Carol

Crítica publicada também no Do Papel ao Movimento

Therese Belivet trabalha em uma loja de brinquedos. É véspera de Natal e o local está repleto de mães em busca do presente ideal para seus filhos. De repente, surge uma bela mulher, de elegância impecável, que entra no estabelecimento e, sem querer, esbarra num dispositivo que mantém um trenzinho em funcionamento dentro de uma redoma de vidro. Imediatamente, o brinquedo deixa de fazer seu incansável e ruidoso percurso circular que tanto encanta as crianças. É uma cena aparentemente simples – que dará conta do primeiro encontro entre Therese e Carol – mas que dirá muito sobre o universo dessas duas poderosas personagens femininas.

O diretor Todd Haynes construiu Carol, sua adaptação do livro de Patrícia Highsmith, – autora de sucessos como Pacto Sinistro e O Talentoso Ripley, todos já transpostos para o cinema – de forma extremamente sutil e delicada, sem resvalar em nenhum momento para exageros ou apelações. A título de curiosidade, a obra literária se chamava The Price of Salt e foi publicada, em 1953, sob o pseudônimo de Claire Morgan. Atualmente, o livro também é reconhecido pelo nome que batiza o filme. Desde o início, quando vemos as duas protagonistas conversando em uma mesa de restaurante e um personagem masculino surge para cumprimentá-las, podemos observar a sutileza com a qual o diretor nos apresenta às moças. Carol se levanta, cumprimenta o rapaz com um aperto de mão breve e firme e, antes de partir, toca o ombro de Therese. Na sequência, o homem faz o mesmo. Filmada de costas, Therese – tocada dos dois lados dos ombros – revela-se uma mulher dividida, em dúvida, e confusa em seus pensamentos. É o que basta para o espectador entender o comportamento da personagem em questão. Tudo em Carol é conduzido com o maior cuidado e o resultado é uma obra de arte cinematográfica de qualidade ímpar.

Apesar de Carol ser o nome que intitula a produção, é sob o olhar de Therese que a história de amor é conduzida. Acompanhamos a evolução da jovem vendedora de brinquedos, que sonha em ser fotógrafa, pela brilhante atuação da atriz Rooney Mara (performance premiada em Cannes) que imprime à sua caracterização timidez, curiosidade, melancolia e estranheza em doses bastante equilibradas, o que a torna crível e apaixonante diante de nossos olhos. O momento da projeção em que ela vai passar um fim de semana na residência da nova amiga e a observa num conturbado relacionamento familiar com o marido e, logo em seguida, retorna para casa, não sem antes, desabar em um choro contido e dorido, é de uma beleza e tristeza incríveis. Nessa passagem, percebemos o quanto Therese está apaixonada e, diante disso, não é preciso dizer muita coisa. A emoção revelada é a perfeita tradução do momento. Quem, na vida, viveu uma grande paixão, aqui, compreenderá a natureza da dor que emerge diante da possibilidade de um amor que corre o risco de não se concretizar.

Cate Blanchett está irritantemente elegante em sua composição (e isso é um elogio) e empresta à sua personagem suas próprias marcas de expressão que, sem vaidades, são expostas no rosto da atriz que sabiamente envelhece. Blanchett é, sem dúvidas, um dos maiores talentos do cinema mundial. Sua Carol Aird é uma mulher independente para os padrões conservadores dos anos 50, tem opinião própria e vive sua sexualidade de uma forma muito natural dentro do possível para a época. Mantém um casamento de fachada com o marido (Kyle Chandler) que, durante algum tempo, fingiu aceitar sua bissexualidade em nome de uma imagem familiar idealmente organizada e feliz e, socialmente, legitimada. O problema vem à tona quando ele resolve pedir na justiça a guarda da filha, alegando a imoralidade do comportamento da esposa. Assim, Haynes nos leva a um debate bastante contemporâneo que diz respeito à condição de homossexuais na criação de filhos. Se hoje em dia, ainda vemos situações absurdas de indivíduos que julgam pessoas do mesmo sexo incapazes de cuidar de crianças, imagine como era em décadas passadas. É numa frase de Carol que se introduz a crítica quando, aviltada, ela questiona: “tirar a filha de uma mãe, não seria imoral também?”.

Aliás, Cate Blanchett profere muitos bons diálogos, por vezes, permeado de um leve humor irônico, por exemplo, quando questiona o porquê das pessoas acharem que receber notícias ruins será menos pior quando estão sentadas, ou quando, irritada, após uma discussão, arremata: “Quando mais nada pode piorar, o cigarro acaba”. O roteiro adaptado, muito bem urdido, foi devidamente indicado ao Oscar 2016, assim como as atuações da dupla de protagonistas. O filme também figura entre outras categorias dada a excelência do produto final que se exibe ao público. Fotografia, direção de arte e figurino foram concebidos com esmero, e juntos, ajudam a reconstruir os belos cenários de uma Nova York dos anos 50 onde se passam os acontecimentos narrativos. Apesar das indicações que recebeu, é uma pena que a produção não tenha conquistado um espaço entre os melhores filmes. Porém, isso não diminui, de maneira nenhuma, a potência desse trabalho. Pequenos detalhes dão um toque especial ao longa-metragem. Observe com atenção como vidros embaçados e foscos aparecem o tempo todo, ao longo da narrativa, fazendo evidente referência à vida daquelas mulheres que se amam, mas precisam viver em segredo aquilo que sentem. Em uma passagem específica, as duas estão dentro de um carro em movimento, o automóvel adentra um túnel e os vidros das janelas, cobertos de vapor condensado provocado pelo frio, pela chuva e pela respiração de ambas, fundem-se a uma música distorcida que as fazem mergulhar no meio da escuridão. Eis uma bela metáfora erótica realizada para demarcar a tensão sexual que começa a aflorar entre elas.

A trilha-sonora colabora de forma eficaz para a nosso processo de imersão e traz em sua partitura notas melancólicas que refletem ora a força, ora a fragilidade do amor. A cena do trenzinho, supracitada, torna-se uma analogia da própria vida que circula incessantemente por caminhos muito iguais e repetitivos e que, por algum motivo, de repente, para. Pode parar por causa de uma tragédia, de um arrependimento, de uma perda. E ao parar, nos faz ver o mundo com outros olhos, sair da zona de conforto. No caso do filme, a paixão é o que faz o “trem da vida” parar. E assim, torna-se inevitável o resgate da expressão “fora dos trilhos” tão comumente pronunciada quando o sentido e os rumos da vida tornam-se confusos e complexos demais. A paixão entre Carol e Therese acontece durante um período de rigoroso inverno e, não é por acaso, que quando viajam para o oeste do país, as cenas ganhem nuances mais solares, refletindo o momento de realização do amor. Mas a neve e o frio insistem em se fazer presentes e logo Carol terá que enfrentar seus demônios.

Muito mais que receber o rótulo de “filme lésbico”, Carol é, acima de tudo, uma grande obra de cinema e não deve ser reduzida a um rótulo tão limitador. É uma história de amor avassaladora, vivida em uma época de muitos preconceitos, e que Todd Haynes – assim como fez em Longe do Paraíso (2002), outro belíssimo trabalho do diretor, também ambientado nos anos 50 – coloca a disposição do espectador para que ele pense e reflita. É em um diálogo no qual Therese, acostumada a fotografar objetos, diz que precisa se interessar mais por humanos que podemos assimilar o recado que o diretor parece estar dando ao mundo. Decerto, todos nós temos que nos interessar mais pelos humanos e o momento atual urge por isso. Mas se o frio do mundo insiste em nos sabotar, é no calor dos corpos que parece existir uma força inabalável que se traduz em amor, sexo, paixão e vida.

Quem escreveu

Flávio Max
Como crítico de cinema, mantenho o blog "Do Papel ao Movimento" desde 2011. Porém, escrevo sobre filmes desde que descobri a caneta e o papel como minhas armas favoritas no combate à ignorância; a minha e a de quem me lê. Penso a vida através dos filmes, por isso, gosto de longas-metragens que me façam pensar, mas consigo tirar reflexões até de produções muito banais. Afinal, a arte é sempre uma confirmação ou uma cisão das coisas instauradas ao nosso redor. Para mim, “a vida não tem sentido”, quando vou ao cinema “é como voltar ao útero e ver a vida surgindo” e “o maior brinquedo inventado pelo homem é o cérebro”. Lynch, Fellini e Chaplin na minha forma de ver o mundo.