o quanto a ideia de Baker deu certo. Muito certo, por sinal. Com pouco mais de 100 mil dólares, ele conseguiu criar uma obra que não deixa nada a desejar aos grandes filmes. Porém, toda essa inovação – ele não foi o primeiro a fazer um filme em celular, mas foi o que rendeu melhores resultados e repercussão – poderia passar despercebida se não tivesse a seu favor uma boa e cativante história.

O roteiro conta a história de duas prostitutas transgêneros. Sin Dee (Kitana Kiki Rodriguez) acabou de sair da prisão e descobre, sem querer, pela melhor amiga Alexandra (Mya Taylor – Primeira atriz trans a ganhar o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Spirit Awards, considerado o Oscar dos filmes independentes), que seu namorado e cafetão, Chester, está saindo com uma “mulher de verdade”, uma “rachada” em seu vocabulário próprio. Enfurecida, a protagonista percorre as ruas da cidade de Los Angeles em busca do namorado e da mulher com a qual ele está saindo para fazer um ajuste de contas. Ao mesmo tempo, somos apresentados ao taxista Razmik, de origem armênia, que mantém seu desejo por transsexuais pagando por programas, e que acaba despertando a desconfiança da sogra quando sai no meio da ceia de Natal para supostamente trabalhar. O clímax desse enredo é o encontro de todos esses personagens em um dado momento da projeção. A grande realização de Sean Baker é conseguir lançar a plateia para dentro de um Sunset Boulevard de travestis, prostituição, drogas e estrangeiros, descortinando uma L.A de esquinas perigosas e nada glamourosas que destoa totalmente daquele imaginário romântico que Uma Linda Mulher (1992) perpetuou por tantas décadas. O que vemos é um mundo real e cru, cujo o humor é a mais poderosa ferramenta para atenuar a realidade dos que vivem ali. Esse humor, um tanto depreciativo, pode ser observado em alguns momentos da projeção quando, por exemplo, Alexandra diz à amiga: “Deus às vezes é cruel” e Sin Dee responde de imediato: “Ele me deu um pinto”. Com um roteiro simples e com boas sacadas, escrito pelo próprio diretor em parceria com Chris Bergoch, eles conseguiram não só um feito técnico no que diz respeito à criatividade das filmagens, como também conseguiram fazer um obra relevante em muitos outros aspectos.

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Toda a trama se desenrola às vésperas do Natal durante parte de um dia. A família do taxista surge em cena, durante uma ceia natalina, para fazer um contraponto com a dura realidade das meninas que nas calçadas vivem seus dramas, conflitos e buscam a sobrevivência. A nossa zona de conforto, na maioria das vezes, não nos deixam ver além daquilo que estamos acostumados, e esse filme tem o valoroso papel de levar às plateias a esse universo violento, solitário, de desejos reprimidos, histriônico e fora dos padrões convencionais, mas que, ainda assim, é mais verdadeiro, autêntico e humano do que a aparente plasticidade das famílias conservadoras. Nesse sentido, é preciso destacar uma cena específica quando Razmik faz sexo oral em Alexandra dentro de um carro enquanto o veículo entra num daqueles tubos de limpeza típicos dos lava-jatos americanos. Qualquer gemido de prazer é abafado pelo barulho que tiras de pano, jatos d´água e rolos de espuma fazem durante o ruidoso processo. É como se a vida lá fora quisesse, a todo custo, “limpar”/“arrumar” o externo, sufocando o interior que se revela imperfeito, complexo e, por isso mesmo, mais palpável. A cena da lavanderia, ao final, (mais uma com referência à limpeza), confirma o que aqui tento explicar: a “sujeira” da qual o mundo tenta se livrar é o resultado de comportamentos hipócritas, alienados, limitados e preconceituosos que acabam por marginalizar pessoas que não são muito diferentes de nós. São seres humanos com vontades, desejos, sonhos, tristezas e alegrias. Assim como eu, assim como você que me lê.

Dentro das possibilidades de um módico orçamento, merecem destaques o uso da trilha sonora e o trabalho fotográfico do filme. Música clássica e, principalmente, eletrônica são utilizadas de forma explosiva e constante. Quando Coriolan Overture de Beethoven toca, enquanto Sin Dee pensa na vida, diante de um ônibus que se esvazia, cria-se uma atmosfera dramática e irônica para, logo em seguida, ela pronunciar um “Foda-se!” e seguir em frente com seus intentos ao som do bate-estaca que volta a estourar novamente na tela. A situação nos dá a dimensão da inquietação da personagem e nas entrelinhas nos revela o choque de dois mundos: um que se quer sério, dramático e organizado (a imagem das pessoas saindo do ônibus de forma cadenciada mostra isso) e outro que se revela difuso, irrequieto e em franca transformação. O diretor de fotografia Radium Cheung aproveita de forma inteligente a luz do sol da própria cidade realizando um trabalho impecável que confere à imagem uma elegância solar ao mesmo tempo que melancólica. Luz estourada, reflexos, luzes de letreiros, pisca-piscas natalinos dão um toque todo especial à estética da produção.

E de onde vem o título do filme? O tangerine que intitula a produção não é mencionado em nenhum momento e a fruta aparece rapidamente num ornamento que Alexandra coloca no retrovisor interior do carro do taxista. Esclarecendo a dúvida, o diretor, em entrevistas, disse que o título faz referência a cor tangerina que o céu adquiri nos finais de tarde de verão na Califórnia e que traz  aos céus um ar lúgubre que principia a noite. Lendo essa explicação, acabei me lembrando de uma música do Led Zeppelin homônima ao título, cujos versos iniciais “Measuring a summer´s day / I only finds it slips away to grey / The hours, they bring me pain” caem como uma luva nesse enredo composto de luzes e sombras. Não faz parte da trilha sonora, mas se fizesse não seria nada mal.  (Para ouvir a música, clique abaixo).

No entanto, se a imagem da fruta também surge durante a narrativa, mesmo que de forma breve, creio que haja mais sentidos envolvidos. E buscando informações sobre a simbologia da tangerina na Internet, eis que me deparo com uma explicação que diz que a fruta era utilizada em séculos passados para restabelecer mulheres após partos e menstruações. Assim sendo, a tangerina é uma fruta relacionada à saúde feminina. Pensando nas meninas trans do filme, talvez o diretor tenha escolhido o título de seu trabalho pensando em possibilidades mais amplas de reflexão que vão além do simplório tom alaranjado de um fim de tarde. Talvez, tangerine torne-se referência a um tipo de mulher em transformação, como a mudança do dia para a noite que, antes de se efetivar, promove o crepúsculo; Uma mulher que ainda está longe da compreensão do nosso limitado olhar, como as tonalidades incertas que colorem o céu num pôr-do-sol. Uma mulher que, imperfeita, revela-se inteira. Tangerine é arte como imaginou Renoir e com seus prolíficos resultados parece abrir as portas do futuro do cinema e da mentalidade humana.

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Quem escreveu

Flávio Max
Como crítico de cinema, mantenho o blog "Do Papel ao Movimento" desde 2011. Porém, escrevo sobre filmes desde que descobri a caneta e o papel como minhas armas favoritas no combate à ignorância; a minha e a de quem me lê. Penso a vida através dos filmes, por isso, gosto de longas-metragens que me façam pensar, mas consigo tirar reflexões até de produções muito banais. Afinal, a arte é sempre uma confirmação ou uma cisão das coisas instauradas ao nosso redor. Para mim, “a vida não tem sentido”, quando vou ao cinema “é como voltar ao útero e ver a vida surgindo” e “o maior brinquedo inventado pelo homem é o cérebro”. Lynch, Fellini e Chaplin na minha forma de ver o mundo.