17º BAFICI: O céu dos bons ares

baf

Buenos Aires é um palco. Palco do cinema, do teatro, da literatura, e da vida de seus personagens, que atravessam as ruas da capital com a mesma força da poesia que os retratam. Buenos Aires é o cenário onde a ação se revela e a beleza acontece, na frente e atrás das câmeras, canetas e botas para a chuva. A chuva, hoje, é uma ameaça cinza que flutua sobre os bons ares de Buenos Aires, iminente. Saio de casa preparado. É o primeiro dia relativamente frio desde meses de calor. Às 17:45 tenho minha primeira sessão do Festival. Vejo El Cielo del Centauro, de Hugo Santiago, também o filme escolhido para abrir o evento na noite anterior, em uma projeção exclusiva para convidados. Não é uma decisão de puro capricho, já que o filme é uma homenagem de um portenho que volta à sua cidade depois de 40 anos sem filmar nela.

Espero não ter que entrar molhado na sala. Ei, dá para desligar o ar, por favor? Enquanto isso, sou exorcizado por uma sala cheia de pessoas apaixonadas pelo cinema, e muito provavelmente com Hugo Santiago junto ao coro, sentado em algum lugar na sala escura. Minha lista de afazeres hoje é extensa. Entre eles devo cruzar a cidade para buscar um gravador emprestado. Entre o metrô e o ônibus, consigo fazer tudo a tempo para chegar às 17:30 no cinema, seco e faminto. Correr para todos os lados sem almoçar é o preço que pago com muito amor para chegar à tempo. Nos 15 minutos que sobram, me compro um belo sanduíche de bife à milanesa, uma água e me sento em uma mureta ao lado de um bicicletário para comer.

Buenos Aires é cheia de personagens. Repleta deles. Moro num bairro chamado San Telmo, o primeiro bairro da cidade, abandonado nos anos 1960 durante uma epidemia de febre amarela. É um bairro antigo, boêmio e icônico. Imagino que cada bairro terá os seus, mas os que eu mais conheço são os meus. Um deles é Mariano. Um homem que caminha para todos os lados acompanhado de um cachorro, conhecido como Cacho (em espanhol, a palavra para pedaço). Além de Cacho, seu cabelo comprido, a barba mal ajeitada, os olhos fundos emoldurados em olheiras e seu caminhar particular são o que distinguem o diretor de cinema à quadras de distância. É professor de roteiro na minha faculdade e foi o responsável por Histórias Extraordinárias. Estou tão acostumado em vê-lo em San Telmo que me surpreendi quando o vi ajeitando sua bicicleta no bicicletário ao meu lado. Mariano era a única pessoa de bermuda da cidade. E também o roteirista do filme que eu estava para ver. Bom saber que ele também chegava em cima da hora. Mil desculpas, você é Mariano Llinás, não? Prazer, sou Antonio, enquanto apertamos as mãos. Verei El Cielo del Centauro. “Bueno… mucha suerte!”, me responde com um sorriso no rosto, e parte para algum lugar. Termino de comer e entro na sala.

Lotada. Sou um dos últimos a entrar, pelo menos completamente satisfeito. Encontro alguns amigos sentados nas cadeiras mais altas, mas encontro um lugarzinho no lado direito da quarta fileira. Se acomodam os últimos espectadores, entre eles Mariano Llinás, que se senta na segunda fileira, a única disponível. Enquanto ainda soam as vozes, uma mulher se planta na frente de todos com um microfone e convida a Hugo Santiago para apresentar seu filme. Aplaudido, Hugo desce as escadas e agarra o microfone. Palavras saem entre a respiração pesada, uma consequência, segundo ele próprio, de falar demais. Depois sobe para sentar-se acima de todos nós, observando sua audiência.

El Cielo del Centauro é uma homenagem à cidade, ou melhor, à memória da cidade. A trama segue um engenheiro naval francês que atraca em Buenos Aires pela primeira vez por apenas dois dias, aproveitando para deixar um pacote para Victor Zagros, amigo de seu pai. Tudo o que ele tem é um mapa e uma caneta. Na busca por Victor Zagros, o protagonista, apenas conhecido como “francês”, se encontra com um grupo de mafiosos que buscam o mesmo homem. Em apenas 24 horas, o francês se vê obrigado a percorrer a cidade para encontrar o amigo de seu pai e um objeto que ninguém sabe o que é, mas que poderia levá-lo ao homem que busca. O que segue depois é uma ode à cidade e suas ruas, acompanhada sempre do mapa. É um filme fantástico em todos os sentidos da palavra.

A delicada fotografia, em um branco e preto engenhoso, é acompanhada de um tango dos bons, lacrando a homenagem com classe. Hugo Santiago ainda se mostra um diretor dinâmico, com movimentos de câmera literalmente vertiginosos para mostrar o que só o cinema pode mostrar. Infelizmente, como se tratam das primeiras projeções, o filme ainda parece pouco polido. Complicações e falhas técnicas mostram um filme que foi terminado às pressas para sua estreia no Festival. Esperamos que corrijam isso antes do filme ser visto pelo resto do mundo.

Fora do cinema, o céu já está escuro e o chão continua seco. Tanto alarde para nada. Volto para casa de ônibus. Passo pelas ruas que vi no cinema assim como o cinema passa por elas. Foi um dia longo e o Festival continua amanhã. Me curvo sobre meu computador para escrever este texto enquanto lá fora el cielo de Buenos Aires derrama a chuva guardada durante o dia, quando todos já voltaram para o conforto de suas casas.

baf

Quem escreveu

Antonio Borduque
Agradecido por poder estudar o que mais ama, seu cérebro funciona a 24 quadros por segundo. Cada instante é um roteiro em potencial. Um freak da teoria, lê mais sobre cinema do que vê filmes, mas pensa em começar a viver mais pra ser um melhor cineasta. Atualmente morando na Argentina, é um diretor/técnico de som/pseudo-ator, cheio de projetos simultâneos, mesmo sendo um cético do multitasking.