Adeus à linguagem

1

(ou O cachorro do Godard)

Segundo o poema, a ideia é simples: desconstruir o cinema para montá-lo de novo. Jean-Luc Godard não é figurinha nova por essas bandas, alguém que inclusive dispensa apresentações. No seu último filme, Adeus à linguagem, o veterano diretor disseca o 3D não só para estudá-lo, mas também para colocá-lo à prova em suas imagens.

O filme conta a mesma história duas vezes: um casal de amantes cruza caminho com um cachorro. Nessas narrativas, o casal, literal e completamente nus entre as palavras, se veem perdidos na linguagem. Enquanto isso, o cachorro, que nunca está nu (porque faz parte da natureza), não precisa fazer uso da palavra. O homem, que tem o poder da palavra, é o único que conhece a nudez.

É um filme extremamente difícil de criticar, no sentido jornalístico da palavra. Merece muito mais uma análisis profunda. É quase impossível armar uma sinopse para aquele que não o viu. É quase impossível escolher palavras porque é um daqueles filmes que se sente mais do que se entende. O sentido está lá, esperando ser recolhido nos retalhos que são as imagens de Godard, um sentido revestido de um mundo de poder teórico impactante. Godard continua o mesmo dos últimos tempos: um louco apaixonado pelo cinema.

Grande parte do espetáculo é a exploração narrativa do 3D. Em vez de jogar objetos no espectador, são os olhos que são jogados de um lado pro outro. Num dos momentos mais sublimes, Godard termina criando uma nova nomenclatura: um tipo de plano que, de tão novo, não tinha nome ainda. Separa as imagens tridimensionais construídas à duas câmeras movendo apenas uma delas, deixando visíveis duas imagens ao mesmo tempo, uma por cada olho. Lógico, a técnica não seria nada se não estivesse em bom uso. O interessante é experimentar a confusão como parte do espetéculo.

Mesmo assim, num filme onde a linguagem desaparece, a linguagem que mais aparece é a do cinema, instaurada já a mais de cem anos. Como dizia André Bazin, mestre de Godard, o cinema é uma linguagem. Uma linguagem sem palavras que já estamos acostumadíssimos a falar.

2

Quem escreveu

Antonio Borduque
Agradecido por poder estudar o que mais ama, seu cérebro funciona a 24 quadros por segundo. Cada instante é um roteiro em potencial. Um freak da teoria, lê mais sobre cinema do que vê filmes, mas pensa em começar a viver mais pra ser um melhor cineasta. Atualmente morando na Argentina, é um diretor/técnico de som/pseudo-ator, cheio de projetos simultâneos, mesmo sendo um cético do multitasking.