Deadpool

deadpool

Uniforme de lycra colocado e apertando sua bunda. Senso de humor afiado e com uso constante de palavrões. Arsenal de médio porte de armas. Capacidade de cura. Autoconsciência de sua própria ficção. Esse é Deadpool, o personagem cujo filme homônimo estreou essa semana e promete arrastar uma legião de fãs da Marvel, mesmo com a temida classificação de 16 anos.

Não se espante: as salas vão estar lotadas de jovens (alguns se não em corpo, parcialmente espírito) esperando a aventura do herói subversivo tomar forma física e ganhar seu próprio filme. Não se espante também quando começarem as piadas e num uníssono, a plateia toda gargalhar. Mesmo que o fato que desencadeie o riso seja o protagonista em vermelho decepando a cabeça de alguém, enquanto faz uma piada sobre isso.

Interpretado por Ryan Reynolds, Wade Wilson é um mercenário descolado. Conhece a mulher dos seus sonhos, a prostituta Vanessa, vivida pela brasileira Morena Bacarin. Tudo ia bem até que ele se descobre com câncer em estágio avançado e aceita um tratamento experimental que acaba por transformá-lo em um mutante. Desfigurado e desejando vingança pelo processo que o transformou em Deadpool, Wade planeja uma vingança, até descobrir que sua namorada corre perigo.

A história, em si, nada tem de nova. Deadpool pode não se perceber como um herói, mas o caminho traçado por ele tem bastante em comum com caminho traçado pelos companheiros do universo Marvel. Até o sequestro final é a prova de que, com super poderes, é difícil escapar de um super destino e de suas convenções.

O grande dilema do filme é se estabelecer como um filme de herói mas não como qualquer filme de herói. Há uma busca por essa diferenciação e ela até se concretiza no humor de seu personagem principal (irritante, como uma criança que não consegue ficar calada) que referencia outros super heróis, faz piadas com a cultura pop e quebra a quarta parede muitas vezes para conversar com seu espectador. Tem plena consciência de sua existência dentro de um universo ficcional.

A cena de abertura e o próprio desenvolvimento do filme fogem da linearidade e de um padrão. Todos esses elementos podem ser apontados como positivos se não fosse o exagero, o desespero por ser descolado e funcional, o desespero de um mau piadista que conta a anedota e cruza os dedos esperando que público rir.   

O tom jocoso do protagonista resulta num senso de humor negro que se vê ilimitado e escatológico. É possível rir de membros decepados, e isso respinga num problema ainda maior: a banalização da violência. Não sou puritano. Eu entendo o uso de violência no cinema, mas quando esse uso tem um objetivo que não o de simplesmente chocar a audiência. A história, o roteiro, a natureza daqueles personagens pede o sangue. Em Deadpool a violência é banalizada de tal maneira que arrancar a cabeça de alguém torna-se uma piada, um gesto engraçado e que cobra da audiência o riso.

A obviedade do roteiro elimina também qualquer fator surpresa e a capacidade de empatizar com qualquer um dos personagens. Sabemos exatamente o que vai acontecer: o roteiro de Paul Wernick e Rhet Reese foge tanto dos padrões que acaba criando um padrão próprio. Deadpool aspira tanto a imprevisibilidade que ele mesmo é previsível.

Como uma piada ruim.

deadpool-valentines-poster

Quem escreveu

Daniel Matos
Jornalista, escrevo meus próprios roteiro e imagino filmes premiados em Cannes nas viagens de ônibus. Gosto de sala vazia, choro em (quase) toda sessão e minha lista de favoritos vai de Kill Bill vol. 1 à Central do Brasil.