Ouvindo o filme: Flores Raras

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Cinema é poesia. Com isso em mente, o diretor Bruno Barreto conta a história de amor e perda entre Lota de Macedo Soares e Elisabeth Bishop em Flores Raras (2013). Ambas são personagens reais. Lota foi a arquiteta responsável pela construção do Parque do Flamengo e Elisabeth, a reconhecida poetisa americana de North & South (1946). A relação de amor entre as duas também existiu e teve como pano de fundo o Rio de Janeiro das décadas de 1950 e 1960. No filme, a história tem ainda muita música e o grande responsável por ela é Marcelo Zarvos.

Ouça trechos da trilha:

Zarvos é um compositor brasileiro que vive nos EUA há mais de 20 anos. Não obstante sua formação clássica, ele foi tecladista da banda de rock Tokyo, nos anos 1980. Sua carreira internacional é pautada, literalmente, em composições para filmes, peças de teatro e repertórios de orquestra, dentre outros. Marcelo já recebeu duas indicações ao prêmio Emmy, pelos trabalhos em: O Retorno de um Herói (2009) e Você não Conhece o Jack (2010). Em Flores Raras, ele é o autor da maravilhosa trilha incidental que nos imerge no mundo de Lota (Glória Pires) e Elisabeth (Miranda Otto).

Logo no início do filme, quando Elisabeth faz a viagem que mudará a sua vida, ouvimos um piano constante. Parece, até, que o coração ansioso da personagem está ao nosso alcance. A música executada, durante a viagem de navio, é Crossing the Equator.

Conhecer uma casa nova pode ser bem surpreendente. É isso que nos sugere House Tour, a música que ouvimos enquanto Lota e Mary (Tracy Middendorf) apresentam sua casa para Elisabeth. A toada, que combina os sons de piano, metais e cordas mais graves, nos proporciona breves momentos de suspense, que culminam sempre em diálogos bem-humorados.

O primeiro beijo entre Lota e Elisabeth é levemente embalado por corujas e Corujas, a música que toca ao fundo. A trilha marcante vai arrefecendo aos poucos, enquanto as duas vão ficando mais íntimas e qualquer sussurro é o suficiente para ser ouvido.

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A trilha incidental de Flores Raras tem outras 23 composições que completam o álbum Reaching for the Moon. Combinada à trilha incidental, Flores Raras conta com uma excelente trilha sonora popular. Essas são as canções cantaroladas ou, ainda, as que tocam nas vitrolas.

A primeira música do cancioneiro brasileiro, que ouvimos no filme, é Kalu, na voz da rainha do rádio, Dalva de Oliveira. A composição é do cearense Humberto Teixeira, que escreveu a música para Dalva logo depois do término da parceria dele (de enorme sucesso) com Luís Gonzaga. E, como não poderia ser diferente, a Bossa Nova está bem representada no filme com as músicas: Coisa Mais Linda e Ela é Carioca. A primeira é uma parceria entre Carlos Lyra e o “poetinha” Vinicius de Moraes. O quase onipresente (quando se trata de Bossa Nova) Vinicius também é um dos autores de Ela é Carioca, dessa vez em conjunto com o maestro Tom Jobim.

O que seria de um filme que se passa no Rio de Janeiro sem samba? Mas esse não é o caso de Flores Raras. Os grandes expoentes do samba brasileiro – Dorival Caymmi e Cartola – são homenageados com suas canções na trilha do filme. Sábado em Copacabana, de Caymmi e interpretada por Beatriz Campos, se faz presente quando Lota e Elisabeth começam a frequentar a sociedade carioca juntas. Enquanto, Peito Vazio, de Cartola, toca na vitrola de Elisabeth em um momento de extrema solidão da poetisa.

Em se tratando de uma história com personagens brasileiros e norte-americanos, a música estadunidense não poderia ficar de fora. Em um momento de solidão mais livre, que Elisabeth passa a experimentar, ela dança ao som de Walking the Dog de Rufus Thomas. A canção foi um enorme sucesso quando de seu lançamento, em 1963, permanecendo por 14 semanas na Billboard Hot 100.

A constatação, feita por Elisabeth, da bem-sucedida inspiração de Lota para a iluminação do Parque do Flamengo, é acompanhada por Reaching for the Moon, na voz de Ella Fitzgerald. A composição é de Irving Berlin, e foi feita para um filme musical de mesmo nome, produzido em 1930. Reaching for the Moon também é o título que o filme recebeu para fins de exibição internacional. No fim, alcançar passa a ser uma ironia na vida das personagens. Pois, o que conta mesmo é a arte de perder, que não é nenhum mistério.

Mais trilha

As outras músicas que fazem parte da trilha popular de Flores Raras são: Don’t Explain (Arthur Herzog Jr. e Billy Holliday); Waltz Op. 70 nº 2 in F minor (Chopin); Don’t You Know (Christopher Andrews); Blue Mantilla (Henry Mancini); Blue Velvet (Lee Morris e Bernie Wayne)

Quem escreveu

Joamila Brito
Gosta de histórias fantásticas e ficção científica bem humorada. Assiste terror com moderação, pois nunca se sabe quando os fantasmas resolvem aparecer. E troca qualquer blockbuster por um filme gravado no interior do Brasil.