Cinquenta Tons de Cinza

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Foi hoje que  Cinquenta Tons de Cinza começou a ser exibido para imprensa, no Festival de Berlim, e já se nota uma certa euforia da crítica para falar do filme, que quase instantaneamente dividiu as opiniões. A boa notícia é que a obra faz barulho o suficiente para que todos queiram falar sobre ela. O bom e velho “falem bem, falem mal, mas falem de mim”. Assim, de cara, ponto para Sam Taylor-Johnson, que ficou conhecida por O Garoto de Liverpool (2009) e, desde então, estava afastada das câmeras.

Além de ser dirigido por uma mulher, é um melodrama erótico roteirizado por uma mulher, baseado em livro de uma mulher, que foca mulheres como público-alvo. Ainda que a história tenha, digamos, tons de sexismo, a produção por si só é uma vitória das mulheres, feministas ou não.

É um Crepúsculo para adultos. E compõe uma crônica absolutamente original, na qual uma fã da série Crepúsculo – que antes não era escritora –, E. L. James, escreveu uma série de pequenas histórias envolvendo os famosos vampiros em situações de conteúdo sexual sadomasoquista, que viriam a ser a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, destinada a virar uma trilogia (ou mais) cinematográfica, podendo se tornar um fenômeno ainda maior do que o original que inspirou a autora. Se isso não é impressionante por si só, considere o fato de que James integra agora o time de mulheres responsáveis por algumas das séries de livros mais rentáveis das duas últimas décadas. Mas paremos com as digressões.

É um Crepúsculo para adultos e, sendo assim, fica fácil reconhecer muitos dos cenários protagonizados por Edward e Bella reinterpretados por Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson). Ele é um empresário milionário que toca piano, dirige uma coleção de carros esportivos e esconde alguns segredos, ela é uma estudante tímida e romântica, de classe média, que vê sua vida mudar completamente depois de conhecê-lo. Até a cena do atropelamento que não acontece, em Crespúsculo, por causa dos reflexos ágeis de Edward, está presente. É quase como se a roteirista Kelly Marcel estivesse nos dizendo para não levar tudo isso tão a sério, e se divertir.

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Anastasia tem uma personalidade suficientemente interessante para que não pareça que sua vida foi salva pelo encontro com Grey (exceto quando é literal). Ela estuda Literatura Inglesa na faculdade, trabalha em uma loja de materiais de construção, se sustenta, tem amigos e uma carreira pela frente. A continuidade dessas nuances pode ou não ser interrompida nos próximos filmes da franquia, mas estão lá no primeiro e, por enquanto, isso basta. A incrivelmente bela Dakota Johnson acrescenta maneirismos e dá a personagem, enquanto ela ainda é virgem, uma inocência que vem acompanhada de curiosidade, de forma que sua entrada no mundo perverso de Grey se dê com a autoconfiança abalada pelo charme inestimável do milionário, mas que não deixa de vir de dentro.

Quando Grey nos apresenta o “Quarto Vermelho”, onde quase tudo é permitido (e fisicamente possível), Anastasia esboça uma reação que vai do estranhamento ao pavor, mas que está dominada muito mais por genuíno interesse pelos gostos excêntricos do empresário. Ele faz questão de frisar várias vezes a importância do consentimento, e insiste para que Anastasia assine um contrato judicial em que ela aceita ser a submissa e que ele seja o dominante. Suas exigências são bem particulares, e não só as sexuais. A mulher que estivesse em uma relação com ele teria que tomar o anticoncepcional receitado por um médico escolhido por ele, seria obrigada a se abster de álcool, cigarros ou qualquer outra droga, além de aceitar morar na casa dele de sexta a domingo. Grey leva a ânsia pelo poder em seu comportamento diário. Acostumado a receber o que deseja, ele está sempre atirando imperativos para todos a sua volta, dos empregados aos familiares.

Dornan (mais conhecido pelo psicopata da série The Fall, ao qual o roteiro não deixa de acenar) pode ter as piores falas, mas está empenhado no papel. O ator consegue desenvolver bem o encantamento do empresário por Anastasia e encaminha fisicamente – apesar de todos os “É você que está me mudando” – a mudança que ela vai promover nele nos próximos passos da história. Os atores principais dão vida ao show de Christian e Anastasia com verdadeira dedicação, tornando tudo bem mais agradável do que provavelmente seria se a dupla de Crepúsculo fosse repetida, como primeiro queria a autora.

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Curiosamente, a cena mais sensual de Cinquenta Tons de Cinza é justamente quando os dois negociam os termos do contrato, separados por uma mesa de pelo menos três metros de comprimento. Vemos uma mulher em pleno controle de seus desejos e poder de sedução, em plena consciência de que o objetivo das práticas de BDSM, por mais agressivas que sejam, é prazer. Se ela conseguirá conciliar os papeis de Grey (e também os seus próprios) dentro e fora do Quarto Vermelho é uma pergunta que quem não leu o livro terá que esperar os próximos filmes para saber.

No entanto, a polêmica vai se desenrolar mesmo no campo ideológico, já que o filme não poderá ser acusado de ser gráfico demais. Sim, é uma das poucas oportunidades de vermos uma mulher tendo orgasmos enquanto amarrada e vendada, mas é basicamente isso, o rosto de Anastasia. Talvez o que Cinquenta Tons de Cinza tem de mais sexista é a falta do corpo de Jamie Dornan, que exigiu uma cláusula rígida de nudez, enquanto vemos muito mais (mas nem tanto) de Dakota Johnson. No fim, os tão aguardados 15 minutos de cenas de sexo são polidos, educados e até românticos, montados de forma quase recatada, tamanha a quantidade de cortes rápidos, mas nem por isso deixam de ser sensuais.

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Sam Taylor-Johnson ainda acha espaço para exibir alguns de seus dotes artísticos como diretora, que incluem uma fotografia elegante, com belíssimas cenas aéreas, paisagens noturnas deslumbrantes e a exploração de ambientes luxuosos, e um ritmo que se impõe apesar da repetição de algumas situações.  Além de toda a beleza estética, Taylor-Johnson e Kelly Marcel fazem uma escolha inteligente ao inserir doses de ironia e humor em uma narrativa que poderia ser contada de forma muito mais séria – pense em Ninfomaníaca –, de forma que a leveza com que conduzem a obra seja um catalisador para introduzir a ideia que, mesmo quando agressivo, o sexo ainda pode ser prazeroso se feito de forma correta. Tal preocupação é clara, principalmente quando se trata de um público mais conservador, que constantemente precisa de catalisadores.

A trilha envolvente de Danny Elfman, que se consagrou compondo para as fantasias de Tim Burton, é manipuladora o suficiente para que estejamos atraídos demais para perceber a perspicácia. Além das modernas Ellie Gouding e Sia, sucessos antigos em novas versões regravadas por Beyoncé e Annie Lennox acabam de compor a trilha, que vai escalando em tensão ao longo da obra.

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O filme consegue se manter sexy e divertido na maior parte do tempo, mesmo com uma coleção impressionante de clichês (que muitas vezes vêm acompanhados de sarcasmo, um toque inglês raro em Hollywood e extremamente consolador).

Faz falta algum background dos personagens secundários, como a mãe de Grey (Marcia Gay Harden) e Kate (Eloise Mumford), amiga de Anastasia, mas a falha mais pulsante é com o passado do próprio Grey, contado rapidamente por ele mesmo.  Não ficamos sabendo nem como ele é tão rico ou o que sua empresa faz. Mas tem que se ter em mente que essa é a primeira parte de uma série, e portanto é ilusório esperar todas as respostas de uma vez – mas não deixa de ser decepcionante.

Longe de ser uma obra prima,  Cinquenta Tons de Cinza é de alguma forma marcante, se não pela história em si, por ser uma bizarrice estatística em termos de produção e por ter conseguido uma raridade: a transformação de um livro ruim com escrita pobre em um bom filme com um roteiro sólido. Se Marcel passa rápido demais pelo clímax, perdoamos, porque outros clímax virão. E se esse é um daqueles finais incrivelmente ardilosos, aposto minhas fichas que está para surgir algum tipo de síndrome de Anastasia, que vai afetar especialmente a crítica: foi estranho, mas é preciso voltar para mais uma rodada. E depois mais uma, e mais uma, e mais quantas tiverem.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Annie

    Parei no seu site/blog por acidente. Assisti 50 tons ontem de noite (e na onda assisti Secretária). Achei o filme até assistível, considerando todas as críticas. Não li o livro (tentei mas a literatura nele é pobre demais) e portanto não sei a história completa. O filme até que me agradou, esperava algo totalmente nível de crepúsculo com atores totalmente inexpressivos e acabei tendo uma surpresa.
    Não acho a Steele do filme submissa, afinal ela disse um Não bem grande para o Grey no final. Nao entendo nada de masoquismos e similares, só sei que esse tipo de coisa não é pra mim.
    Mas pra quem gosta, não podemos julgá-los.

  • Carol Silveira

    nem no primeiro livro fica claro o passado de Grey é mais para o segundo, Amei os livros e vou ver o filme na proxima semana , adorei ler a critica

  • Carol Silveira

    nem no primeiro livro fica claro o passado de Grey é mais para o segundo, Amei os livros e vou ver o filme na proxima semana , adorei ler a critica

  • Nando

    É que ele é rico, se fosse pobre seria um doente mental preso.

    • Ramon Alves

      É verdade…com o Grey, é opção mazoquismo. Com um cara qualquer, é maria da penha!

  • Nando

    É que ele é rico, se fosse pobre seria um doente mental preso.

    • Ramon Alves

      É verdade…com o Grey, é opção mazoquismo. Com um cara qualquer, é maria da penha!

    • Annie

      Parei no seu site/blog por acidente. Assisti 50 tons ontem de noite (e na onda assisti Secretária). Achei o filme até assistível, considerando todas as críticas. Não li o livro (tentei mas a literatura nele é pobre demais) e portanto não sei a história completa. O filme até que me agradou, esperava algo totalmente nível de crepúsculo com atores totalmente inexpressivos e acabei tendo uma surpresa.
      Não acho a Steele do filme submissa, afinal ela disse um Não bem grande para o Grey no final. Nao entendo nada de masoquismos e similares, só sei que esse tipo de coisa não é pra mim.
      Mas pra quem gosta, não podemos julgá-los.

  • Olá Ana!

    Adorei sua crítica.

    Ainda não tenho interesse, vontade ou mesmo coragem de ver o filme.

    Mas são poucas as pessoas que tem a coragem de falar que sim – o livro foi um boom! e fez muita gente que morria de preguiça de ler criar coragem para virar a página, por outro lado é péssimo.

    É o típico best-seller de dar medo: mal desenvolvido, raso, repetitivo.

    O que mais me irritou nesse livro não foi o fato disso tudo o que eu citei, mas a forma superficial como é tratado tanto os atos sexuais dos dois desde o nível de intimidade como os atos sadomaso em si e também a própria insegurança e falta de respeito que os dois tem para com a relação. (Não gente, ninguém que respeite o companheiro ou companheira vai ficar pegando no pé para saber de algo que o outro não está pronto para contar).

    Talvez isso me incomode pois não sou o público ideal de Crepúsculo ou desse tipo de obra.

    Mas para os fãs que querem conhecer um outro tipo de relacionamento verdadeiro e forte, honesto e íntegro que tenha sadomasoquismo recomendo também o filme “A Secretária” com Maggie Gyllenhaal. Para mim aquilo sim é algo que explora bem tudo isso que deixa tanto gente interessado ou raivoso com relação ao 50 tons de…

    Enfim, parabéns pela crítica! =)

    Domenica Mendes, 26 anos, historiadora, redatora, colunista e resenhista do site literário Leitor Cabuloso (www.leitorcabuloso,com.br).

    • Annie

      Eu não acho certo comparar 50 Tons com Secretária. Até pq a dinâmica de Secretária é totalmente diferente de 50 Tons. A personagem principal tinha problemas mentais, diferente da Anastasia.

  • Olá Ana!

    Adorei sua crítica.

    Ainda não tenho interesse, vontade ou mesmo coragem de ver o filme.

    Mas são poucas as pessoas que tem a coragem de falar que sim – o livro foi um boom! e fez muita gente que morria de preguiça de ler criar coragem para virar a página, por outro lado é péssimo.

    É o típico best-seller de dar medo: mal desenvolvido, raso, repetitivo.

    O que mais me irritou nesse livro não foi o fato disso tudo o que eu citei, mas a forma superficial como é tratado tanto os atos sexuais dos dois desde o nível de intimidade como os atos sadomaso em si e também a própria insegurança e falta de respeito que os dois tem para com a relação. (Não gente, ninguém que respeite o companheiro ou companheira vai ficar pegando no pé para saber de algo que o outro não está pronto para contar).

    Talvez isso me incomode pois não sou o público ideal de Crepúsculo ou desse tipo de obra.

    Mas para os fãs que querem conhecer um outro tipo de relacionamento verdadeiro e forte, honesto e íntegro que tenha sadomasoquismo recomendo também o filme “A Secretária” com Maggie Gyllenhaal. Para mim aquilo sim é algo que explora bem tudo isso que deixa tanto gente interessado ou raivoso com relação ao 50 tons de…

    Enfim, parabéns pela crítica! =)

    Domenica Mendes, 26 anos, historiadora, redatora, colunista e resenhista do site literário Leitor Cabuloso (www.leitorcabuloso,com.br).

    • Annie

      Eu não acho certo comparar 50 Tons com Secretária. Até pq a dinâmica de Secretária é totalmente diferente de 50 Tons. A personagem principal tinha problemas mentais, diferente da Anastasia.