007 Contra Spectre

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Uma adolescente comenta aos risos: “É muito previsível. James Bond sempre se dá bem”. Um senhor – talvez seu pai ou um tio – com um ar de felicidade no rosto, rebate com simpatia: “Acho que já vi uns dez 007 no cinema e sempre me divirto”. A conversa foi ouvida ao pé do ouvido após o término de uma sessão do novo 007 contra Spectre, que vem fazendo um grande sucesso nos cinemas. É interessante observar como essa franquia atrai não só uma audiência jovem, como também continua seduzindo gerações mais antigas. Nunca fui muito fã dos filmes do agente secreto e o conheci, nos anos 90, por meio dos longas-metragens estrelados por Pierce Brosnan. A escalação do inglês Daniel Craig como o novo Bond definiu rumos mais criativos para aquele que parecia reduzido a conquistar mulheres, se embriagar e dirigir carros velozes. Desde Cassino Royale (2006), foi apresentado ao público um universo ficcional muito melhor lapidado, que encontrou o seu auge no predecessor Skyfall (2012), o responsável pelas comemorações do quinquagésimo aniversário do personagem nos cinemas. Para a celebração, escalaram ninguém menos que o talentoso cineasta Sam Mendes responsável pelo premiadíssimo Beleza Americana (1999). Resultado: elevaram o nível do entretenimento.

Sam Mendes – após fazer de Skyfall uma grande bilheteria – retornou ao comando de mais um 007, porém, agora, acabou enveredando por caminhos um pouco mais distintos do anterior. A ordem do momento parece ser reverenciar os filmes antigos e fazer o público se divertir, sem que haja prejuízo da qualidade alcançada. Pensado para ser um “capítulo final”, depois da sequência Cassino RoyaleQuantum of Solace e Skyfall, todos estrelados por Craig, que em Spectre aparentemente encerra sua jornada na pele do personagem icônico, logo no início da projeção James Bond está numa missão não autorizada para vingar a morte de uma pessoa importante da sua vida. A sequência que abre a produção é digna de aplausos. Ocorre durante a festa dos mortos, no México, e, num excelente e bem executado plano-sequência, o agente secreto desfila pelas ruas disfarçado com uma máscara de esqueleto no rosto. Sem querer estragar a diversão, a sequência estupenda termina com um surreal sofá confortavelmente posicionado para o nosso herói. Ao abrir um filme com uma cena como esta, é como se a produção estivesse nos dizendo: leve-nos a sério, mas nem tanto. Neste novo capítulo, a missão é desvendar o que é a Spectre. No meio do caminho, surgem as famosas bond girls, cujos papéis são da italiana Monica Belluci – que aparece e some em poucos minutos e pouco acrescenta à trama – e da francesa Léa Seydoux, que carrega informações importantes para o desenrolar da história. Ao mesmo tempo em que Bond age às escuras, uma narrativa paralela mostra seu chefe M (Ralph Fiennes) lidando com a corrupção dentro do Sistema de Inteligência Britânico, cujos objetivos escusos pretendem reunir dados sigilosos de segurança dos nove países mais importantes do mundo e pôr um fim definitivo no projeto 00.

Mendes e sua equipe conduzem o novo 007 flertando o tempo todo entre o verossímil e o inverossímil, entregando uma produção na qual um quê onírico permeia toda a história. A fotografia de Hoyte Von Hoytema contribui muito nesse sentido. Observe, por exemplo, quando James Bond e sua bond girl, Madeleine Swann, depois de uma viagem cheia de perigos, desembarcam numa plataforma de trem perdida no meio de um deserto e, logo em seguida, no horizonte, surge um Rolls Royce com um motorista uniformizado. Perceba também a cena na qual a personagem de Monica Belluci caminha tranquilamente dentro de sua mansão enquanto assassinos profissionais surgem das espreitas das paredes da casa. Ou o cenário de luz branca estourada no qual o protagonista sofre nas mãos de seu algoz numa espécie de cadeira de dentista. A imagem, muito bem tratada de Spectre, nos remete aos piores pesadelos de nosso inconsciente, o que se torna providencial para o nosso processo de imersão quando estamos diante de narrativas tão surreais quanto as dos filmes 007. Em bom português: estamos diante da tal magia do cinema.

O tradicional videoclipe de abertura do longa-metragem, com a canção-tema tocando ao fundo (a voz da vez é Sam Smith cantando Writing´s on the wall), nos mostra um polvo com tentáculos imensos, análogos a serpentes, envolvendo corpos seminus. Chamas ardem sobre a pele de Bond, representando não só o erotismo, mas também a dor. O título da produção, apesar de se referir a uma organização secreta e terrorista, serve como metáfora da condição do agente neste novo roteiro. 007 Spectre é um filme que fala da morte. De matar e de morrer, do peso da consciência, de fantasmas do passado e de perdas irreparáveis. Não me lembro se em produções anteriores da série, algo nesse sentido foi feito, mas este, me parece ser o primeiro 007 que reflete diretamente a subtração de vidas, e isso fica evidente tanto no confronto final entre Bond e o vilão Oberhauser (Christoph Waltz, numa atuação sem novidades), como quando um importante personagem diz que “ter permissão para matar é o mesmo que ter permissão para não matar”. É uma breve reflexão provocativa sobre o grande poder que é dado a um homem comum. Ou seja, a responsabilidade de carregar uma arma de fogo. Claro que tudo isso é feito de forma muito leve, afinal, estamos diante de um blockbuster. Porém, fico imaginando o quanto o filme ganharia em qualidade caso o roteiro investisse mais na reflexão das questões que propõe nas entrelinhas.

Spectre tem seus problemas. O excesso de personagens talvez seja o mais problemático. O elenco escalado merece toda a atenção, mas muitos personagens são mal aproveitados, transformando-se, no decorrer de seus longos 148 minutos, em simples coadjuvantes. Léa Seydoux promove a bond girl com personalidade e vida própria, atendendo uma demanda dos tempos atuais por papéis femininos que representem um protagonismo dentro das tramas, não reduzindo a mulher a um apêndice de personagens masculinos. Aliás, é bastante curiosa essa gradual evolução das bonds girls – e vale uma observação cuidadosa – principalmente para quem acompanha a franquia desde o primeiro 007, lançado em 1962 e estrelado pelo inesquecível Sean Connery.

As cenas de ação são bem executadas com destaque para a perseguição nos Alpes e para uma luta dentro de um trem em movimento, cena que me lembrou bastante o embate entre Uma Thurman e Daryl Hannah em Kill Bill – Volume 2: um espaço pequeno, uma luta crua e brutal, com um leve senso de humor. A narrativa, surgida em 1953 nas páginas do livro do escritor Ian Fleming, tem como uma de suas marcas mais características, o exagero – das perseguições, aos diálogos, ao arremate das cenas – mesmo que Sam Mendes tenha conseguido imprimir algum equilíbrio, há excessos por todos os lados. Porém, é aquele tom onírico, do qual falei acima, que parece salvar tudo e que nos faz acreditar no inacreditável. Spectre é previsível, surreal e divertido. Não faz feio quando provoca alguma reflexão (mesmo que nunca aprofunde essas ideias). E como produto pop, que perpassou décadas, tem muito a dizer sobre a própria evolução da indústria do cinema de entretenimento.

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Quem escreveu

Flávio Max
Como crítico de cinema, mantenho o blog "Do Papel ao Movimento" desde 2011. Porém, escrevo sobre filmes desde que descobri a caneta e o papel como minhas armas favoritas no combate à ignorância; a minha e a de quem me lê. Penso a vida através dos filmes, por isso, gosto de longas-metragens que me façam pensar, mas consigo tirar reflexões até de produções muito banais. Afinal, a arte é sempre uma confirmação ou uma cisão das coisas instauradas ao nosso redor. Para mim, “a vida não tem sentido”, quando vou ao cinema “é como voltar ao útero e ver a vida surgindo” e “o maior brinquedo inventado pelo homem é o cérebro”. Lynch, Fellini e Chaplin na minha forma de ver o mundo.