O que o cinema tem a aprender com a tevê: Documentary Now! e a comédia de entrelinhas

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Há 40 o programa Saturday Night Live fez algo inédito na indústria do cinema e televisão. Com quadros extremamente sarcásticos, o SNL se popularizou por tirar sarro da cultura pop e criticar o mundo do cinema e a própria tevê com um grau de franqueza jamais visto. Era a metalinguagem ácida despontando como uma gratificante novidade, prenúncio de uma era em que a autocrítica seria a saída para a crise da indústria cinematográfica.

Era de se esperar que após todo esse tempo, os pupilos do programa começassem a trilhar seus próprios caminhos. Will Farrell, Tina Fey, Amy Poehler, Jimmy Fellon, Chris Rock, Julia Louis-Dreyfus, Andy Samberg e Kristen Wiig são só alguns dos nomes da comédia que despontaram na última década graças ao sucesso do SNL. Agora é a vez de Bill Hader, Fred Armisen e Seth Meyers (que também surpreendeu como o sucessor de Letterman em Late Night). Os comediantes são responsáveis pela nova série do canal IFC, Documentary Now!, um “mocumentário” (contração de mock, gozar em inglês, e documentário) no qual cada episódio é uma ridicularização de um documentário aclamado ou de importância histórica.

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A começar pela introdução, na qual Helen Mirren serve como host de um programa supostamente em sua 50ª temporada, tudo em Documentary Now! ironiza os defeitos do gênero documental, de forma que seu humor, por vez escancarado, na maioria do tempo se esconde nos traços estruturais dos filmes que eles buscam satirizar.

Em seu episódio de estreia, Sandy Passage, Meyers revisita Grey Gardens, que relata a história de “Big Eddie” e “Little Eddie”, tia e prima de Jackie Kennedy, que viveram por anos em uma casa completamente abandonada, onde gatos, ratos e gambás eram hóspedes frequentes, assim como a polícia local. Em Sandy Passage, Armisen e Hader encarnam “Big Vivvy” e “Little Vivvy”, reinterpretando cenas chaves do original. A mímica de Grey Gardens acaba servindo de estudo, colocando em cheque algumas das singularidades que o tornaram um estouro em 1976.

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É verdade que talvez a série não funcione tão bem como comédia para aqueles que não estão familiarizados com os filmes parodiados, mas mesmo assim corre o risco de encontrar entusiastas entre os fãs dos criadores, que como bons alunos do SNL, dominam a arte da imitação – o que difere um pouco desse último é que em Doc Now! eles se concentram mais nos detalhes do que nos exageros. Em Sandy Passage, a crônica só toma um rumo absurdamente hilário (e totalmente inventado) no fim, quando os documentaristas começam a fazer perguntas demais sobre as reclusas senhoras.

No segundo segmento da série, Kunuk Uncovered, a crítica é muito mais aparente e ferrenha. Nanook, o Esquimó foi tema de muita discussão, quando as barreiras entre documentário e ficção ainda não estavam totalmente definidas (mas pensando bem, estão hoje?). Acusado de manipulação, o filme de 1922 foi inspecionado 66 anos mais tarde, em Nanook Revisited, uma série de entrevistas com envolvidos no projeto em que se questionava alguns acontecimentos mostrados. O episódio parte daí. A equipe do especial Kunuk Uncovered vai atrás do cameraman (interpretado com especial dedicação por Tim Robinson) do filme Kunuk The Hunter, da viúva do diretor e de outros personagens que participaram das filmagens para descobrir até que ponto o documentário era um drama ficcional.

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As entrevistas são entremeadas com cenas do filme, com Armisen no papel de Kunuk. O episódio busca na controvérsia em torno de Nanook o material para o riso, mas também para contar uma história diferente, da desconstrução do processo de fazer um filme. O que começa como a filmagem de um documentário se transforma aos poucos em uma produção completamente roteirizada, atuada, montada e editada. Ainda sobra lugar para a crítica à certos comportamentos, à arrogância do diretor, à presunção de Kunuk e à ganância do agente do esquimó. Meyers, Hader e Armisan levam a parodia ao extremo, com atenção até aos pequenos detalhes, como as lentes originalmente utilizadas em Nanook, o Esquimó. O produto final é engraçado por si só, mas também é inteligente e ardiloso se tomado como um comentário sobre a indústria cinematográfica como um todo.

Dronez – The Hunt for El Chingon, o terceiro episódio, é provavelmente o que mais se encaixa nos dias atuais, trazendo a reality tevê para o centro da discussão. A fonte de inspiração é a série documental da HBO, Vice, que agrupa reportagens especiais feitas por Shane Smith and Suroosh Alvi, fundadores da agência de notícias Vice, um coletivo de jornalismo investigativo e imersivo que desperta quase tanta adoração quanto desprezo por parte da comunidade jornalística.

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Na ficção, Hader e Armisan interpretam três duplas de repórteres especiais da agência Dronez, comandada por um jocoso Jack Black. Eles vão para o México em busca de uma reportagem sobre o chefão do narcotráfico, El Chingon. No entanto dá tudo errado e os jornalistas vão sendo mortos e substituídos cada vez que chegam mais perto do traficante. Eles são todos basicamente várias versões do mesmo profissional, jovens corajosos e descolados que arriscarão suas vidas para contar uma história, mas não sem antes aproveitarem para postar selfies no Instagram.

A alfinetada foi recebida com classe pela Vice, que até recomendou a série em seu site, mas é difícil pensar que eles aceitaram tudo ali retratado como mera peça de humor. O tipo de documentário em que a história contada se torna também sobre quem a conta ficou extremamente popular nos últimos anos, e é pavoroso que o gênero tenha tomado a fixação do público por reality shows, que de realidade não tem nada, como um ponto a seu favor.

Meyers, Armisen e Hader constroem Dronez como o mais desinibido da série, no qual o espírito cômico se apoia quase que inteiramente no absurdo da situação. No entanto, como em Sandy Passage e Kunuk Uncovered, as camadas mais profundas de crítica e análise também elevam o humor, o que torna Documentary Now! uma das comédias de nicho mais estranhas e agradáveis da tevê atualmente.

O gênero documental e a comédia raramente se cruzam, a não ser no limite do ridículo. Mas se o ridículo tem algo a dizer sobre a forma que o cinema encontrou de contar histórias reais, talvez seja uma questão apenas de se redefinir os parâmetros da realidade dentro do processo cinematográfico. É possível esperar que o documentário, que se insere dentro dos gêneros cinematográficos, abandone totalmente a manipulação das emoções, que é justamente o que faz o cinema ser cinema? Talvez o que se precisava para dar o pontapé inicial na discussão era tratá-la como piada, a primeira delas sendo justamente a telinha da tevê dando lições para a telona do cinema.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.