17º BAFICI: Filas, histórias e expectativas

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Para variar, saio atrasado de casa. Tenho horário no médico. Subo correndo no ônibus que me leva até o bairro de Almagro, bem longe do meu bairro. Meu relógio me diz que são 07:45. Um cálculo simples me assegura que não chego muito tarde para a consulta. Bato os pés e me mexo incômodo no ônibus cada vez menos vazio. Nunca estou tão desperto à essa hora. Deve ser a adrenalina. Desço na parada e corro as três quadras até chegar ao hospital, o que não é muito inteligente para quem vai ter um estetoscópio gelado enfiado no peito logo mais. Me notifico à enfermeira e me sento na sala de espera. Estou rodeado de senhoras, provavelmente esperando suas receitas. Eu, por sorte, estou aqui apenas por rotina. Venho acompanhar os resultados dos exames anteriores. Me sirvo de um, dois, três copos de água. Assim, um atrás do outro.

Meu médico, o Doutor Maximiliano, abre a porta da sua salinha no final do corredor e demora para ler o primeiro sobrenome da lista. Não importa, não é o meu. Volto a sentar. Repasso a lista que fiz na noite passada. São 10 filmes, o que vai sair 250 pesos. Para um país onde uma entrada comum de cinema custa 95 pesos, está bastante bem. Estou contente com a seleção que fiz. Só me dou conta que o Dr. Maximiliano chama meu nome quando ele vem me buscar na sala de espera. Na sua pequena sala branca, nem sequer me pesa, só pergunta se baixei de peso. Me dá duas ou três indicações, anota em um papel os próximos exames a fazer, e tão pronto me diz “tchau”, já estou no 92 indo pro bairro da Recoleta.

Como não costumo tomar esse ônibus, olho a cada três quadras para o printscreen que tirei na noite passada. Meu celular me diz que são 09:15. Vou chegar lá e a fila vai estar no Brasil. Tudo bem, relaxo. As entradas não vão esgotar. É a terceira vez que eu passo por isso e nunca deixei de ver um filme por causa de entradas esgotadas. A uma quadra consigo 3G e vejo no Facebook amigos que já estão na fila desde às 08:00. E agora são 09:45. Dobro a esquina e vejo a fila. Como sempre, longa, saindo pelas portas do cinema. Passo rápido para chegar ao fim dela. No caminho, não encontro rostos conhecidos – devem estar todos lá dentro – e me instalo no fim da fila. São 09:47 e a venda de entradas começa às 10:00.

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Todos na fila têm menos de 25 ou mais de 60 anos. Lógico, os únicos que fariam fila para comprar entradas para um festival de cinema numa linda manhã de segunda-feira são os aposentados e os desempregados. Pensar que estou desempregado me desconcentra por um segundo, mas logo volto pro que é importante e preencho a lista de filmes a ver. Encho a minha revistinha da programação com ressalvas de marca texto e espero que a fila ande. O rapaz à minha frente me pede a caneta emprestada pela quinta vez. Cada vez que ele folheia a programação volta a encontrar algum filme que o obriga a comprar mais uma entrada. Começo a me preocupar se perdi alguma coisa. Mas não, dez entradas já são o bastante. Não vou ter tempo. Vai que consigo um emprego.

Fico nessa até a primeira hora. Uma moça irritada com um walkie-talkie na mão me deixa caminhar doze passos pra frente. Quanto será que ela ganha? Começo a puxar papo com a senhora atrás de mim. Ela está felicíssima com a programação deste ano. Começamos a sugerir filmes um pro outro. Ela quer ver a maioria dos filmes com a Isabelle Huppert, que vem ministrar um workshop. Eu fico com alguns outros. O filme que ela mais quer ver é Taxi, do iraniano Jafar Panahi. Oi? Passei direto por esse. Sem nem pensar já sei qual é o enésimo filme da minha lista. Francisco, na minha frente, me pede a caneta outra vez. Ele deveria deixar sua lista de filmes com seu nome em cima menos visível da próxima vez. Assim eu não saberia que vamos ver Taxi juntos na mesma sessão.

Passa mais uma hora. As reclamações de demora começam a ser audíveis. Queda do sistema, muita gente, não importa. Só penso nas entradas que já poderiam estar esgotadas. Sinto um pouco de frio. No lapso de um segundo sou atacado por dois homens e uma câmera. Me perguntam se posso dar uma entrevista sobre o festival para o canal da cidade. Se eu não perder meu lugar na fila, numa boa. Me dão um microfone e duas ou três instruções. Devo dizer meu nome, que filmes quero ver e que não perco o festival por nada. Deixo bem claro que estou ansiosíssimo para ver Ninfomaníaca, de Lars von Trier, em toda sua glória de 325 minutos de duração. O filme nunca estreou na Argentina, por conta da censura. E aqui está, completo e sem cortes. Não perco isso por nada. Troco contato com Javier, um dos homens da câmera. Estou cobrindo o festival para um blog brasileiro, digo. “Ah, é? Qual?”. take148, somos pequenos mas temos qualidade. Ele acha legal e espera que nos cruzemos durante o festival, já que também vai estar cobrindo o evento para o canal da cidade. Quanto será que ele ganha?

Estou dentro do cinema. Vejo as bilheterias. Ninguém aguenta mais esperar. Nos separam em dois grupos: aqueles com a intenção de comprar menos de seis entradas vão para uma fila especial. Droga. Se não tivesse somado mais um filme à minha lista, teria menos filmes para deixar de lado. Deixa pra lá. Não vou desistir. A senhora atrás de mim tem sete entradas para comprar, e também não vai desistir. Passamos tanto tempo juntos que ficamos amigos. Descobrimos que veremos um filme juntos na terça-feira 21. Me contou de suas filhas e da sua cirurgia recente no joelho. Essas últimas quatro horas em pé estavam proibidas para ela. Mas ela não perde o festival por nada. Deixo que ela passe na minha frente e logo tenho também minhas entradas comigo. Nenhuma esgotada. Me sinto o rei do mundo.

Volto para casa, passando pela enorme fila. Está ainda mais longa do que antes. Deixo sair um suspiro. Vejo os títulos dos filmes nas minhas entradas e com isso sei que esse vai ser o melhor BAFICI até hoje. Não perco o festival por nada.

Todos os anos a cidade de Buenos Aires é palco de um dos maiores festivais de cinema independente da América Latina. O BAFICI está em sua 17ª edição. Mais uma vez a programação conta com mais de 400 filmes, longas e curtas-metragens separados nas categorias Competição Argentina, Competição Internacional, Competição de Curtas, Mostra de Curtas, Panorama (que conta com clássicos do cinema restaurados), Vanguarda e Gênero, e o Baficito Animado (animações). Os países homenageados do ano são França, que traz Isabelle Huppert em toda sua filmografia como atriz e em carne e osso para os cinéfilos argentinos, assim como Peru e Coréia do Norte, que brindam clássicos de seus cinemas para novas telas.

Destaques brasileiros da programação vão para os que participam da Competição Internacional: Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira, e Prometo um Dia Deixar Essa Cidade, de Daniel Aragão. Também brasileiros estão Jorge Furtado com O Mercado de Notícias e Walter Salles com seu último documentário, Jia Zhang-ke, um Homem de Fenyang.

Destaques argentinos e internacionais vão para El Cielo del Centauro, de Hugo Santiago, um dos mais importantes diretores da história do cinema argentino, que além de ser o filme de abertura do festival conta com Mariano Llinás (diretor de Histórias Extraordinárias) no roteiro e na atuação, assim a estreia argentina de Ninfomaníaca, de Lars von Trier, em sua versão de cinco horas. Baficito Animado conta com O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata, saído do estúdio Ghibli; e com uma retrospectiva quase completa da obra de Chuck Jones, conhecido por ser o criador dos Looney Tunes. Os clássicos do Festival contam com restaurações de David Lynch, Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, John Carpenter, Hong Sangsoo, Fritz Lang, e muitos outros. São mais de 400 filmes em 10 dias! Você pode conferir a programação no site do festival.

A princípio, os filmes cobertos serão os seguintes: El Cielo del Centauro, de Hugo Santiago; Transeúntes, de Luis Aller; Ninfomaníaca, de Lars von Trier; Taxi, de Jafar Panahi; Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa; Everything That Rises Must Converge, de Omer Fast; O Velho do Restelo, de Manoel de Oliveira; A Girl Walks Home Alone at Night, de Ana Lily Amipour; Maidan, de Sergei Losnitza, e Fires on the Plain, de Shinya Tsukamoto.

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Quem escreveu

Antonio Borduque
Agradecido por poder estudar o que mais ama, seu cérebro funciona a 24 quadros por segundo. Cada instante é um roteiro em potencial. Um freak da teoria, lê mais sobre cinema do que vê filmes, mas pensa em começar a viver mais pra ser um melhor cineasta. Atualmente morando na Argentina, é um diretor/técnico de som/pseudo-ator, cheio de projetos simultâneos, mesmo sendo um cético do multitasking.