Os Oito Odiados

OsOitoOdiados

É de conhecimento público a história do escorpião e da tartaruga. Ele precisa atravessar o rio, precisa da tartaruga e faz uma promessa: vai segurar seu ferrão. A tartaruga não acredita muito mas decide dar o braço a torcer. Em meio à água esverdeada ela sente o ferrão na pele e indaga o valor da promessa. Agora os dois vão morrer. “É a minha natureza” responde o escorpião. Num ato súbito de arrogância ele se mata.

Tarantino (nunca saberemos) transformou-se em algo ou assumiu sua natureza. Seu gesto beira o megalomaníaco: ele se desculpa por ser Tarantino da mesma maneira que o escorpião. “É da minha natureza.” Ao entregar Os Oito Odiados pode-se dizer que não há um esforço sequer para fazer algo que não seja tarantinesco. A inscrição na película do filme avisando de que aquele é o 8º filme de Quentin Tarantino, as explosões, as mortes, o banho de sangue, a trilha de Ennio Morricone, o roteiro, a direção, todas elas funcionam e são indesculpavelmente filhas de seu pai.

Junto com elas vem um revisionismo vazio, fadado ao niilismo, um discurso moral e ético igualmente vazio e perigoso. Elas também são indesculpavelmente filhas de seu pai. Ele se defende com o sorriso sarcástico de sempre: “é a minha natureza.” Os fãs e até mesmo os consumidores desavisados também “Mas é um filme do Tarantino, o que você esperava?” Ele não sai de sua zona de conforto, não se esforça para se elaborar. Ele alcançou uma posição (pelo menos em sua cabeça) onde não se faz mais necessário.

O mote principal é a captura de Daisy Domergue (vivida brilhantemente por Jennifer Jason Leigh) pelo homem da lei John Ruth conhecido por sempre levar suas vítimas vivas ao carrasco, uma prática perigosa e nem sempre prudente, afinal, viajar com um foragido sob sua custódia pode não acabar muito bem. A viagem até a cidade onde Daisy será executada é longa e o grupo acaba se encontrando no meio do caminho com o major Marquis Warren, um ex-combatente da União e o futuro xerife Chris Mannix. No meio do caminho é necessário se abrigar contra a nevasca. Na loja de armarinhos, outros personagens como um ex-general confederado, o carrasco e um cowboy suspeito se amontoam contra a neve.

Assim como seu antecessor, Django Unchained, o faroeste deixa de ser uma inspiração para se tornar o gênero do filme. A ironia de Os Oito Odiados é que, por mais que se passe num universo ficcional compartilhado pelo faroeste e até seja vendido como um, pouco se verá dos grandes clássicos ou das convenções do gênero. Usando o artifício do incidente climático, o roteiro confina personagens (um número um pouco maior do que os oito, propriamente ditos) com leituras de mundo opostas e deixa o caldo engrossar.

Contando com diálogos interessantes, a construção do filme é lenta, para alcançar o clímax a partir de sua metade. Não é preciso ressaltar a beleza técnica dessa obra, que vai desde a direção de fotografia, o design de produção e figurino recriando com maestria as roupas e cenários ou o trabalho primoroso de Ennio Morricone ou as atuações. É um filme que funciona, um bom filme. Seria melhor se a espécie humana soubesse qual o botão responsável por desligar qualquer julgamento ético ou moral em seu cérebro. Ainda bem que não descobrimos em qual parte do córtex ele se encontra.

Indo na contramão de Bastardos Inglórios e do próprio Django (ainda que com certas ressalvas), Os Oito Odiados não empodera ninguém. Se lá Shosanna representa uma vingança dos judeus contra os nazistas e se mostra uma personagem feminina forte, se Django pode reverter a roleta da discriminação, no novo filme tudo vira nada. Os personagens bons são todos fracos e morrem (mesmo que de maneira mais limpa) clamando por sua vida. No núcleo dos protagonistas, a construção é feita com camadas de preconceito. Os homens brancos descriminam as mulheres e a violência constante sofrida por Daisy é a prova disso: socos, cotoveladas, tapas; também se considerando melhores que os negros.

O principal problema não é expor os problemas do período pós Guerra Civil, problemas esses que continuam a  se perpetuar na história atual dos EUA (e do mundo). O tom irônico, debochado, piadista poupa ou pelo menos diminui a potência das imagens e da carga histórica. Acha-se graça de um discurso de ódio quando esse discurso deveria ser rechaçado. Rir das violências contra Daisy ou da tortura cometidos por Marquis, como o roteiro de Tarantino sugere, é um passo para a barbárie.

A violência presente no filme não é catártica. O caminho escolhido pelo diretor não é o de oferecer violência suficiente aos seus espectadores para que eles se sintam saciados e ao mesmo tempo, distanciados das atrocidades. A violência é o meio, é a estética, que juntamente com o ódio serão o fio condutor dessa história e mais do nunca beira a escatologia. O próprio final confirma minha suposições. Todos morrem, das maneiras mais atrozes, sob a neve. Não há senso de justiça, mesmo no ato de enforcar uma condenada.

Na última cena, o atual e empossado xerife, após sua primeira execução, pede a famosa carta que Marquis recebeu de Abrahan Lincoln para ler. A carta é falsa, como seu dono dissera anteriormente. Lincoln deixara a ele uma missão. Mas qual seria a missão, de fato? É um artifício usado pelo ex-combatente para conseguir a atenção e o respeito de outros brancos. É irônico e desolador o fato de que o homem com a missão para ajudar a construir a América esteja agonizando. O que se vê é a selvageria, o discurso de ódio, a matança, o sangue que suja a tela e os personagens. Se o espectador não for cuidadoso, até ele mesmo terá algumas gotas em suas mãos ao fim da exibição.

O Abraham Lincoln inventado por Marquis é uma espécie de deus, o mesmo deus que a América criou para justificar e legitimar seus atos. Para o personagem de Samuel L. Jackson a benção vem em forma de legitimação social, uma carta capaz de igualá-lo aos brancos e fazer com que ele seja reconhecido, no contexto macro a benção divina vem para os norte-americanos como uma voz, impulsionando-os a conquistar e colonizar, de inúmeras maneiras o resto do mundo.

Do lado de cá da tela espera-se que a neve derreta.

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Quem escreveu

Daniel Matos
Jornalista, escrevo meus próprios roteiro e imagino filmes premiados em Cannes nas viagens de ônibus. Gosto de sala vazia, choro em (quase) toda sessão e minha lista de favoritos vai de Kill Bill vol. 1 à Central do Brasil.