Creed: Nascido Para Lutar

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Não se engane: Creed não se chama Rocky VII, mas é sem dúvidas um filme da franquia Rocky. E isso é mais um problema de título do que de história. A segunda colaboração do diretor e roteirista Ryan Coogler com Michael B. Jordan se encaixa perfeitamente nos moldes dos Rocky anteriores, atingindo batidas conhecidas não só da série mas dos filmes de boxe em geral, revestindo o antigo com uma direção moderna e afiada, e um roteiro um pouco mais polido, nada do que o descaracterizaria como mais uma sucessão da coleção. E por que deveria? Coogler conduz o sétimo filme com o respeito que os 40 anos do personagem demanda, e até traz de volta a delicadeza que foi abandonada a partir de Rocky III – O Desafio Supremo(1982), provando que não são incompatíveis, e que existe certa elegância em um jab bem dado.

Não começamos com a última luta de Rocky, mas o flashback está no início de tudo, um artifício preguiçoso que deveria situar as coisas, mas que pode nos deixar com perguntas. Lá está o jovem Adonis, fruto de uma relação extraconjugal de Apollo Creed, abandonado em uma cela de um centro de detenção juvenil, quando é adotado por Mary Anne Creed (Phylicia Rashād), a viúva do lutador. Donnie cresce em uma família privilegiada, o que não o impede de conciliar os dias em um escritório em um arranha céu de Los Angeles e as noites nos ringues imundos e clandestinos de Tijuana.

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Querendo fazer seu nome, Johnson, sobrenome de sua mãe biológica, Donnie larga o emprego e atravessa o país em busca da chance de treinar com o maior adversário, mas também grande amigo de seu pai, Rocky Balboa. Rocky faz sua primeira aparição no filme perto da marca de 20 minutos, mas basta Sylvester Stallone entrar em cena para ficar claro que essa também é a história de Rocky, e que é possível que ela seja melhor do que a de Creed. É de Rocky o fardo de conduzir o filho de seu amigo, morto no ringue por um ato de negligência dos dois, na jornada que transforma o garoto em homem, mesmo se essa transformação não tiver seus degraus tão bem definidos quanto os degraus metafóricos do museu que Rocky precisa enfrentar a cada filme. Rocky é o verdadeiro protagonista da jornada do herói, e em seus 12 passos ele tem sempre bem mais a perder do que Donnie.

Isso não é dizer que os dilemas internos de Donnie não são atraentes, mas que falta a eles o fator social que a história de cada personagem em Rocky – Um Lutador (1976) e Rocky II – A Revanche (1979) exibia, e a forma como elas eram representativas daquele período dos Estados Unidos. O boxe é um esporte barato e por isso frequentemente cria estrelas que conhecem a pobreza. O dinheiro de Donnie com certeza não o prejudica, mas também não o faz um lutador melhor. Em um meio repleto de gente que começou de baixo, os problemas do suposto personagem principal são simples demais: só é possível ter medo de não honrar um nome quando se tem um nome para não honrar. E mesmo assim, é um tanto superficial: se há um Creed a quem Donnie deve algo é à Mary Anne, e ele não para nenhuma vez para questionar se vale a pena partir o coração de sua mãe para seguir seus sonhos, quando isso sozinho daria um obstáculo muito melhor do que os significados mais profundos de se usar ou não um sobrenome.

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Outro fato que é completamente ignorado em Creed é que o boxe é um esporte perigoso, e mesmo se nem todos os filmes justificam seus trabalhos perigosos, isso foi uma coisa muito bem estabelecida nos três primeiros filmes da franquia. Rocky enfrenta a possibilidade de ficar cego e sérios danos cerebrais por causa das lutas. Isso desapareceu depois, mas esteve lá em algum momento. Em um diálogo um tanto áspero, Rocky diz a Adrian que ele luta porque é a única coisa que ele sabe fazer. Donnie pensa algo semelhante e diz “Eu lutei minha vida toda, não é uma escolha para mim”, mas falha em perceber que cada passo em seu caminho é exatamente a definição de escolha.

Para Rocky, o que estava em jogo era sempre tudo que ele tinha, e esse é o caso outra vez. Donnie é a sua chance de recuperar a sensação de família que ele perdeu depois da morte de Adrian e Paulie e com a mudança de Rocky Jr. para o outro lado do país. É também a única maneira de estar perto de seu antigo trabalho, que infelizmente tinha uma data de validade. Quando ele escolhe não lutar contra o câncer, é porque ele acha que não tem ninguém em seu corner, e portanto é uma luta perdida. Para Rocky tudo isso é literalmente uma questão de vida ou morte, e assistir a ele superar seus medos é muito mais valioso para o espectador que viu Rocky perder pouco a pouco quase tudo o que ganhou em seus dias como campeão. Mas agora ele tem Donnie, o que torna o garoto coadjuvante em sua própria história. E com ele vem Bianca (Tessa Thompson), uma cantora sofrendo de perda progressiva da audição, que também entende o que é ter uma data de validade para se fazer o que ama. Comendo sorvete debaixo do cobertor eles formam uma família diferente mas doce, e é o que finalmente leva Rocky de volta à escadaria que uma vez foi dele, e que agora ele se sente confiante em passar para a próxima geração.

Creed também é uma carta de amor à Filadélfia. Coogler faz questão de mostrar que a cidade mudou mas manteve muito da cultura de rua. Redescobrimos a cidade à medida que Donnie a descobre. São seus sons diferentes (o tema clássico é substituído pelo pop eletrônico), as comidas locais, os entusiastas da bike life que acompanham Donnie enquanto fazem estripulias em suas motos. As ruas são as mesmas, mas elas parecem diferentes sob o olhar de Coogler e seu fetiche por detalhes. Sua direção é limpa e tem uma certa nobreza que a princípio não diríamos se equilibrar com a dureza do boxe. Mas mais uma vez ele se prova o mais cinematográfico dos esportes, e é filmado por Coogler com uma mistura de planejamento e improvisação, com takes longos elegantemente coreografados e também frações de segundos diluídas em momentos maiores pela câmera lenta e efeitos de som. A segunda luta de Donnie é um plano sequência no qual Coogler mostra ao mesmo tempo quão rápidas e quão planejadas são as decisões. Sua câmera dança em volta dos lutadores mais como em um balé do que em uma luta de boxe. Cada conflito fica mais longo e mais detalhado à medida que chegamos mais perto do sangue que Donnie cospe e dos sons que seus golpes fazem. É um traço da tecnologia atual, mas também é o toque pessoal apaixonado de Ryan Coogler.

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Todos os elementos que fazem de Creed um verdadeiro filme da franquia Rocky são bem-vindos, pois tratam com carinho a marca construída por Stallone nos seis filmes que vieram antes. A galinha, as montagens de treino, os ovos crus e as escadarias não são apenas acenos para o resto da série, mas um lembrete de que Donnie será o verdadeiro herdeiro do legado de Rocky e Apollo, e que no final ele terá feito por merecer tudo que vier em seu caminho, assim como foi com as duas lendas. Dessa vez pode não ter sido o suficiente para que ele fosse o campeão, mas com Creed 2 já nos calendários para o próximo ano, é apenas uma questão de tempo até Donnie encontrar obstáculos e motivações mais interessantes. Provavelmente Ryan Coogler não terá a missão de dar prosseguimento à franquia, e tudo bem, já que Creed é um grande salto em sua carreira super recente, prova seu talento para um cinema comercial que não seja despido de humanidade e capricho, e nos faz ansiar por outras histórias que ele venha a contar.

Donnie consegue sua primeira grande luta porque tem um bom nome, exatamente o mesmo motivo pelo qual Apollo Creed desafia o “Garanhão Italiano” da primeira vez. Não é porque eles foram jogados de cara em uma decisão pelo título que não precisam trabalhar duro para merecer a luta, e pelo suor eles se tornam homens honrados. Ricky Conlan (Tony Bellew), o adversário de Donnie, está a ponto de ir para prisão, e Apollo tinha um temperamento ruim. Eles ainda ganham. As coisas não são tão preto no branco, e esse é um dos pontos fortes de Creed. Ninguém precisa ser um homem honrado para ser um campeão de boxe, mas só um homem honrado pode perder a luta e ainda sair um vencedor. É o que acontece com o filme. Creed é uma decisão dividida: ainda que sofra alguns golpes, tem garra o suficiente para acertar o alvo várias vezes. É um daqueles casos onde a contagem de pontos não importa tanto, porque a coisa toda já foi um espetáculo. Creed não consegue vencer por nocaute, mas ainda é uma grande vitória.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.